Com o final do ano a chegar, o C7nema está a publicar uma série de artigos que relembram, em diferentes capítulos temáticos, tudo aquilo que aconteceu no mundo do cinema em 2013. Este item é dedicado aos festivais de cinema ocorridos em Portugal.
Com as salas de cinema alternativo a fecharem um pouco por toda a parte e o espectador português cada vez mais confinado à oferta das salas multiplex, estes eventos já são quase a única hipótese para aqueles que procuram cinema mundial de qualidade. Contrariando a tendência geral de crise, alguns deles até tiveram até aumento de público – e muitos tiveram várias sessões completamente esgotadas. Filmes inéditos, antestreias, convidados especiais, preços mais baixos, sessões retrospetivas e uma diversidade de eventos paralelos marcam estes certames.
A maior parte dos certames ocorre em Lisboa, onde os festivais se sucedem uns atrás dos outros e só há descanso praticamente no verão. Fora da capital, por sua vez, outros eventos já tradicionais mantém a sua força, como o Fantasporto, o Festroia, o Fest (Espinho) e o Cine’Eco (Seia), entre outros. Nas curtas-metragens, destaque para o de Vila do Conde, o Córtex, que ocorre em Sintra e o regresso do Fike, em Évora. Entre parêntesis, no final de cada texto, consta o mês e o local onde o evento se realiza.
Índice
- Fantasporto
- Monstra
- Mostra de Cinema Italiano
- Festin
- IndieLisboa
- Panazorean
- Mostra do Cinema Judaico
- Festroia
- Fest
- Avanca
- Curtas Vila do Conde
- Motelx
- Douro Film Harvest
- Queer
- Córtex
- Festa do Cinema Francês
- Cine Eco
- DocLisboa
- Lisbon & Estoril Film Festival
- Cine Fiesta
- Cinanima
- Festival de Cinema Luso Brasileiro
- Mostra de Cinema da América Latina
FANTASPORTO
Num ano em que dificuldades financeiras levaram ao despedimento de funcionários e em que a agenda politica e jornalística se fundiu numa só através de uma investigação da Revista Visão que apontava alegadas ilegalidades na cooperativa que gere o certame, o Fantasporto ofereceu ao público uma das suas melhores edições, onde nem faltou o regresso da bem-amada Orient Express e uma sentida homenagem a Manoel de Oliveira nos 70 anos da estreia de Aniki Bóbó.
Pelo meio passaram uma mão cheia de arrojadas obras, onde não faltaram Pietà de Kim Ki Duk, The Weight de Jeon Kyu- Hwan, The White Tiger de Karen Shaknazarov, Berberian Sound Studio, de Peter Strickland, e o delirante Vanishing Waves, de Kristina Buozyte, injustamente arredado de qualquer prémio ou menção.
Acabou por ganhar Mamã, de Andrès Muschietti, um filme sólido baseado numa curta que já tinha feito furor no certame uns anos antes… (Fevereiro, Porto).
MONSTRA
O festival de animação, na sua 12ª edição, escolheu Brasil e Espanha como países homenageados, para além de reunir na competição principal uma bela quantidade de bons filmes. No final, prémios para Crulic, O Caminho Para o Além, sobre um jovem romeno que morreu numa prisão polaca a fazer greve de fome, filme que cruza várias técnicas de animação, como o stopmotion, a colagem e os recortes. Já O Apóstolo, do espanhol Fernando Cortizo, arrecadou o Prémio do Público e Melhor Banda Sonora.
Mas a competição contou com filmes belíssimos, como Une Vie de Chat, Aproved for Adoption, A Letter to Momo, From up Pop Hill, Le Tableau e Kirikou, os Homens e as Mulheres, entre outros. Fora dela, destaque para a exibições de clássicos absolutos do género, como Akira e Grave of Fireflies, para além do explosivo Jez Jerzy George the Hedgehog. .
Na Competição Portuguesa, a realizadora Regina Pessoa foi distinguida com o Prémio SPA/Vasco Granja com o seu filme Kali, o Pequeno Vampiro, tendo Joana Bartolomeu recebido o Prémio do Público, na mesma categoria, com o seu mais recente filme, M. (Fevereiro/Março, Lisboa).
