Cannes: Os irmãos Dardenne e a solidariedade em tempo de crise

(Fotos: Divulgação)

Presença constante na programação do Festival de Cannes, os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne regressaram ao certame para apresentar Deux jours, une nuit, um filme que trás à memória Rosetta (Palme de Ouro em 1999) e que coloca Marion Cotillard como Sandra, uma mulher que com a ajuda do marido terá de convencer os seus colegas a abdicarem do prémio anual para manter o seu emprego. O tempo está a contar e Sandra tem apenas um fim-de-semana para conseguir fazê-lo, ou seja, dois dias e uma noite.

Na habitual conferência de imprensa de promoção ao seu novo trabalho, os Dardenne garantiram que nunca viveram no mundo do cinema uma situação como a descrita no filme e que nunca verão, até porque «nunca teríamos proposto o tipo de acordo que aparece no filme (….) que é claramente uma forma de chantagem».

Nos tempos de crise económica, a temática do desemprego torna-se ainda mais relevante e lança mesmo a questão. Será que devido a essa crise perderam-se valores e ainda existe solidariedade numa sociedade que nos instiga cada vez mais à competição? Para os belgas, «a crise económica não promove a solidariedade», até porque «a solidariedade é algo que tem sempre de ser construída, não é algo que seja dado».

E não é fácil ou óbvio ser solidário. Pegando no exemplo dos anos 60 na zona onde viviam, relembram um tempo em que existiam grandes movimentos sociais e quando foi organizada uma greve por causa do fecho de uma unidade laboral. Os trabalhadores tiveram de optar entre o fazer greve ou não, e falar com as esposas para lhes dizer que o sindicato lhes daria uma compensação mas que essa seria sempre menos do que o ganhariam trabalhando: «Não é fácil mostrar a solidariedade quando existe uma queda de rendimentos (…) A solidariedade é uma espécie de compromisso moral e baseado numa decisão também moral. Quando tens uma votação de levantar a mão num meio sindical tens tendência a dizer sim e fazes a greve, mas se fazes uma votação recorrendo ao voto secreto as coisas podem correr de modo diferente».

Particularizando em relação ao filme, o duo relembra que a sua personagem principal não é militante nem pertence a nenhum partido político, mas diz que vai falar com as pessoas, ficando patente no final que «a solidariedade é possível nos dias de hoje» e que é isso que mostram no filme.

Mas será o filme e o seu final mais factual ou apenas alegórico? A história é inspirada em situações similares que aconteceram no fim dos anos 90 em diversas empresas, como a Peugeot, mas ainda assim os Dardenne respondem que foi complicado encontrar um fim para o filme, pois tinham vários caminhos e nenhum os satisfazia realmente: «É assim que nós trabalhamos juntos, somos como uma pequena máquina. Dependendo de várias propostas a máquina funciona ou não e quando não vai a lado nenhum é porque a proposta não é a correta. (….) se por acaso não quisermos contar a mesma história então é melhor não trabalharmos juntos como irmãos (…)».

A solução passa então por colocar as pessoas na pele das outras: «queríamos que a Sandra se colocasse na posição das pessoas que vai visitar e a única resposta que ela podia dar é que a dá no fim do filme (…) A palavra alegoria é difícil de utilizar. Tentámos com este final mostrar como a solidariedade que a Sandra encontra em quem visita e no seu incansável marido a muda (….) Por isso no fim ela pode dizer que lutou muito e sente-se feliz com isso. Podemos ver isso como uma alegoria, mas para nós ela mudou com essa solidariedade e vemos como a solidariedade pode realmente mudar as pessoas».

Cotillard abdica da sua identidade e assume a personagem de Sandra

Se Fabrizio Rongione encontra em Deux jours, une nuit a sua quinta colaboração com os Dardenne, esta foi a primeira vez que Marion Cotillard trabalhou com o duo, naquilo que ambas as partes definiram como um desejo mútuo. Questionada pela imprensa porque parece gostar deste género de papéis, a francesa admite que gosta da complexidade destas mulheres que vê como «lutadoras pela sobrevivência que vão descobrindo coisas dentro delas que não sabiam que tinham».

A atriz acrescentou ainda que é isso que lhe interessa na condição humana, que se sente tocada por estes “sobreviventes“, palavra que nem ela acha que seja a mais adequada: «Sinto-me motivada por pessoas que lidam com a vida apesar de determinadas situações, problemas, dos seus handicaps, por exemplo (…) Eu aprendo imenso sobre a condição humana quando visito e exploro estas pessoas.»

E como se preparou para o papel e entrou na personagem? Cotillard contrai-se e admite que é complexo responder a esta pergunta, pois tem consciência que quando o faz é demasiado vaga. Ainda assim, a atriz confessa que se entrega a essas personagens e que existe um processo: «Começa pelo ponto da descoberta, de conhecer outra pessoa. Quando eu aceito um guião e entro nessa aventura é porque me apaixonei pelo argumento, pela história, pelas personagens, os atores, os realizadores, ou seja, com todos os que vou viver a experiência (…) Eu não tenho um método de trabalho per se (…) gosto de pesquisar a personagem, o seu interior. Tento perceber como essa personagem funciona. Quando visito o interior de uma personagem sei como é o seu exterior, a sua aparência, até porque o seu comportamento físico seguirá o que essa pessoa tem no seu interior, a forma como se exprime, a sua personalidade.».

Para Cotillard esse processo «vem de forma natural» e que procura sempre elementos chave que lhe permitam trabalhar a personagem, embora nem sempre seja necessário entender toda a extensão e profundidade do seu papel: «isso aconteceu quando filmei com Jacques Audiard [Um Profeta] (…) Fiz muita investigação e cheguei à conclusão que esse não era o caminho certo. Achei que até para mim era necessário manter um tom misterioso porque de outra forma eu acabaria por provocar danos na personagem.»

Prémio de Melhor Atriz para Cotillard?

«Estou muito satisfeita de estar aqui com o filme dos Dardenne e tenho de admitir que nunca penso muito nessas questões [os prémios] (…) provavelmente é uma forma de defesa natural. Não é assim que eu trabalho como pessoa. Porém, quando as coisas acontecem e há prémios, fico agradecida e é algo que me dá uma grande alegria.»

O realismo ensaiado

Uma das ideias que normalmente se tem é que para dar mais realismo aos trabalhos a improvisação é um processo frequente. No caso dos Dardenne isso não é assim e para eles o conceito de realizar ensaios com os atores é fundamental: «todas as cenas são ensaiadas. Nós encenamos os diálogos 3 semanas antes das filmagens e no dia das filmagens fazemos o mesmo (…) objetivo é a perfeição (…) Existem sempre vários takes para chegar à junção quase perfeita do conjunto dos atores e com os movimentos da câmara. O ensaio é uma palavra-chave no cinema.», afirmou o ator Fabrizio Rongione.

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