Jack Ryan: saudades da Guerra Fria

(Fotos: Divulgação)

Ele está de volta, na sua quinta existência cinematográfica. Jack Ryan, o super agente criado por Tom Clancy, agora é revistado por Chris Pine, o mesmo que há cinco anos deu nova vida ao Almirante Kirk na ressurreição de Star Trek. No comando está o especialista em Shakespeare e cada vez mais de olho no cinema-pipoca Kenneth Branagh – que vinha da primeira obra da franquia Thor.

Aqui um jovem mas já idealista Jack Ryan, que adere às forças do seu país quando assiste na televisão o ataque às torres gémeas, termina por tornar-se agente meio sem querer. Enviado à Moscovo para investigar crimes de corrupção financeira, acaba envolvido em lutas, tiros e perseguições ao deparar-se com terroristas russos.

Uma das novidades é o facto de Branagh ter tentado dar um grau mais elevado de humanidade ao seu protagonista, utilizando para isso o recurso de uma noiva afetuosa (Keira Knightley) cada vez mais inconformada por ser relegada a segundo plano enquanto o marido persegue rumos que ela não compreende.

Saudades da Guerra Fria

A verdade é que, para a vertente patriota do cinema de ação made in USA, está difícil encontrar nos dias que correm um vilão com o apelo dos seus velhos inimigos do pós-guerra. Dos chineses, com as companhias norte-americanas cada vez mais interessadas em abocanhar largas fatias do seu apetitoso mercado, simplesmente não é de bom tom falar mal; já os norte-coreanos, pelo seu papel minúsculo no cenário mundial, dificilmente soam credíveis; por fim, de traficantes latino-americanos e terroristas árabes os espectadores já parecem estar saturados.

Isso explica que Brannagh, especialista em atualizar as complexas tramas renascentistas de Shakespeare, nem se tenha dado ao trabalho de fazer o mesmo em relação ao patriotismo primário das obras de Clancy, trazendo para aqui uns russos mais caricatos do que nunca. Moscovo é uma verdadeira selva repleta de homens violentos, assassinos, corruptos, fanáticos, bêbados – tudo simbolizado no personagem que é vivido pelo próprio cineasta, um terrorista de Estado que espanca selvaticamente um enfermeiro que não consegue lhe dar uma injeção da forma apropriada.

Para justificar a ressurreição deste antagonista hoje politicamente moribundo a ideia foi passar a economia para o primeiro plano. Jack é antes um analista informático, que investiga burlas financeiras e a forma como estas podem ter um papel a desempenhar na macropolítica global.

Essa foi mesmo a explicação dada pelo produtor Lorenzo di Bonaventura, numa entrevista a Screenrant. “O filme é incrivelmente contemporâneo, em particular no seu aspeto económico. Aquilo que move o filme tem a ver com a ordem económica atual, com que quem está a tentar controlá-la“.

A quinta vida de Jack Ryan

Talvez o único exemplar da franquia a merecer um lugar na posteridade, Caça ao Outubro Vermelho inaugurou a série de adaptações das obras de Tom Clancy, em 1990. Com um drama sufocante passado quase todo no interior de um submarino, trazia o hoje detido John McTiernan em grande forma, Alec Baldwin com a cara certa para o personagem principal e um vilão extremamente ambíguo vivido por um dos grandes atores de sempre, Sean Connery.

A seguir Harrison Ford foi Ryan a enfrentar terroristas do IRA (Jogos de Poder- O Atentado, de 1992) e cartéis de droga (Perigo Imediato, 1994), ambos realizados por Philip Noyce. Oito anos depois era a vez de Ben Affleck encarnar o personagem em “A Soma d e Todos os Medos” onde, sob o comando de Phil Alden Robinson, enfrentava neo-fascistas.

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