MOSTRA DE CINEMA ITALIANO
O evento teve um ano particularmente feliz na sua seleção. Das sete obras em competição, júri e público escolheram o mesmo filme como o melhor: Io Sono Li (lançado comercialmente meses mais tarde com o nome de Shun Li e o Poeta), um belíssimo estudo sobre as consequências sociais e individuais da imigração, da xenofobia e da ação das organizações criminosas.
De resto a competição trouxe obras estimulantes, como o policial A.C.A.B., um vigoroso retrato da polícia de intervenção italiana, Bellas Mariposas, que abordava a adolescência num bairro social da capital da Sardenha, La Pulce non Está, um kafkiano facto verídico envolvendo sinistras forças estatais e Gli Equilibristi, sobre o desemprego e o caos social da Europa.
Já os quatro filmes da seção Panorama mostraram obras de excelente nível, infelizmente fadadas a permanecer inéditas no circuito comercial português – em particular o genial La Famiglia Perfetta, de Paolo Genovese. Entre os restantes, destaque para a obra de abertura, a reconstituição histórica Romanzo di una Strage, de Marco Tullio Giordana, e Il Stato di Figlio, de Daniele Cipri. O encerramento deu-se com o belo e hitchcockiano A Melhor Oferta, obra de Giuseppe Tornatore com o impecável Geoffrey Rush – única lançada posteriormente em Portugal. (Março, Lisboa).
FESTIN
4ª edição do festival que reúne as cinematografias em língua portuguesa. Tal como no ano passado, o Brasil dominou a programação – certamente devido a uma produção considerável que contrasta com a crise do cinema português e a notória anemia cinematográfica dos demais países lusófonos.
Entre os filmes exibidos, três merecem destaque: A Coleção Invisível, belo filme de Bernard Attal, vencedor do prémio do Júri, Bonitinha mas Ordinária, mais uma forte adaptação de uma peça de Nélson Rodrigues e Bróder, filme de encerramento que trazia uma visão estimulante do universo das favelas. Já o público escolheu Colegas como o seu preferido, um road movie que tinha a peculiaridade de ser protagonizado por três adolescentes com síndrome de Down. (Abril, Lisboa).
INDIELISBOA
O Indielisboa já se estabeleceu como um dos grandes festivais europeus, apesar de todas as dificuldades financeiras que tem enfrentado. Se este ano, como nos anteriores, a competição portuguesa foi em momentos exasperante com alguns dos filmes apresentados e premiados (veja-se o Lacrau), o que nos levou mesmo a pôr em questão a própria viabilidade do cinema português, também apresentou valores novos, como Um fim do Mundo, de Pedro Pinho.
Já no resto da programação o Indie apresentou-se muito forte, com vários dos filmes apresentados a aparecerem tops do final do ano de vários críticos – obras como Leviathan [o grande vencedor], Eat Sleep Die, I Used to Be Darker, Gimme the Loot, Museum Hours, Computer Chess e, claro, o magistral The Act of Killing de Joshua Oppenheimer, que irá possivelmente ganhar um Oscar para o ano que vem. (Abril, Lisboa).
PANAZOREAN
A 2ª Edição do Panazorean – Festival Internacional de Cinema das migrações e interculturalidade – organizada pela Associação dos Imigrantes nos Açores – AIPA ficou marcada pela antestreia internacional daquele que foi o filme mais visto em Portugal desde Avatar. Falamos, naturalmente, de A Gaiola Dourada.
O filme do realizador luso-francês Rúben Alves, que esteve presente no certame, tal como Pedro Pauleta (que tem uma pequena aparição na obra), deu arranque a uma certame cuja temática distancia-o dos demais festivais. Sem a presença maciça na imprensa como qualquer certame nacional que ocorra em Lisboa, o Panazorean acima de tudo consolidou-se, embora já se saiba que para o ano irá realizar-se em outubro, em virtude de estar a tentar garantir financiamento para poder desenvolver o evento de forma sustentada.
Nos vencedores 2013, destaque para Argentinian Lesson, um documentário polaco, de Wojciech Staron, que arrecadou o Grande Prémio Panazorean. (Abril, Ponta Delgada).
