Cannes 2014 – O balanço

(Fotos: Divulgação)

 

Drama turco com travo a Tchekhov confirma Palma de Ouro
Mas será que Julianne Moore e Timothy Spall foram as melhores escolhas?

As profundas três horas e um quarto do drama turco Winter Sleep, de Nuri Bilge Ceylan, confirmaram a eleição de grande parte da crítica (o filme venceu também o Prémio Fipresci) na secção competitiva do 67º Festival de Cannes. Ao passo que o belíssimo Le Meraviglie, da italiana Alice Rohrwacher, vencedora do Grande Prémio do Júri, equilibram o palmarés com um tom de sensibilidade desta realizadora com uma rara capacidade de resgatar as emoções mais puras. De um lado, o prémio da estatística dos críticos – o mais votado desde o início nos “trade dailies”; do outro, o filme feito corpo vivo – esse teria sido o prémio da audácia. Mommy, do menino prodígio Xavier Dolan, e Adieu au Langage, de Jean-Luc Godard, ex-aequo para o Prémio do Júri, completam o pódio dos prémios do festival.

A estes se acresce a distinção para a interpretação de Julianne Moore, no olvidável Maps to the Stars, de Cronenberg e Timothy Spall no retrato biográfico do pintor J.M.W.Turner, segundo Mike Leigh. É verdade que mais parecem escolhas que acertam ao lado. Contudo, só quem nunca prestou serviço num júri é que desconhecerá os compromissos necessários para gerar consensos e, muitas vezes, para transmitir um júri que premeie todos os merecedores. É por isso que ao olhar para o palmarés deste ano se nota alguma bondade para agradar. Escolhas que, necessariamente, acabam por pecar pelo o arrojo e falta de emoção.


Mr. Turner

Há já alguns anos que Ceylan é uma espécie de eminência parda do festival, quase sempre vencedor embora ainda sem pertencer ainda ao clube dos laureados com a Palma de Ouro. Duas vezes Grande Prémio do Júri (Uzak – Longínquo e Era uma Vez na Anatólia, em 2002 e 2011), a que se soma o prémio FIPRESCI (Climas, 2006), bem como a Melhor Realização (Os Três Macacos, 2008), concretiza agora o inevitável. Do seu cinema só se pode dizer que é um belíssimo tapete de narrativas serenas resistentes ao tempo.”É uma grande surpresa para mim“, disse em palco o realizador de 55 anos ao receber o prémio das mãos de Quentin Tarantino e Uma Thurman. Seguramente, uma glória calhada no ano em que o cinema turco completa 100 anos.

Na verdade, é difícil ficarmos indiferentes a este cinema da palavra, do momento, da simplicidade, das conversas com ecos de Tchekhov. Um filme em que o tempo é primordial, ainda que coloque alguns problemas de distribuição. Em todo o caso, já comprado para Portugal, pela Leopardo Filmes.


Winter Sleep

Se Ceylan era dado como um dos favoritos, a interpretação de Timothy Spall na incursão de Mike Leigh em Mr. Turner cedo colheu um aplauso mais ou menos generalizado. Sabemos todos que Spall é um ator de peso e com a coragem da entrega. Mais calhado para papéis secundários, está em quase todos os frames deste biopic sobre o famoso pintor. E dirão os relatos que Mr. Turner seria um rezingão de primeira, ao que Spall se adequa. O britânico nunca fez feio, mas o seu rosnar e grunhidos acabam por se colar demasiado à interpretação, ao boneco.

Um Steve Carrell, praticamente irreconhecível, poderia ter sido uma alternativa, como o milionário John du Pont que decidiu, por capricho, criar uma equipa de wrestling para representar os EUA nas olimpíadas de Seul. Num registo de recriar um rosto e uma persona teria sido uma escolha mais aplaudida. Percebe-se: foi o prémio para Mr. Turner e para Foxcatcher o grande prémio da realização.

O problema adensa-se e carece mesmo de explicações ajuizadas no caso da interpretação feminina a Julianne Moore. Não só por em Maps to the Stars lhe caber um mero papel secundário, daqueles bem garridos e devidamente preenchidos com a ousadia que deixou bem patente em Boogie Nights, Shorts Cuts – Os Americanos, ou Magnolia. Mesmo aos 54 anos, a ruiva não se coíbe de mostrar do que é capaz, no papel da estrela cadente rendida à terapia para lidar com o facto de não ter sido escolhida para um filme cuja versão original tinha sido interpretada pela sua mãe. Isto para já não falar na célebre cena de casa de banho com direito a ruídos orgânicos… Terá sido este o prémio de consolação de Maps to the Stars?


Still the Water

Numa competição que se mostrou equilibrada, será sempre difícil evitar as injustiças. E se Jean-Luc Godard, Xavier Dolan, Andrei Zviagyntsev & Oleg Negin não passaram despercebidos pelo júri, já o belo e desarmante Timbuktu, de Abderrahmane Sissoko, Deux Jours, une Nuit, dos irmãos Dardenne – não faltou quem vaticinasse um ‘hat trick‘ – e sobretudo o belíssimo Still the Water da japonesa Naomi Kawase não mereciam sair de Cannes sem o devido reconhecimento além das criticas favoráveis. Seja como for, serão todos filmes que iniciam agora um novo périplo festivaleiro. Esperemos apenas que não demorem muito a chegar às nossas salas.

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