«Luzes» de Chaplin no Teatro Kabukiza

(Fotos: Divulgação)

Poderão as pantomimas de Charlot ser comparáveis ao peso cénico do teatro kabuki japonês? E porque não, já que a proximidade da arte de representação, os movimentos quase acrobáticos do “rei da comédia” e, no fundo, a ilusão e o sonho são comuns a ambos.

Talvez por isso, um dos grandes eventos do 27º TIFF tenha sido a visita ao teatro Kabukiza, o mítico palco do teatro kabuki, originariamente construído em 1889, em Ginza, no centro de Tóquio para uma sessão de gala em que muitas damas usaram o seu tradicional kimono. Este programa especial combinava uma demonstração do teatro kabuki com a projeção do filme As Luzes da Cidade, de Charlie Chaplin, de 1931. Uma associação com toda a razão de ser, desde logo por o Kabukiza ter aberto portas precisamente no ano em que Chaplin nasceu. De resto, o ator e realizador sempre nutriu o mais respeito e apreço pela arte da representação e teve mesmo a oportunidade de visitar esta mítica sala de espetáculos que aqui tem o seu expoente máximo. Pode falar-se até de um fascínio recíproco entre este género estilizado de teatro que teve origem no século XVII e combina o canto, a dança, mas também a habilidade, com a arte de Charlie Chaplin. O resultado mais prático chegou mesmo a ser uma versão contemporânea do kabuki, o Sewamono, encenada pela companhia após o impacto do filme As Luzes da Cidade, durante uma digressão aos Estados Unidos. Razões de sobra para que fizesse todo o sentido numa celebração integrada no TIFF.

Após uma visita às galerias do teatro onde tivemos oportunidade de conhecer a imensa história e espólio do kabuki, compreender o significado histórico desta forma de arte, a representação que se seguiu teve um significado bem mais adequado. Para isso fomos introduzidos ao significado das personagens, o guarda roupa, as pinturas e adereços, bem como os cartazes da performances realizadas pelo mundo fora, a que não é alheio o espetáculo realizado no São Carlos em Lisboa, em 1993. Mas o ponto alto foi mesmo a representação em todo o esplendor cénico, musical e iconográfico do melhor kabuki.

Seguindo a melhor tradição, durante o intervalo foi oferecida uma Bento box, no fundo, uma espécie de marmita com repartições para dividir as pequenas iguarias. Neste caso, precisamente com um menu secular, composto por arroz, peixe, carne, ovo, legumes cozidos. Enfim… um manjar dos deuses. Por isso mesmo, qualquer pensamento em pipocas seria uma ofensa para o kabuki e, claro, para Chaplin. Depois fez-se silêncio para reviver um dos mais belos e tocantes filmes da História do Cinema.

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