MOSTRA DO CINEMA JUDAICO
Tão internacional como o próprio povo judeu, a 1ª Mostra de Cinema Judaico trazia obras de vários países e alguns títulos de primeira linha, como Lore, de Cate Shortland, e Hannah Arendt, de Margarette von Trotta (que depois ganhariam distribuição comercial em Portugal). O filme de abertura coube a uma antiga obra de Radu Mihaileanu, Train de vie, que explorava a vida de uma comunidade judaica antes do Holocausto. Destaque ainda para Zaytoun, um buddy movie de Eran Riklis. (Maio, Lisboa).
FESTROIA
No ano em que se recordou, através de uma exposição, Mário Ventura Henriques, jornalista, escritor e fundador do Festival Internacional de Cinema de Tróia, o festival demonstrou a sua especial apetência para trazer até Portugal algumas das melhores obras de cinema europeu – como viria a demonstrar o vencedor do Golfinho de Ouro, o bombástico The Broken Circle Breakdown.
E apesar do Amor e a Bélgica terem sido alguns dos destaques do certame, através de secções especificas, é impossível não referir as boas escolhas que os programadores executam no mercado da Europa central e de leste, com particular incidência nos Balcãs, de onde no ano passado trouxeram o vencedor do evento, Parade, e este ano os muito bem referenciados internacionalmente Circles e Halima’s Path.
Uma nota ainda para a homenagem ao ator Jan Decleir, que este ano levou para casa o o Golfinho de Ouro de Carreira. (Junho, Troia).
FEST
No ano em que Melissa Leo esteve presente para dar uma masterclass e ajudar na escolha do vencedor dos candidatos ao Castelo de Prata, venceu o filme Miss Blue Jeans, uma história coming of age com tom musical assinado pelo finlandês Matti Kinnunen, que também esteve presente no certame. Já nos documentários venceu Fidaï (2012), uma obra em que o realizador, Damien Ounouri, com a ajuda na produção executiva do aclamado Jia Zhang-Ke, parte em busca de mais detalhes sobre o seu tio- avô que combateu na guerra de independência da Argélia como um Fidai [em árabe: aquele que se sacrifica em nome da fé ou de uma ideia].
Peter Webber (que apresentou no certame o filme de abertura, Imperador), Scandar Copti (de Ajami), Christian Berger (O Laço Branco) e Paulo Furtado foram outros convidados num festival onde o grande destaque nem é propriamente a competição dos filmes, mas sim o Training Ground, evento que começou em 2009 e que inclui inúmeras workshops e masterclasses. (Junho, Espinho).
AVANCA
O drama Eastalgia, baseada nas experiências pessoais da própria realizadora Daria Onyshchenko, foi o vencedor do Prémio Cinema para a Melhor Longa-metragem no AVANCA 2013 – Encontros Internacionais de Cinema, Televisão, Vídeo e Multimédia, que este ano chegou à 17ª edição.
Como tem sido hábito, o certame é fortemente orientado para os workshops, conferências, formações e investigação na área do cinema. Este ano, os orientadores dos workshops vieram do Canadá, Espanha, EUA, Palestina e, naturalmente Portugal. (Julho, Avanca).
CURTAS VILA DO CONDE
A 21ª edição do mais importante festival de curtas-metragens nacional distinguiu Carosello, de Jorge Quintela, com o Grande Prémio Cidade Vila do Conde. Esta foi a segunda vez que o certame atribuiu o seu grande prémio a um filme português. Já na competição nacional venceu Rei Inútil de Telmo Churro.
As secções paralelas da 21ª edição destacaram também as mais recentes tendências do cinema, prosseguindo-se o olhar atento à obra de cineastas que já passaram no festival, expandindo-se mesmo o conceito do festival às longas-metragens. Sergei Loznitsa, Yann Gonzalez, Basil da Cunha e Antonin Peretjatko estiveram em destaque, nunca se podendo esquecer as estimulantes experiências do Stereo, carimbadas com três filmes-concerto da dupla The Legendary Tigerman e Rita Redshoes, Zelig (ex-Ornato Violeta e Pluto) e do músico e compositor italiano Alex Puddu.
Se 2013 trouxe como estímulo de qualidade muitas obras financiadas através de Guimarães Capital da Cultura, 2014 poderá ser encarado como um passo atrás, até porque o cinema e o seu financiamento parou por completo nos últimos anos, o que certamente terá influência na próxima fornada de curtas-metragens nacionais. (Julho, Vila do Conde).
