Cannes: Clãs, elitismos e um arranque morno

(Fotos: Divulgação)

O Festival de Cannes abriu ontem as portas, começando de imediato o habitual sofrimento perpétuo das multidões que anualmente desembarcam na pequena localidade no Sul de França.

Pode parecer um desabafo de barriga cheia, não duvido, mas para aqueles que quando pensam em Cannes apenas se lembram do luxo e glamour da carpete vermelha, é sempre importante recordar que o maior festival de cinema do mundo é sinónimo de longas filas de espera, pior ainda, com finais frequentemente “trágicos”.

A ditadura da acreditação, que divide os diferentes elementos da indústria cinematográfica em clãs em constante conflito, vive estampada nos cartões carregados ao pescoço pela zombificada audiência. Há cartões cor-de-rosa (na realidade há dois rosas, um com pontinho e outro sem o dito), há azuis, há amarelos, laranja, branco sujo, roxos e os amaldiçoados por um branco claro com uns leves tons de azul bebe. A cada cor corresponde uma diferente categoria de prioridade de entrada nas sessões, entre outros privilégios. Ao longo do evento os clãs vão se habituando às condições impostas por uma indústria deveras elitista, com muitos a optarem por embarcar noutras aventuras, em particular naquelas que incluem cocktails e tostas com variados molhos gratuitos, uma combinação irrecusável, à beira mar.

Existe no entanto uma exceção à regra: na abertura do evento são poucos os que não regressam a “casa” cabisbaixos, depois de aguardarem horas ao sol ou chuva para nunca chegarem perto de entrar, independentemente da cor dos seu chocalho.

Com os festivais paralelos (Semana da Crítica e Quinzena dos Realizadores) a abrirem apenas hoje, e com um número muito reduzido de sessões, a batalha tornou-se particularmente “sangrenta”. Em condições normais tal fenómeno seria motivo de grande tristeza, mas segundo rezam as más línguas (já que este fiel narrador, sempre lado a lado dos fracos e oprimidos, foi obviamente um dos sofredores) os danos foram poucos, já que tanto o filme de abertura, La Tête Haute de Emmanuelle Bercot, e um dos mais aguardados desta primeira fase do festival, The Tale of Tales de Matteo Garrone, foram aparentemente um desilusão coletiva.


La Tête Haute

No primeiro caso, o retrato de um jovem precocemente violento graças a uma sociedade francesa que sempre o ignorou, com ecos do recente e polémico ataque à redação do Charlie Hebdo, nunca chegou a provocar grandes expetativas, com a atenção a focar-se acima de tudo no facto de que finalmente o festival abria com um filme realizado por uma mulher, algo de significativa relevância tendo em conta o vários “ataques” por parte de organizações feministas perante a ausência de mulheres atrás das câmaras na seleção.

No caso de Garrone, cineasta italiano que se tornou num nome de referência depois do sucesso de Gomorra, o seu novo trabalho, que consiste em três adaptações de lendas mitológicas napolitanas, era considerado como um possível contemplado mesmo antes do inicio do festival. Na realidade, a crítica parece dividida entre aqueles que esperavam mais e outros que descreveram o filme como meramente satisfatório. Salienta-se o consenso em relação à prestação de Vincent Cassel, que no papel de um homem viciado em sexo, deslumbrou novamente.


The tale of tales

Com a abertura das sessões paralelas o festival arrancou hoje no verdadeiro sentido da expressão. Há muito por confirmar, com especial destaque para a nova obra do portuguesíssimo Miguel Gomes, que promete fazer furor com o seu novo trabalho de umas deveras ambiciosas e arriscadas 6 horas de duração. Tudo a confirmar na próxima semana e meia.

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