«Rincón de Darwin»: os portugueses descobrem o Uruguai

(Fotos: Divulgação)

Estreou esta semana (06/03) em Portugal um raríssimo caso de cooperação entre Portugal e o longínquo Uruguai, um país de apenas 3 milhões de habitantes cuja produção cinematográfica não passava, há uns anos, de um único exemplar anual. Trata-se do primeiro filme do realizador Diego Fernández Pujol, cuja conversa com o C7nema é transcrita abaixo.

Uma aventura emocional

Rincón de Darwin, já exibido na Mostra da América Latina de Lisboa, é um road movie que narra a aventura, mais emocional do que física, de três personagens muito bem construídos e diferentes entre si. O trio é composto pelo entusiasta da tecnologia Gastón (Jorge Temponi), que vive uma recente fase de abandono pela noiva, o descontraído e com um passado pouco recomendável Beto (Jorge Esmoris) e, o mais velho deles, o circunspecto e algo melancólico Américo (Carlos Frasca).

A esta interação dramática, Fernández acrescentou um pitoresco facto histórico que nem os seus conterrâneos conhecem bem: o passagem do revolucionário cientista Charles Darwin pelos pampas gaúchos – num território que hoje pertence ao Uruguai e que foi batizado com o nome que dá título ao filme.

O dia em que Charles Darwin foi às pampas

Diego Fernández Pujol

O filme tem como um subenredo a passagem do famoso naturalista pelas terras que pertencem hoje ao Uruguai. Mas os conterrâneos de Fernández conhecem bem essa história? “Não muito“, diz ele. “Muita gente sabe que ele passou por aqui, mas é bastante desconhecido que ele ficou durante meses estudando. E é menos conhecida ainda a importância que esta passagem teve para a sua teoria da evolução“.

E como esse pano de fundo foi parar a um road movie a unir três homens com pouca coisa em comum, pelo menos no início da viagem? “A ideia original, diz o cineasta, era que três personagens muito diferentes tivessem que partilhar uma viagem. Depois conheci o lugar (Rincón de Darwin) e fiz uma investigação sobra a viagem de Darwin ao Uruguai. Aí decidi unir ambas as coisas e jogar com o paralelismo“. Dramaticamente, a opção comportava certos riscos: “Como género, o road movie implica uma evolução e aí podia-se cair na redundância. O meu objetivo era aprofundar os conflitos humanos, que não são diferentes de acordo com as épocas e as circunstâncias.

Como se fazem filmes no Uruguai

O cineasta relata que, diferentes de outros tempos, onde se produzia quanto muito um filme por ano, este país de apenas 3 milhões de habitantes agora tem conseguido manter uma regularidade de seis lançamentos anuais. “É muito difícil fazer filmes aqui, o mercado é pequeno e os fundos são poucos. Por isso os projetos têm de contar com subsídios. Mesmo assim, é incrível pensar na alteração que houve nos últimos 15 anos – e isso ocorreu não pelos apoios, mas pela realidade criada por produtores e realizadores que atraíram esses suportes”.

A participação portuguesa

E como os portugueses envolveram-se nesta parceria com os uruguaios? De acordo com Luís Urbano, diretor da empresa O Som e A Fúria, produtora responsável pela cooperação, ele conheceu o trabalho de Diego Fernández através das suas curtas-metragens que passaram pela Europa.

Este filme, ‘Rincón de Darwin’ foi-me proposto pelo Diego numa altura em que aqui em Portugal não havia quaisquer perspetivas de financiamento do cinema. No entanto, o projeto era interessante. Tratava-se de um filme pejado de humor Uruguaio. Sempre gostei do Uruguai e de algum cinema desse país“, observou.

Com um baixo orçamento (250 mil euros), o projeto acabou por ser viabilizado por algumas parcerias que Urbano reuniu em Portugal – nomeadamente no estágio da pós-produção.

As bilheteiras e a melancolia

Rincón de Darwin conseguiu por alcançar uma bilheteira razoável no país do seu realizador, vindo até a bater alguns blockbusters, como Assalto à Casa Branca e Reds 2 – Ainda mais Perigosos. Como em toda a parte, não é fácil produzir e distribuir obras locais. “Há um público interessado em ver cinema nacional. A oferta de filmes uruguaios tem crescido nos últimos anos, não só em quantidade como em diversidade. Mas há uma crença generalizada de que o nosso cinema é algo triste. É engraçado, até certo ponto, pois nós nos caracterizamos, entre outras coisas, por sermos um pouco melancólicos. Ou seja, não é causa que muitos filmes tenham esse espírito“.

A teoria dos vidros partidos

Diego Fernández Pujol já tem um novo projeto, uma mistura de comédia com filme noir intitulado A Teoria dos Vidros Partidos. A história passa-se numa pequena cidade onde começam a aparecer carros incendiados e o protagonista, um empregado de uma seguradora, tem de resolver o caso. Este, obviamente, será muito mais complicado do que parece… De acordo com o realizador, o projeto já obteve os fundos estatais do seu país e procura agora um parceiro internacional. “Temos tido uma boa receção e esperamos concretizar a produção até 2015“, disse.

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