MOTELX
O cada vez mais popular festival de cinema de terror, agora com um grande patrocinador, lotou muitas salas do cinema São Jorge. Como de costume, a garimpar cuidadosamente num género onde abunda a má qualidade, a mostra trouxe novamente uma seleção forte – incluindo alguns filmes surpreendentes e até pequenas obras-primas.
Com uma abertura de primeira linha, com o poderoso Open Grave (Gonzalo López-Gallego), e um encerramento digno, com a comédia slasher You’re Next (Adam Wingard), passaram pela mostra as mais diversas nuanças do vasto universo do género, incluindo alguns grandes momentos de cinema, como Byzantium (Neil Jordan), We Are what We Are (Jim Mickle), Battery (Jeremy Gardner), The Desert (Christoph Behl), Goose Bumps (Koichiro Miki), Kiss of Damned (Xan Cassavetes), Chained (Jennifer Lynch), The Complex (Hideo Nakata), Countdown (Nattawut Poonpiriya), Maniac (Franck Khalfoun), Cheap Thrills (E. L. Katz) e Lords of Salem (Rob Zombie), entre outros.
Além da antestreia de A Evocação, de James Van, apenas Insensibles (Juan Carlos Medina), coprodução portuguesa, teve lançamento por cá. Os homenageados também compareceram e propiciaram oportunidades únicas de ouvi-los em primeira mão – no caso, Tobe Hooper e Hideo Nakata. (Setembro, Lisboa).
QUEER
Após uma edição de 2012 marcada por um negrume e uma fuga ao arco-íris, onde houve lugar para psicopatas, sociopatas e violadores, esta 17ª edição do Queer mostrou-se pelo menos mais leve, se não tão consistente.
Voltou em força o filme de “coming out” inocente e/ou trágico, e com ele muitos dos clichés agora mais insuportáveis por quem já experienciou demasiados filmes do género… Houve ainda assim três notas marcantes: o documentário nacional E Agora? Lembra-me de Joaquim Pinto, sem dúvida o grande marco nacional num ano paupérrimo para o cinema português.
Mas, acima de tudo, dois filmes podiam figurar em listas de Top 10 do ano: Concussion de Stacie Passon e The Comedian de Tom Shkolnik, obras estranhamente subestimadas pelo público fora dos Festivais e que mostram que, a par de outros “monstros” de 2013, como La Vie D’Adele ou L’Inconnu Du Lac, existe espaço para o cinema queer soltar-se do gueto que ele próprio criou no passado, e focar-se em contar histórias queer renovadas e com um foco mais universal. A Fold in My Blanket foi o vencedor do certame. (Setembro, Lisboa).
DOURO FILM HARVEST
18 Comidas, na secção Food Films, e The Wine of Summer, na secção Wine Films, foram os grandes vencedores do Douro Film Harvest.. A estes dois filmes somou-se ainda o prémio entregue à curta Zigurate, de Pedro Miguel Santos, que estava inserida na secção MEO Curtas da Casa.
No dia da despedida, e após a entrega dos prémios, foi apresentado o filme Mau Vinho, uma curta-metragem produzida pelo Douro Film Harvest em parceria com a UTAD, que marcou a estreia na realização de Marcantonio Del Carlo.
Durante a todo o festival foi ainda prestada uma homenagem ao realizador português João Botelho, tendo o certame terminando mesmo com a exibição de Tráfico (1998).
CÓRTEX
Cortex é um festival de curtas-metragens realizado em Sintra. Na sua 4ª edição manteve o seu ar familiar e, mais uma vez, notou-se um grande empenho para mostrar uma série de curtas de jovens realizadores. O primeiro dia foi dedicado à retrospetiva das curta-metragens de João Cesar Monteiro.
No final, na competição nacional, a decisão do público e do júri encontraram-se, saindo vencedora a curta Primária, do jovem Hugo Pedro – numa competição recheada de nomes sonantes da cinematografia portuguesa. Esta curta-documentário mostrava a escola, perspetivada por crianças do 4º ano, sobre o período de transição para o 5º ano. Na competição internacional (onde só havia prémio do júri), calhou a Le Maillot de Bain ganhar, uma obra ficcional onde o roubo de uns calções de banho, por parte de uma criança, significava o desejo de ter um pai. (Outubro, Sintra).
