Não me recordo de outro dia em que a Cinemateca esteja estado tão fúnebre e mórbida como no dia em que a própria instituição chamou de “O Dia de Manoel de Oliveira“. O portão de entrada traz as lágrimas ao mais mundano dos cinéfilos, com as suas velas gastas, flores apodrecidas e um lenço negro, imóbil e sem brisa que lhe valha, enquanto a tinta de esferográfica azul de um “Obrigado, Manoel” é levada pelas águas melancólicas de abril.
Não é a primeira sessão, antes já haviam passado O Passado e o Presente e O Quinto Império – Ontem Como Hoje (aquele em que um extraordinário plano de um cometa a rasgar o céu iniciava uma trama histórica e alegórica para os desapontamentos do Portugal contemporâneo). Os bilhetes, por alterações de última hora, ao invés de acarretarem um dos títulos mais enigmáticos da carreira do cineasta (Francisca), têm cravados o título “Era Uma Vez Sergio Leone” (estava agendada a exibição da versão integral de Era Uma Vez na América) com uma ténue faixa esverdeada que anula os prévios termos com apenas um, “Convite“.
Não tarda que sob a cúpula estrelada às portas da Sala M. Félix Ribeiro surga um aglomerado de pessoas de várias faixas etárias. Não tarda que abram a mesma passagem e a figura impune do “mestre” prenda-se na tela, olhando pacificamente para a sua direita, enquanto ao seu lado se suspendam as palavras “Os meus filmes são gritos“*. Não tarda que cada lugar vago seja preenchido pela curiosidade e respeito cinéfilo, um espaço cheio para ver a sessão de homenagem prometida. Ou, justamente, para a derradeira despedida ao realizador, num lugar que tanto o amou, e não em ambientes de cariz religioso. Uma sala de cinema é também uma igreja.
Abrem a sessão seis pessoas: o diretor-geral da Cinemateca, José Manuel Costa, que define o cineasta como autor não só de alguns dos melhores filmes portugueses, como também do mundo; a presidente da Associação Portuguesa de Realizadores, Margarida Gil; o compositor João Paes, que afirma que Diogo Dória e José Augusto (o protagonista masculino do filme) para ele sempre foram uma e a mesma pessoa; Diogo Dória, que desmente a afirmação de que o realizador não dirigia atores, seguido de uma cena complicada de filmar, que o levou a cair do cavalo seis vezes e a ouvir membros da equipa dizerem-lhe que “É o último filme do velho, ele está xexé“; a realizadora Rita Azevedo Gomes, na altura, responsável pelos figurinos que conta com boa disposição como conseguiu fazer bluff ao produtor Paulo Branco e ao cineasta, “Ele perguntou-me o que é que eu era capaz de fazer. Respondi-lhe “faço tudo”. Não se deve dizer isso a um homem“; e o próprio produtor, destacando a vitalidade de um homem de 75 anos que, no plâteau, tinha mais energia que os restantes membros, todos no máximo com os seus 30 anos e estreando-se no universo cinematográfico, assim como a essencialidade em restaurar o património fílmico português: “Não é só uma questão de ter riscos ou não. As próprias cores estão a perder-se“.
E depois, a película começa. Entramos no colo da penumbra da sala e do olhar do mestre. Os seus planos longos, os monólogos teatrais, a melancolia como principal estado de alma, no que bem define o chamado “realismo poético“, tal como se quer cada um dos grandes filmes do cineasta português. Ou, apenas, cada um dos grandes filmes. E a audiência ri-se com o seu sentido sardónico, pára-se-lhe o pensamento quando Teresa Meneses diz a frase eterna “A alma é um vício” e surpreende-se quando as cenas mais cruciais são repetidas iconoclasticamente em planos distintos.
Plateia e filme estão em comunhão até ao reacender das luzes que culmina num uníssono e caloroso aplauso. Ou, outra forma, de o dizer, naquela noite de 6 de abril de 2015, a obra saiu do ecrã, sentindo-se e apoderando-se, mais uma vez, da própria audiência que a contemplava. Não é o país, nem mesmo o mundo que são demasiados pequenos para albergarem Oliveira. É, mais do que isso tudo, a tela onde os seus filmes são exibidos.
*In: “Os meus filmes são gritos”, entrevista com Manoel de Oliveira por Fernando Da Costa, Visão, 14 de novembro de 2002.

