Ninfomaníaca: o ingrediente secreto do sexo

(Fotos: Divulgação)

Estreia em duas partes em Portugal a nova peripécia do enfant terrible Lars von Trier e, caso raro no cinema de autor, em simultâneo ou mesmo antes de alguns dos principais mercados internacionais. A primeira parte de Ninfomaníaca estreou há mais de uma semana (16/01); a segunda chega aos cinemas a 30. Aproveitando a efeméride, também o C7nema lança um mergulho tanto nos dois filmes quanto na controversa e diversificada obra do cineasta.

 

 

Uma orgia de marketing

A estas alturas qualquer espectador interessado vai ter que abrir caminho por entre uma selva de evidências enganosas. A principal delas diz respeito a uma estratégia de marketing internacional de gosto duvidoso, tentando vender gato por lebre e insinuando que se trata de um filme erótico. Como sempre, quando a polémica não vem de encontro ao realizador é ele ou seus produtores que vão atrás dela.

Na verdade o que filme demonstra é o quão pouco erótico um filme com sexo explícito pode ser e, se pode ser acusado de algo em relação a isso, é o de ter esvaziado de qualquer sensualidade ou emoção as cenas de nudez que exibe. Ou, para usar os diálogos (irónicos) do próprio filme, “sem o ingrediente secreto do sexo, o amor”…

Os Rammstein e a arte do Story Teller

O filme inicia com uma abertura de rompante à Ondas da Paixão (seu filme de 1996), mas aqui a simpática canção de David Bowie é substituída pelos violentos acordes do grupo de rock industrial alemão Rammstein. A partir daí, von Trier atira o espetador para dentro do mundo de Joe (Charlotte Gainsbourg/Stacy Martin), que depois de ser encontrada toda desconjuntada e sem sentidos no meio da rua, conta a sua história ao desconhecido vivido por Stellan Skarsgård.

Marca do cinema do cineasta, também este Ninfomaníaca é dividido em capítulos que não esconde o facto de que, por trás das múltiplas facetas que o dinamarquês costuma apresentar, ele é antes de mais um story teller. Talvez até seja por isso que teria sido desnecessário dividir as suas quatro horas em duas partes, pois ainda se está bem imerso na narrativa quando o filme subitamente termina.

Bach, Poe e técnicas de pescaria

E o que tem uma ninfomaníaca para contar, para além de histórias de encontros sexuais (que chegavam a dez por dia e cuja iniciação deu-se num comboio numa competição com um amiga onde ganhava que tivesse mais relações até o final da viagem)? Essencialmente, situações que ligam a sua “adição” aos momentos comuns a qualquer ser humano – a infância, a descoberta do sexo, o primeiro amor, a morte, o adultério.

Mas o coctail que compõe aquela que talvez seja a obra mais “pop” do realizador (por outras palavras, a mais palatável ao grande público) ainda é acrescido por noções apresentadas de forma divertidamente didática – e que mistura a polifonia de Bach, os números de Fibonacci, técnicas de pescaria, a etiqueta para se comer bolo, o delirium tremens e o terrífico A Queda da Casa de Usher, clássico de Edgar Allan Poe.

Visualmente apurado e já há muitas milhas do despojamento do Dogma 95, Ninfomaníaca conta ainda com célebres participações no elenco. Para além de Gainsbourg e Skarsgård, a grande estrela do primeiro filme é Stacy Martin, que faz aqui uma estreia em grande numa fase em que o cinema autoral vai revelando ninfetas (como Marine Vacht, de Jeune et Jolie, ou Adèle Exarchopoulos, de A Vida de Adèle). Mas também há uma participação marcante de Uma Thurman, outra digna de registo do cada vez mais esmerado em tornar-se um bom ator Shia LaBeouf e, num papel importante, o veterano Christian Slater.

As trilogias: a Europa gélida

No começo era a técnica. Ainda longe das enormes polémicas e das variações estilísticas que marcariam a sua obra, Lars von Trier aparece, na sua primeira trilogia, dedicada à Europa, a mostrar o que aprendeu na prestigiada Escola de Cinema de Copenhagen. Foram tempos pacíficos, onde o realizador escandinavo contentava-se em coletar prémios no Festival de Cannes, onde aportou já com o seu primeiro trabalho, O Elemento do Crime, em 1984. Direto para a seleção oficial, onde ficou na companhia de mestres consagrados como Theodoros Angelopoulos, Bertrand Tavernier, John Huston, Werner Herzog e Wim Wenders (vencedor da Palma de Ouro com Paris Texas), ele levava para casa o seu primeiro galardão, o “Prémio de Contribuição Técnica“.

Filme de refinamento visual verdadeiramente impressionante, O Elemento do Crime inseria-se na tradição plástica do cinema dos anos 80: nesta mesma edição de Cannes Jim Jarmusch vencia a Câmera D’or com Para Além do Paraíso, enquanto o francês Jean-Jacques Beinex deslumbrava alguns e irritava outros com seus ultra estilizados espécimes. Em termos de releitura noir, esta obra ainda atualíssima fazia par com a estreia dos Coen, com o magnífico Sangue por Sangue.

