
A igreja católica irlandesa saiu do sossego das verdejantes paisagens insulares para tomar os jornais de todo o mundo a partir da década de 1990, quando irromperam em cascata um número de escândalos que pareciam não ter fim. O resultado foram relatórios gigantescos, centenas de padres e bispos acusados e a constatação que milhares de crianças foram sexualmente abusadas ao longo das últimas décadas dentro das instituições católicas da Irlanda.
Outro capítulo, de diferente matiz (sem cunho sexual), mas de igual crueldade, veio à tona em 2006, quando a septuagenária (hoje com 80 anos) Philomena Lee [na imagem acima] resolveu quebrar um silêncio de 50 anos e revelar um crime terrível cometido contra ela e várias outras adolescentes dentro do Sagrado Coração de Roscrea, localidade a 130 quilómetros de Dublin. Tratava-se da venda de crianças de adolescentes entregues ao convento pelas famílias por terem caído em “pecado” – ou seja, terem engravidado antes de casarem. Uma vez lá dentro, eram submetidas a trabalho escravo e os seus filhos posteriormente vendidos a ricas famílias dos Estados Unidos. A história originou o livro The Lost Child of Philomena Lee, do jornalista Martin Sixsmith.
Os crentes e os céticos

Sete anos depois o ator Steve Coogan e o argumentista de televisão Jeff Pope pegaram no material, tomaram certas “liberdades poéticas” e o transformaram no argumento para este trabalho do veterano Stephen Frears. O resultado foi um drama eficaz e bonito, com personagens ricos e densos, onde Judi Dench tem o protagonismo, mas também Coogan aparece para mostrar que não serve só para os (excelentes) filmes de Michael Winterbottom. E há Frears, que quando não está a realizar descalabros como Mary Reilly e Lay the Favorite, alcança resultados sólidos (A Rainha) ou mesmo obras-primas, como o já clássico Ligações Perigosas.
O centro dramático do filme é a relação entre uma bondosa e ingénua velhota, Philomena (Judi Dench), cujo crime hediondo de que foi vítima nunca a impediu de continuar a ter amor pela vida e fé nas pessoas, com um ex-assessor de imprensa do governo Tony Blair, Sixsmith (Coogan), caído em desgraça e movido por todo o cinismo próprio de quem circula nas altas esferas do poder político. Os dois cruzam-se quando o jornalista aceita investigar o desaparecimento da criança.
Dogma distorcido
O filme tem-se movimentado entre a aclamação crítica, os prémios em festivais e o desgosto de certos católicos. Destes, um dos mais ouvidos foi um jornalista do New York Times, Kyle Smith, que disse que se trata de mais “um filme diabólico” contra os católicos e que não menciona que as crianças nascidas naquelas condições estavam fadadas à desgraça e, portanto, as freiras estariam a lhes propiciar um futuro melhor.
No blog de um jornalista da CNN, Coogan respondeu: “Mas a razão para essas raparigas serem ostracizadas e desprezadas era a de que a igreja afirmava que estaria lá para cuidar delas. A igreja podia ser parte da solução, mas também era parte do problema – por causa do seu dogma distorcido“.
O final da história: as diversas faces do marketing

Filomena está nomeado aos Oscar nas categorias de Melhor Filme, Melhor Atriz (Dench), Melhor Banda Sonora (Alexandre Desplat) e Melhor Argumento Adaptado (Steve Coogan e Jeff Pope). Com exceção da música, a obra teve as mesmas nomeações nos Globos de Ouro e ganhou diversos prémios na última edição do Festival de Veneza.
Como um desenlace final para a história fora do filme, a verdadeira Lee há poucos dias teve uma audiência com o papa Francisco, que não perdeu a hipótese de acentuar a imagem revigorada da afiadíssima equipa de marketing do Vaticano e mostrar-se condescendente e liberal. Já o ateu Coogan, que tomou parte no encontro, teve que explicar que não foi ao Vaticano apenas como parte da estratégia para promover o filme… Philomena Lee, por sua vez, longe destas artimanhas seculares, disse ao The Guardian que “sentiu-se aliviada por ser libertada pelo papa de uma culpa de 50 anos“…

