Retrospetiva 2013: Os filmes que marcaram o ano nos cinemas portugueses – Parte II

(Fotos: Divulgação)

 

Com o final do ano a chegar, o C7nema está a publicar uma série de artigos que relembram, em diferentes capítulos temáticos, tudo aquilo que aconteceu no mundo do cinema em 2013. Nesse item, dividido em três partes, o destaque vai para os lançamentos no mercado português este ano, deixando de parte todos os títulos já incluídos na seção Retrospetiva 2013 – Box Office. O objetivo é dar aos fãs de cinema uma ideia geral sobre todas as obras relevantes que passaram por cá – sejam as de cunho mais comercial, sejam as do chamado cinema de autor.

Índice

  • Maio: filicídios, exorcistas e meninas Disney de biquíni
  • Junho: poucos mas excelentes
  • Julho: delírios autorais e uma obra-prima de François Ozon
  • Agosto: um terremoto chamada “A Gaiola Dourada”

Maio: filicídios, exorcistas e meninas Disney de biquini

O cinema de autor foi particularmente forte neste mês, contando com nada menos que seis títulos – todos de grande qualidade. O mais controverso deles foi o novo do agora produtivo Terrence Malick, que depois do brilharete com A Árvore da Vida resolveu recuperar o tempo perdido. Filme bonito e enigmático, embora mal recebido por muitos críticos em função, principalmente, da sua frieza emocional contrastada com a sua elaborada sofisticação estética.

Os Nossos Filhos e Para Lá das Colinas, ambos vindos de uma carreira internacional de sucesso, abordavam de maneira muito particular tragédias recentes nos seus países. O primeiro, do belga Joachim Lafosse, tratava do assassinato dos filhos pela própria mãe, num crime que chocou a Bélgica em 2007. Já a obra de Cristian Mungiu, devidamente consagrada no Festival de Cannes, tratava de uma mulher morta durante uma sessão de exorcismo numa aldeia nos confins montanhosos da Roménia.

Mais intimista, Um Planeta Solitário abordava o relacionamento de um casal a perambular pelas montanhas da Geórgia, num filme de impacte pela fotografia e pela banda sonora. Já o espanhol Rugas era uma animação passada num asilo, um retrato emocional sobre a vida da terceira idade. Por fim, Noutro País, também vindo de Cannes de 2012, trazia o consagrado realizador sul-coreano Hong Sang-soo a brincar de cineasta e com Isabelle Hupert a servir de cobaia. Agradou a muitos críticos.

Viagem de Finalistas (Spring Breakers, de Harmony Korine) foi o objeto de afeto ou de ódio de muito boa gente, numa das obras mais polémicas do ano. Um muito trash James Franco lidera um gangue de ex-meninas Disney que agora andam de biquíni e envolvidas em negócios não propriamente decentes. O Outro Lado do Coração foi uma estreia bastante tardia em Portugal de um melancólico trabalho do cineasta indie norte-americano John Cameron Mitchell, numa obra consagrada pela atuação de Nicole Kidman, que vive com Aaron Eckhart o drama da perda recente de seu filho pequeno.

Produções de cunho mais tradicional feitas fora dos Estados Unidos também marcaram forte presença nas salas. Uma delas foi o retorno do grande Costa-Gavras e o seu O Capital, onde ao relatar os meandros do sistema financeiro demonstra que continua um eterno militante contra o estado das coisas. Também interessante foi O Fundamentalista Relutante, de Mira Nair, que lançava-se sobre as complexas relações entre fundamentalistas e moderados, sempre sob a sombra dos serviços secretos norte-americanos, no Paquistão. Quarteto, por sua vez, foi uma bem-sucedida aventura de Dustin Hoffman na realização – sobre ex-músicos retirados. Colheu elogios e um bom desempenho nas bilheteiras.

