Morreu Alain Resnais (1922-2014)

(Fotos: Divulgação)

Morreu aos 91 anos o cineasta francês Alain Resnais, autor contemporâneo da Nouvelle Vague mas da qual nunca se considerou fazer totalmente parte, preferindo antes enquadrar-se com a chamada “Margem Esquerda” de autores e cineastas que partilhavam um compromisso com a modernidade e um interesse pela política de esquerda.

Nascido em Vannes, Morbihan, em França, no ano de 1922, Resnais cedo se fascinou pelo cinema, como viria a confessar anos mais tarde numa entrevista com Richard Roud, correspondente em Londres durante os anos 50 da revista Cahiers du cinéma: «Nunca sonhei ser um realizador quando era jovem, mas quando vi pela primeira vez os números musicais de Fred Astaire/Ginger Rogers – ou então, ainda antes , com Dick Powell e Ruby Keeler – tive um forte, até violento desejo de fazer filmes. Esses números musicais tinham uma espécie de movimento sensual que realmente me agarrava, levando-me a pensar que gostaria de fazer filmes que tivessem o mesmo efeito nas pessoas».

Na verdade, Resnais inicialmente ambicionava ser ator tendo se juntado ao IDHEC (L’Institut des hautes études cinématographiques) com o desejo de ser editor para assim se aproximar do mundo dos atores. Ele acabaria por abandonar o IDHEC sem completar o curso e durante os primeiros anos após a guerra executou alguns filmes de forma privada, como Schéma d’une identification (1945) – que contava com Gérard Philipe no elenco. Seguem-se então uma série de viagens/estudos documentais ao mundo da pintura e aos seus artistas, como Oscar Dominguez, Lucien Coutaud, Hans Hartung e Félix Labisse. Mais tarde, a pintura voltaria a estar em foco na sua carreira, como trabalhos em torno de Van Gogh, Gauguin, Picasso e até um segmento sobre Goya em Pictura (1951).

Em 1955 deu nas vistas com a curta-metragem sobre o holocausto Nuit et brouillard (Noite e Nevoeiro) – obra encomendada pela Comissão de História da Segunda Guerra Mundial e projetada no festival de Berlim – e quatro anos depois filmava a sua grande obra prima, Hiroshima Meu Amor, escrita por Marguerite Duras. Sobre o empenho e fascínio do cineasta pelo projeto, Duras viria a declarar: «Antes de filmar, Resnais quis saber tudo sobre a história que iria contar e tudo sobre a história que não queria contar. Das personagens, ele queria saber tudo sobre as suas juventudes, as suas vidas antes do filme e até o seu futuro. Por isso fiz biografias das minhas personagens e o Resnais traduziu-as para imagens».

Hiroshima Meu Amor

Em 1961 filma O Último Ano em Marienbad, filme que viria a influenciar muito David Lynch e a conquistar o prémio máximo em Veneza, e dois anos depois regressa ao certame com Muriel ou o tempo de um regresso, obra na qual brilharia Delphine Seyrig, vencedora do prémio de Melhor Atriz no mesmo certame. Em 1966, com A Guerra Acabou, vence o Festival de Locarno, e em 1967, juntamente com Joris Ivens, William Klein, Claude Lelouch, Agnès Varda, Jean-Luc Godard e Chris Marker, «viaja» politicamente até ao Vietname sob a égide do grupo ativista francês SLON (Société pour le Oeuvres des Nouvelles Lancement/Sociedade para o lançamento de novas obras). Sob a liderança de Marker, o projeto Longe do Vietname mistura o registo documental e a ficção de forma a combater a propaganda americana e a cobertura dos Media durante a Guerra que assolou o país. Em 1968 realiza Amo-Te, Amo-te, filme que arrecada o prémio de melhor Ator para Claude Rich  no Festival de San Sebastián, e já na década de 70 assina Stavisky, o Grande Jogador (1974) e Providence (1977), executado em inglês com John Gielgud e Dirk Bogarde no elenco. Se o primeiro apenas viu a National Board of Review a premiar, a segunda arrasou nos prémios máximos do cinema francês: os César. Ao todo foram 7 estatuetas.


Alain Resnais com Ellen Burstyn nas filmagens de Providence

Nos anos 80 Resnais surge com O Meu Tio da América (1980), nomeado a um Oscar e vencedor de prémios em Cannes (Prémio Fipresci) e Veneza (Prémio AGIS), A Vida é um Romance (1983), Amor Eterno (1984), Mélo (1986) e Quero Ir Para Casa (1989).

Na década de 90 filma o premiado no Festival de Berlim Fumar/Não Fumar (1993) e quatro anos depois estreia nas salas É sempre a Mesma Cantiga (1997). Em 2003 surge com Nos Lábios Não e em 2006 regressa a Veneza com Corações. Em 2009, ano em que surge nas salas Ervas Daninhas, é premiado em Cannes pelo conjunto do seu trabalho e três anos depois regressa ao festival com Vous n’avez encore rien vu.

É já este ano, em Berlim, que apresenta o seu último filme, Aimer, Boire et Chanter, mais uma adaptação de uma peça do dramaturgo inglês Alan Ayckbourn, isto depois dos já falados Fumar/Não Fumar e Corações (2006).

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