Filmado na Cantábria, Dezassete, o novo filme de Daniel Sánchez Arévalo, aterrou na Netflix depois de uma curta passagem pelo Festival de San Sebastián, onde surgiu na Seleção Oficial fora de competição.

Nesta “dramédia” confinada a apenas duas personagens centrais e uma mão cheia de atores secundários com participações diminutas, seguimos a história de Hector (Biel Montoro), um rapaz de 17 anos muito particular que é internado num centro juvenil de detenção juvenil após cometer um roubo. É nesse centro que ele vai ter de tomar conta de um cão, mas quando esse animal encontra alguém que o adopte, Hector perde a cabeça e decide fugir do centro e partir numa viagem em busca do seu amigo.
A road trip que se inicia e que envolve Hector, o irmão mais velho e a avó doente – que responde a tudo com a palavra Tarapara – tem toques do cinema independente norte-americano,com uma enorme chama de crowd-pleaser de um verdadeiro reencontro de irmãos. Na verdade, essa desculpa da busca do cão serve apenas para um filme sobre o reaproximar das duas personagens, um deles recluso no seu mundo (Hector), e o outro, Ismael, interpretado por Nacho Sánchez, com uma responsabilidade extra de educar e ajudar o irmão mais novo, isto enquanto tem de lidar com questões pessoais ligadas à sua namorada.
Doce e sem assumir em pleno como comédia ou drama, Dezassete embarca pelas paisagens da Cantábria, visitando as origens das personagens, as suas raízes, numa jornada de descoberta e aproximação, sempre com um olho terno no relacionamento entre homens, animais e natureza, nunca perdendo o sentido de agradar o espectador sem com isso ceder a facilitismos.

Sánchez Arévalo explicou em San Sebastián que Dezassete é o tipo de filmes que gosta de ver e que Billy Wilder, Fernando Trueba e Alexander Payne foram certamente inspirações: “Trueba, sim. Quando ele ganhou o Oscar (Belle Époque), todos nós o aceitamos. A única coisa que aspiro, como cineasta, é ser melhor a contar histórias e, acima de tudo, aperfeiçoar a arte de misturar comédia e drama. É isso que mais aprecio como espectador e o que gosto como alguém na audiência é o que tento fazer como realizador. Para mim, o clímax deste tipo de drama agridoce é O Apartamento de Billy Wilder. Tenho outro semideus, que esteve aqui no ano passado no júri, que é o Alexander Payne, que faz filmes difíceis de classificar, como o Nebraska e Os Descendentes. Estes são filmes muito próximos da realidade e da vida que jogam entre géneros.”
Um guião escrito sem saber como tudo iria acabar

Tal como a road trip em que as personagens embarcam, a escrita do guião foi progressiva e sem um final à partida para algumas das personagens, como a da avó, ou até mesmo o destino final do cão com três pernas (que o realizador confessou ser já bastante idoso). “Nesta demanda de não fazer inteiramente uma comédia ou um drama, quando comecei a escrever, não sabia o que fazer à personagem da avó. E tão pouco ao cão com três patas. O tirar coisas [distrações] do guião e não forçar nada ou encher [de palha narrativa] surgiu naturalmente quando escrevia“, explicou Arévalo, acrescentando que acima de tudo tentou contar uma “história simples com emoção, poucos ingredientes e personagens em convulsão”. “Este é um filme muito despido, com apenas duas personagens, dois irmãos, numa viagem com um único objetivo. Tudo foi feito de maneira natural e não tentamos forçar nenhuma situação, nem o humor, nem o drama.“
Inversão de Papéis

Durante os eventos narrados no filme, os irmãos estão em polos opostos, com Ismael a tentar que Hector siga o código de conduta da sociedade e não o pessoal de um jovem que parece perdido nos desígnios convencionais da sociedade, explicitados no Código Civil Espanhol. O cineasta explicou recentemente, numa entrevista ao El País, que na verdade Ismael “até acaba por ser o mais perdido“, pois tem conflitos que não consegue resolver e assumiu “responsabilidades que não lhe correspondem“.
A caminho do desenlace, os papéis invertem-se como consequência dessa aprendizagem mútua entre irmãos, com Hector a servir de inspiração e modelo para Ismael resolver os seus problemas.