FESTA CINEMA FRANCÊS
Outra das mostras mais interessantes a passar por Portugal, com a vantagem de chegar a outras cidades além da capital, trouxe mais uma vez trabalhos de um país responsável por alguns dos melhores momentos do cinema mundial. Como sempre voltado para as antestreias do circuito nacional, a Festa trouxe em primeira mão as novas obras de François Ozon (Jeune et Jolie) e de Michel Gondry (A Espuma dos Dias), para além de algumas pérolas como E Vivemos Felizes para Sempre…?, de Agnes Jaoui (homenageada deste ano) e De Bicicleta Com Moliére, de Phillipe le Guay.
Entre os filmes que permanecem inéditos em Portugal, destaque para Quelques Heures de Printemps, de Stéphane Brizé, e Cherchez Hortense, de Pascal Bonitzer. O público escolheu a comédia Dentes de Leão, de Carine Tardiu, como a sua favorita, obra que terá lançamento por cá em 2014. De criticar apenas um excesso de filmes medianos e a relativa escassez de trabalhos mais ousados – uma das características essenciais da cinematografia francófona. (Outubro, Lisboa).
CINE ‘ECO
Na pitoresca localidade de Seia, na Serra da Estrela, realiza-se o mais relevante festival de cinema ambiental do país. Os mais variados temas ligados ao ambiente foram abordados na mostra principal: os mares (Planeta Oceano, O Último Oceano), a alimentação (Os Caçadores de Frutas, Regras dos Alimentos, Vamos Salvar os Alimentos), experiências de vida alternativas (Em Transição 2.0, A Quintinha), o desaparecimento das abelhas (Abelhas e Homens), o perigo da radiação (Metamorfose, No Ventre de Tóquio) e a contaminação pelo uso do carvão (O Negócio do Carvão), só para citar alguns.
A curta-metragem espanhola Se Eu Tivesse uma Vaca, de Norma Nebot, foi escolhido pelo júri como o Melhor Filme, enquanto Meu Pescador, Meu Velho, de Amaya Sumpsi, venceu o prémio Lusofonia. Cada vez mais uma referência na região e a atrair visitantes, a estratégia para o ano já está em curso e são grandes as possibilidades do evento ser ainda maior. (Outubro, Seia).
DOCLISBOA
Este ano o Doclisboa mostra que já é um dos festivais de referência. Agora parte da DocAlliance, o festival mostra-se à vontade na sua programação. Para além do decepcionante, mas incontornável, The Unknown Known de Errol Morris e do At Berkeley de Frederick Wiseman, foram também mostrados o candidato à nomeação para Oscar Pussy Riot: A Punk Prayer, um ciclo dedicado ao Golpe de Estado no Chile que ocorreu há 40 anos e, inevitavelmente, alguns realizadores iranianos (Manuscripts don’t burn, The Gardener e Pardé).
Mas as grandes surpresas foram Death Metal Angola e Dime Quien Era Sanchicorrota. De relevo também Der Kapitän und sein Pirat, uma narrativa alternativa à propaganda americana de Captain Phillips, e Stemple Pass, um filme que explora os limites do documentário.
Mais uma vez os documentários portugueses mostraram a sua força e que são do melhor cinema que se produz por cá, com A Última Encenação de Joaquim Benite – Não Basta Dizer ‘Não‘ e 8816 Versos a mostrarem não só a sua qualidade técnica, mas a resistência cultural aos ataques ideológicos da política económica do estado. Acabou por vencer E Agora? Lembra-me. (Outubro e Novembro, Lisboa)
LISBON & ESTORIL FESTIVAL
Na sua edição mais ousada, o festival coordenado pelo produtor e distribuidor Paulo Branco sacudiu a crise e trouxe uma ampla variedade, não só de cinema, como de outras atividades artísticas. Com um recurso inteligente na hora de veicular os filmes (descontos para portadores do cartão Medeia), o LEFF manteve as salas do Monumental, em Lisboa, cheias ou bem compostas – mesmo para obras antigas ou raras.
