
As três sessões da Monstra dedicaram-se neste domingo à animação Húngara: a primeira sessão para pais e filhos, a segunda com “delícias” deste cinema e a última com uma longa. Na primeira sessão, cheia de crianças que, se nem sempre compreendiam o que era dito (apesar das legendas, a maioria delas não sabia ler ou ainda não conseguia acompanhar o ritmo destas), a animação revelou-se ser uma linguagem transcultural e independente da linguagem falada.
De todos os filmes apresentados tenho ideia (com o risco de estar a datar-me) de ter visto algumas das mais antigas no programa do Vasco Granja, como Como Assustar um Leão, de Pál Tóth, e Augusta: O Almoço, de Csaba Varga. Mas não foram apresentados só filmes mais antigos. Um dos grandes sucessos (pela resposta dos miúdos que me rodeavam e pelo que diziam enquanto saíam da sala no fim da sessão) foram All That Cats, de Mátyás Lanczinger, um filme de 2009 onde o beatboxing se mistura com animações de gatos em episódios humorísticos (ver aqui) e KJFG No. 5, que já tinha feito parte de uma das sessões de ontem e disponível aqui.
Talvez não tão simples e imediato como estes dois, mas de uma qualidade superior foi Nyuszi Ésõz / O Coelho e o Veado de Péter Vácz, um realizador húngaro de 26 anos que mostra aqui o seu potencial. O seu trabalho pode ser descoberto aqui e aqui. O filme conta a história de dois amigos que partilham casa mas que acabam por se encontrar em mundos diferentes por causa de um acidente estranho. É um filme que poderá ter leituras mais filosóficas sobre epistemologia e paradigmas de conhecimento, mas que poderá também ser uma reflexão sobre a amizade e crescer.
A segunda sessão do dia chamava-se Delícias da Animação Húngara nos últimos 50 anos e, como seria de esperar, algumas das animações incluem comida, como a alucinante Babfilm/Cenas com feijões de Ottó Foky, em que a sociedade moderna, com todas as suas complexidades e rejeitando simplificá-la, é representada por feijões, ou a mais negra Süti/Biscoitos, de Gyula Nagy, onde a massa de biscoitos, ao perceber qual será o seu destino, revolta-se contra a cozinheira. Esta também foi a sessão mais experimental, com filmes como Átváltozások / Metamorfoses, de György Kovásznai (ver aqui), Garabonciák / Feiticeiros, de Dóra Keresztes e István Orosz (ver aqui) e A Szél / Vento, de Csaba Varga.

Metamorfoses
Na última sessão do dia foi apresentada Daliás Idök/Tempos Heróicos, um filme baseado num poema épico que se estende por três livros de János Arany, escrito no séc.XIX e que conta a história de Miklós Todi, que serviu o Rei Luís no séc.XIV. A história usa uma estrutura clássica que pretende dar um modelo de moral e virtude a seguir, mas o que mais impressiona no filme é que, baseado no conceito de algo medieval, todo ele é pintado como um quadro a óleo. É um filme fascinante pela sua técnica e um ponto alto na animação, não só húngara, mas do mundo.

