Filmes da Marvel, “parques de diversão” e salas de cinema…

(Fotos: Divulgação)

O cinema começou a ser mostrado em feiras, como uma atração de circo, e acabou nos centros comerciais, como uma atração de circo!” – João Botelho

As declarações de Scorsese caíram que nem uma bomba num universo cinematográfico cada vez mais “disneyficado” pela cultura dos super-heróis da Marvel, mas a verdade é que ele tem razão e até foi pouco longe na sua visão.

Na verdade, não são apenas os filmes da Marvel que são “parques temáticos”. Eles são os objetos mostrados em salas de cinemas que têm progressivamente se transformado em verdadeiros “parques de diversão“, autênticas feiras com cada vez menos a ver com o Cinema como forma artística.

Podíamos até deambular pela fórmula do é bom ir ao Cinema para ver as coisas num ecrã grande (IMAX, etc), com som XPTO (glorioso) que distancia a experiência cinematográfica daquela que temos em casa. E podíamos até dizer que há muito que essa morte da experiência de ir às salas de cinema, de todo um culto e experiência social, começou a se estilhaçar. Até podemos começar pelos bilhetes para as sessões (adeus coleccionismo), agora transformados em tickets semelhantes a quem vai à mercearia ou ao talho (com todo o respeito). Depois, temos as pipocas, as bebidas, a malta a mexer no telemóvel, os intermináveis anúncios publicitários, seguidos de trailers normalmente ligados ao mesmo distribuidor do filme que vamos ver.

Nos dias que correm, até se vangloria e faz-se notícia sobre Hotpots de Wi-Fi nas salas de espetáculo, da venda de sushi em alguns cinemas e até que já podemos ter as pipocas que são vendidas nas salas de cinema diretamente na nossa casa através de Apps de entrega de comida.

É a banalização e mercantilização total das salas de cinema, que deixaram de ser aquilo que foram durante décadas e se transformam em algo diferente: verdadeira feiras, ou os “parques de diversão” que Scorsese fala. Claro que em vez de salvaguardar a experiência cinematográfica artística, transformou-se o cinema numa outra coisa qualquer, que até tem o sentido de existir num regime capitalista como o nosso.

Os jovens estão lá “batidos” nestes antros de diversão, as sagas do passado são ressuscitadas e os realizadores de renome dão jeito para atrair o público mais velho – que progressivamente deixou de ter como hábito rotineiro o ir ao cinema. Falo daqueles que ainda vão ver o Dumbo porque é um filme do Tim Burton, a Maléfica porque tem a Angelina Jolie (que com a técnica do De-Aging vamos ver durante mais meio-século nos nossos ecrãs), ou o Star Wars porque os remete à infância ou adolescência. É esse o tipo de filmes que se vão exibir nestas feiras; os filmes “espetáculo”.

Qualquer parque temático decente precisa de “atrações” rocambolescas, aquilo que normalmente se diz serem os filmes que “entretém”, distraem do quotidiano e nos fazem fugir dos problemas reais: ou seja, espaços de profunda alienação da realidade, com enredos sem verdadeiras consequências e reflexões complexas. E é isso que os filmes da Marvel são: objetos desprovidos de qualquer sentimento real, verdadeiro, até porque sabemos que se um desses super-heróis morrer, há sempre uma forma de repescar a personagem, nem que seja com aquela gímnica ultra-banalizada da viagem do tempo (Deadpool 2 e Avengers) para mudar eventos.

E essa cultura de transformar as salas de cinema noutras “cenas” (é a palavra certa) para além dos espaços que sempre foram, contaminou-se até em bizarros registos pseudo-institucionais. Veja-se o Cinema São Jorge por exemplo, que exibe filmes de vários festivais e que agora oferece no seu espaço comercial (vulgo café-restaurante) um terraço com DJs. Este fim de semana, tive a oportunidade de visitar a Festa do Cinema Francês, e ouvir na Sala Manoel de Oliveira – em paralelo ao som que vinha do filme 100% Camurça – as batidas eletrónicas “cool” vindas da varanda, as quais funcionaram como uma segunda banda-sonora do filme. Mas isto tem algum nexo durante uma projeção? O resultado foi uma distração extra, quase tão perturbante como a passagem do metropolitano que se sentia no “velhinho” Saldanha Residence.

No meio disto tudo, na transformação em algo mais que não é de todo a sala de cinema que conhecemos, na criação destas novas “cenas”, dá pena que com a explosão dos preços imobiliários na cidade não seja possível nascerem mais cinemas tradicionais, pois era a altura certa de apostar em “novos velhos espaços”, que atualmente na cidade de Lisboa, por exemplo, se resumem a dois locais: Nimas e Ideal.

Ir a um centro comercial e à maioria das salas dos grandes grupos transformou-se em qualquer coisa diferente que não uma ida comum ao Cinema. Tornou-se numa ida à feira popular onde temos de lidar com todos os feirantes e consumidores, que se movem entre filmes, sushi, pipocas, colas e “navegadores” da Internet. Ah, e agora ao som de DJs. 

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