No total 21 antestreias nacionais passaram pelo festival, antecipando trabalhos aguardados de realizadores como Roman Polanski, James Gray e os irmãos Coen, entre outros. Para além destes, foram apresentados em primeira mão os vencedores dos principais festivais de cinema no mundo, como Cannes (A Vida de Adèle: Capítulos 1 e 2, de Abdellatif Kechiche), Berlim (Mãe e Filho, de Calin Peter Netzer), Veneza (Sacro Gra, de Gianfranco Rosi), Sundance (Fruitvale Station – A Última Paragem, de Ryan Coogler (2013), Locarno (A História da Minha Morte, de Albert Serra) e San Sebastián (Pelo Malo, de Mariana Rondon).
Nas homenagens, destaque para as dedicadas a Wong Kar Wei, que terminou por ser a grande ausência do evento, e do russo Aleksandr Sokurov. Na mostra competitiva, o vencedor foi o iraninano Fish & Cat, uma obra impressionante rodada num único plano e que mostra a força imparável do cinema do país de onde é oriundo.
CINANIMA
Soprando as velas da sua 37ª edição, o Cinanima – Festival Internacional de Cinema de Animação de Espinho, o que o torna o mais antigo em Portugal, apresentou 300 filmes num total de 42 programas e 70 sessões em três espaços da cidade de Espinho.
Paralelamente desenvolveram-se várias atividades, desde retrospetivas a programas especiais, passando por um conjunto de oficinas centradas em diversas práticas da animação e ainda um conjunto de conferências temáticas, orientadas por personalidades reputadas do cinema animado de vários países.
Rio 2096: Uma História de Amor e Fúria, que acompanha quatro períodos importantes da história do Brasil (a colonização, a escravatura, o Regime Militar e o futuro, em 2096, quando haverá guerra pela água) abriu o certame, enquanto Plug & Play, do realizador suíço Michael Frei, recebeu o Grande Prémio Cinanima, o que lhe permitirá ser candidato ao Cartoon d’Or e ao Óscar de animação. (Novembro, Espinho)
CINE FIESTA
Este evento dedicado ao cinema espanhol abriu com Las brujas de Zugarramurdi, o mais recente trabalho de um dos mais importantes realizadores espanhóis da atualidade, Alex de La Iglesia. Os demais títulos abrangeram filmes mais próximos do cinema comercial do país vizinho, como Futbolin (Metegol), Tres Bodas de Más, Zipe e Zape e o Clube do Berlinde, Combustión e La Grande Família Espanhola.
Em foco esteve também um dos grandes mestres da história do cinema, Luís Buñuel, que teve três de seus trabalhos, exibidos na Cinemateca.(Novembro, Lisboa)
FESTIVAL DE CINEMA LUSO BRASILEIRO
O filme brasileiro O Som Ao Redor , de Kleber Mendonça Filho, foi o escolhido para abrir a 17ª do Festival de Cinema Luso-Brasileiro, certame que deu grande destaque a Joaquim Sapinho através de uma retrospetiva integral do seu trabalho.
Também em foco, na secção Sangue Novo, dedicada a cineastas emergentes, esteve Patrick Mendes, enquanto José Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata fizeram parte do programa especial e Pedro Costa participou num debate organizado sob 3 perspetivas: Da critica, do realizador e da sua família cinematográfica (técnicos, atores, etc.).
Nos prémios, e se E Agora? Lembra-me, de Joaquim Pinto, conquistou quatro (Prémio Especial do Júri, Prémio da Crítica, Prémio dos Cineclubes e Prémio do Público), foi 1960, de Rodrigo Areias, quem levou para casa o Prémio de Melhor Filme do certame (Dezembro, Santa Maria da Feira)
MOSTRA DA AMÉRICA LATINA
A encerrar um grande ano de festivais, a Casa da América Latina apresentou um panorama dedicado aos títulos vindos dos três continentes do outro lado do Atlântico. As honras de abertura couberam ao mexicano O Fantástico Mundo de Juan Orol, de Sebastián del Amo, país que também esteve representado com Las Buenas Hierbas.
Entre os destaques, filmes premiados internacionalmente, como o argentino Infância Clandestina, o paraguaio 7 Cajas, e vários road movies de qualidade, como Ruta de la Luna (Panamá), Pescador (Equador) e Rincón de Darwin – este uma coprodução entre o Uruguai e a portuguesa Som e Fúria. Por fim, menção ainda para o chileno Carne de Perro e Era uma Vez Eu, Veronica, de um dos mais importantes realizadores brasileiros deste século, Marcelo Gomes.