Epidemia causou menos impacto: em preto-e-branco e com imagens granuladas, que seria também uma das suas marcas, tinha como protagonista o próprio realizador que, em companhia de Niels Vørsel, escrevia o argumento de um estranhíssimo filme distópico sobre uma epidemia. Não foi esquecido em Cannes e fez sua estreia na A Certain Regard.

Von Trier voltava à ribalta em 1991 com o belo e gélido Europa, onde novamente elementos do noir ressurgiam, assim como a utilização de um dos seus artifícios favoritos dos seus primeiros trabalhos: a hipnose. Com uma colagem visual elaboradíssima, que misturava na mesma cena o preto-e-branco com cores, o cineasta mergulhava no pós-guerra europeu através de uma história passada na Alemanha imediatamente após o fim da 2ª Guerra Mundial.

As trilogias: um coração aquecido

A acusação mais recorrente que os menos entusiastas fizeram nesta altura foi de que estas obras eram excessivamente “frias” na sua perfeição estilística. A dar atenção ou não a isso, o certo é que von Triers adaptou o lema de um velho escriba de “quem fica parado é poste” e orientou sua carreira para rumos completamente diferentes com a trilogia Um Coração De Ouro.

Antes disto, fundou com Thomas Vintenberg o movimento Dogma 95. Conforme explícito na sua declaração de intenções, o objetivo era devolver a simplicidade à sétima arte, livre dos pressupostos do cinema tecnológico norte-americano, assim como os das suas fórmulas narrativas. O famoso “voto de castidade” do movimento impedia a utilização de efeitos visuais, sets construídos artificialmente e bandas sonoras, entre outras particularidades.

“Os Idiotas seria a primeira obra segundo os novos regulamentos. Antes disso ainda executou Ondas de Paixão, que já incluia parte dos elementos pelo manifesto. Essa história filmada nas Highlands escocesas com fotografia granulada e câmara na mão rendeu uma nomeação ao Oscar de Melhor Atriz à Emily Watson, que fazia uma aldeã de uma rigorosa aldeia luterana. Apaixonada pelo marido (Stellan Skarsgård, ela demonstra um comportamento bem menos regular quando ele desloca-se para o seu local de trabalho, uma estação petrolífera). A componente sexual foi forte o suficiente para que Helena Bonham-Carter abandonasse o projeto. Para além da nomeação de Watson, ganhou uma série de prémios ao redor do mundo – incluindo o do Júri no Festival de Cannes.

Os idiotas polémicos

Mas com Os Idiotas ele foi longe, muito mais longe… Com uma imagem ainda mais despida de artifícios, a obra custou uma ninharia e foi o seu projeto mais fiel aos princípios do Dogma, os quais abandonaria no seu trabalho posterior. Mas, muito mais do que isso, foi o seu conteúdo que esteve na raiz de múltiplas controvérsias.

Esta sarcástica provocação às convenções burguesas atacava num dos seus pontos nevrálgicos nos dias que correm – o politicamente correto. No filme, um grupo de outsiders buscava libertar “o idiota que existe em si”. Para isso, fingiam ser deficientes mentais, com imitações extremamente realistas, e entravam nas mais variadas situações – resultando num filme de humor tão negro quanto incómodo.

O filme gerou intensa controvérsia por causa do seu retrato dos deficientes, polémica que começou logo após a estreia em Cannes, quando um irado jornalista grita que aquilo era “uma m*!”. Duas rápidas cenas explícitas (uma ereção masculina e uma penetração) acrescentavam mais lenha à fogueira. Questionável ou não, apareceu em várias listas de melhores do ano e foi nomeado aos prémios europeus.

Bjork e a roupa suja

O projeto de 2000 de Lars von Trier viria a provar que para ele não havia limites para as possibilidades da utilização dos elementos dos velhos clássicos hollywoodianos. Dancer in the Dark era um musical, cujas surpresas começavam pela seleção da atriz principal, a cantora Bjork, na sua única (e última, segundo disse ela bastante enfaticamente) performance como atriz.

Bjork vivia uma emigrante checa nos Estados Unidos numa história de enormes contornos dramáticos e que terminava numa verdadeira “escolha de Sofia”. Talvez seja nesta obra que a faceta de contador de histórias do dinamarquês encontre o seu melhor exemplo. A consagração foi total: Melhor Filme no Festival de Cannes em 2000 (num ano onde lá andavam Michael Haneke, os Coen, James Gray e um Wong Kar Wei com um dos seus mais prestigiados trabalhos, Disponível para Amar) e Melhor Atriz para Bjork, entre inúmeros outros reconhecimentos ao redor do mundo.

Polémicas, só para variar, não faltaram – mas a diferença é que desta vez elas se concentraram mais nos bastidores do que no grande ecrã. Nelas, realizador e musa (e ex-namorada) lavaram a roupa suja em público e von Trier diria na altura que o problema dela foi ter-se identificado em demasia com a personagem, deixando de interpretá-la. “Os nossos egos chocaram-se. Ela é tão perfeccionista e talvez esse seja o seu problema“.

To Be Continued…

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