Foxcatcher: o lado mais negro de Steve Carell

(Fotos: Divulgação)

 

Tal como Robin Williams quando participou em Câmara Indiscreta ou no remake de Insónia, Steve Carell passa pela mais notável transformação na sua carreira em Foxcatcher, filme de Bennett Miller no qual o comediante abandona completamente a sua “zona de segurança” e encara o papel de John du Pont, um milionário condenado pelo assassinato do profissional de luta-livre, Dave Schultz, aqui interpretado por Mark Ruffallo.

Na habitual conferência de imprensa de apresentação do filme no Festival de Cannes, Carell desvalorizou o facto de assumir uma personagem mais negra e longe da comédia, até porque para ele os atores preparam-se para as personagens e não para o género de filme, seja comédia ou não.

A verdade é que tal como Philip Seymour Hoffman em Capote, igualmente um filme de Benneth Miller, Carell desaparece na sua personagem, algo que chegou a ser uma questão na conferência de imprensa por parte da jornalista Chaz Ebert, que interrogou o cineasta sobre o seu trabalho com atores, como Hoffman e Carell: “Eu estou a tentar evitar a pergunta, porque ela torna-me emocional”, disse Miller, visivelmente abalado com a referência ao falecido Hoffman, acabando por declarar que «trabalhar com atores que estão dispostos a colocar a fé nele, faz com que tenhamos de estar gratos para o resto da vida.”

Steve Carell é John Du Pont

A preparação física e psicológica de Carell envolveu um longo trabalho, até porque havia uma “responsabilidade” em interpretar pessoas reais: «De certa maneira tinha alguma liberdade (…) mas li e vi imagens da personagem o mais que pude e de certa maneira tentei criar uma amostra do tipo de pessoa que era. Há muito escrito sobre John Du Pont, sobre a sua família e sobre o legado. Pesquisei o máximo (…) Também existem muitos vídeos e gravações, alguns feitos pelo próprio e também documentários que ele próprio encomendou.»

Ora tudo isto levou Carell a ter várias interpretações sobre a sua personagem, podendo escolher uma ou um misto de todas: «É realmente difícil entender o que o motivou a fazer o que fez ou que demónios tinha em si. Por isso, como a ajuda do Beneth e toda a equipa tentamos ver o que o motivava e que demónios eram esses.»

A transformação física do ator, que envolvia extensos trabalhos de maquilhagem levou também a alguns momentos caricatos e constrangedores no set de filmagens, como quando conheceu Nancy Schultz, a esposa na vida real de Dave Schultz: «Sim, eu lembro-me de a conhecer não como eu próprio, mas como a personagem, o que foi duplamente estranho pois a equipa tentou fazer com que eu parecesse o máximo possível com Du Pont. Naturalmente foi um momento bastante emocional e ela é uma mulher incrível (…) Como o Channing Tatum disse, [Nancy] mostrou-se muito compreensível com aquilo que tentávamos fazer (…) foi uma experiência extraordinária estar com ela mas foi muito melhor quando voltei a encontrá-la fora da personagem e tive a hipótese de sentar-me com ela e refletir sobre tudo».

Foxcatcher e o declínio moral da América

Bennett Miller

Esta foi uma das questões mais importantes feitas a Bennett Miller e apesar do realizador frisar que este não é um filme político, nem toma uma posição moral, o cineasta confessou que tentou perceber algumas dinâmicas: «Quando ouvi pela primeira vez os detalhes desta história foi muito bizarro. Senti que não iríamos encontrar nada que se assemelhasse a este comportamento (…) o que aconteceu foi tão bizarro, absurdo, algumas vezes até cómico e derradeiramente horrível (…) eu nunca tinha experimentado algo assim, mas ao mesmo tempo senti que tudo era também familiar. Dentro desta história havia temas que eram muito maiores que própria história, mas eu realmente importo-me com estas personagens e esta história. É para aí que dou atenção. Posso relacionar tudo com o mundo em que vivemos, ao nosso país, mas não me quero aventurar em comentar isso (…) Uma forma de ver o universo é usando um microscópio, outra é usando um telescópio (…) esta é uma tentativa com o microscópio».

Já Mark Ruffallo deu um toque semelhante na sua resposta, nas não conseguiu escapar a alguns comentários sobre a moralidade dos atos e ao sistema/sociedade onde eles acontecem: «existe uma tragédia grega na história (…) O que acontece quando tudo está a venda? (…) o que acontece ao talento quando está a venda? (…) ou quando pode ser adquirido por um preço? (…) e o que acontece às pessoas que vivem num sistema que valoriza que tudo tem um preço? (…) É a modernidade (…) existem imensas pessoas que não podem fazer as coisas que melhor sabem sem que consigam arranjar uma maneira de tirar dividendos monetários disso (…) isso tem grandes custos para o seu talento (…) e é um tema importante nos dias de hoje».

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