«Estrada da Revolução»: uma odisseia portuguesa na Primavera Árabe

(Fotos: Divulgação)

 

Cansados de assistir aos acontecimentos de um mundo em convulsão através dos telejornais, num belo dia de janeiro de 2012, três portugueses abandonaram a sua zona de conforto e rumaram para o território mais conflituoso do mundo: o Médio Oriente. Chegaram quando as consequências dos dramáticos acontecimentos que derrubaram uns tantos ditadores por lá ainda estavam bem vivas na mente das pessoas – como demonstram os depoimentos recolhidos no filme. Pior foi na Síria: a entrar clandestinamente no país, depararam-se com um bombardeio que vitimaria duas crianças.

Tiago Carrasco (jornalista, que já tinha publicado Até lá Abaixo, sobre uma viagem de jipe do Marrocos até a África do Sul), João Fontes (repórter de imagem) e João Henrique (fotógrafo) iniciavam assim um périplo de quatro meses por nove países (Turquia, Síria, Líbano, Jordânia, Israel, Egipto, Líbia, Tunísia, Argélia e Marrocos), viajando por comboio, barco e avião, e acumulando 200 horas de gravação de imagens. O projeto culminaria, além do livro homónimo (da Oficina do Livro), em dois episódios televisivos e nesta longa-metragem para cinema, obra de estreia da realizadora Dânia Lucas. 

Testemunhos em primeira mão 

A Estrada da Revolução apresenta, entre outros materiais, muitos testemunhos do cidadão comum destes países, que trazem retratos dolorosos dos acontecimentos, mas cheios de esperança no futuro. Conforme explica Lucas, este foi um dos propósitos da empreitada. «No fundo, o projeto nasceu da vontade de testemunhar um momento histórico, de fazer parte daquele grito de mudança e, fundamentalmente, de poder relatar testemunhos de pessoas comuns cujas vidas sofriam, elas próprias, autênticas revoluções.» 

Mortes na Síria 

Um dos episódios mais dramáticos testemunhados pela equipa, objeto da sequência que abre o filme, foi um bombardeamento a um campo de plantadores de batata, na Síria.  Dânia Lucas relata que o impacto emocional foi enorme, pois foi a primeira vez que eles viram a morte de perto – tanto mais dramática que as vítimas eram crianças. «Isto tornou a situação quase insuportável. Um dos membros da equipa teve sérios problemas para ultrapassar toda a pressão, tendo inclusive de abandonar o projeto.»

 

Gás lacrimogénio na Palestina 

Como seria de temer, os jornalistas enfrentaram problemas diversos na sua trajetória e, em alguns momentos, tiveram mesmo a sua integridade física posta em risco. A realizadora relata que na Palestina, por exemplo, a equipa foi atacada com jatos d’água e gás lacrimogénio, no Egipto foram ameaçados violentamente pela polícia (que lhes cortou o cabo do som da câmara), e o repórter de imagem foi perseguido por um grupo de salafistas até conseguir chegar em segurança ao hotel. Na Argélia, por sua vez, foram impedidos de entrar por serem jornalistas – o que os obrigou a que, a partir daí, deixassem de se apresentar como tal, tentando ser o mais discretos possível. 

 

 

Dos teens às revoluções 

Especializada em ficção voltada para um público jovem, este é o primeiro empreendimento da BeActive no documentário e a lidar com uma temática adulta. De acordo com o diretor da empresa, Nuno Bernardo, o apoio ao projeto vem da necessidade de «não fechar os olhos àquilo que se passa à nossa volta». Ele também reforça a importância do projeto adequar-se àquela que é uma das marcas da companhia – as multiplataformas. Tal como Beat Girl e Collider, dois dos seus trabalhos de ficção já estreados nas salas portuguesas, A Estrada da Revolução também abrangerá cinema, televisão e web – para além do livro de Tiago Carrasco, lançado no ano passado. 

 

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