Dinamarca e França completam este panorama. No primeiro caso, trata-se de Susanne Bier, que já venceu um Oscar de Melhor Filme Estrangeiro com a sua obra anterior, ressurge com Só Precisamos de Amor, um drama familiar, considerado a Melhor Comédia nos Prémios Europeus de Cinema; Renoir, por sua vez, que teve a façanha de ser escolhido entre toda a produção francesa deste ano como o representante do país na corrida aos Oscars de Melhor Filme Estrangeiro, trata da relação entre os dois geniais membros da família que dá nome à obra, o pintor Auguste e o cineasta Jean, com uma mulher.

Sem entrar no Top 30 do box office mundial, o filme de ação patriótico Assalto à Casa Branca teve uma carreira surpreendente e foi apontado com uma das causas para o falhanço de Ataque ao Poder – que sairia dois meses depois e trazia uma temática semelhante. Aqui um infiltrado Gerard Butler luta contra terroristas para salvar a família do presidente. Por fim, vale uma menção para o remake de A Noite dos Mortos Vivos onde, se por um lado perdeu a aura trash da obra de Sam Raimi, por outro se sustenta como um filme de terror independente da sua matriz.

Junho: poucos mas excelentes

Com a chegada do verão, a oferta de filmes diminui consideravelmente com as distribuidoras concentrando-se, ou nos blockbusters típicos desta altura, ou em limpar as suas gavetas com títulos que jamais mereceriam uma passagem, ainda mais tardia, num grande ecrã. Ainda assim, pelo menos cinco títulos de grande qualidade salvam-se: Antes da Meia-Noite, À Procura de Sugar Man, Headhunters – Caçadores de Cabeças, Lore e Camille Claudel, 1915.

O regresso da trilogia iniciada por Antes do Amanhecer/Antes do Anoitecer de Richard Linklater trouxe mais uma vez os já familiares Jesse (Ethan Hawke) e Céline (Julie Delpy) em grandes conversas, desta a vez perambularem por Atenas; Headhunters, por sua vez, foi um dos grandes hits noruegueses do ano passado, uma tensa e eletrizante adaptação do romance de Jo Nesbo, um dos grandes autores policiais a seguir a senda de Stieg Larsson.

Lore, por sua vez, obra da australiana Cate Shortland, trouxe um retrato impressionante da Alemanha devastada do pós-guerra, enquanto Bruno Dumont pôs Juliette Binoche na pele da escultora Camille Claudel e saiu-se com dos seus melhores trabalhos.

Por fim, destaque ainda para o cocktail emocional reunido pelo cineasta sueco Malik Bendjelloul numa passagem pela África do Sul, onde reconstrói a história de um misterioso músico que tinha sido ídolo por lá nos anos 70, mas ninguém sabia nada sobre ele. A correr por fora, uma nota para Gangsters da Velha Guarda, onde um trio de veteranos, Al Pacino, Alan Arkin, Christopher Walken, reunia o gangue para um último golpe.

Julho: delírios autorais e uma obra-prima de François Ozon

O dinamarquês Nicolas Winding Refn interrompeu a sua trajetória ascendente com uma muito polémica visita ao misticismo na Tailândia, embrulhando numa capa de vingança e relações familiares marcadas pelo poder exercido de uma mãe sobre o filho, em Só Deus Perdoa. Igualmente controverso mas a mostrar, ao contrário de Refn, que o seu prestígio em Cannes continua intacto, Carlos Reygadas compareceu com o surreal e autobiográfico Post Tenebras Lux. Ainda de caracter autoral, destaque para No Nevoeiro, onde o russo Sergei Loznitsa, consagrado em Cannes em 2010 com o genial My Joy, faz as contas com os fantasmas da 2ª Guerra Mundial.

Um humor muito negro, por outro lado, marca a abordagem de dois outros trabalhos. Assassinos de Férias, do inglês Ben Wheatley, já é quase um filme de culto, narrando uma muito cínica aventura de um casal apaixonado que assassina sumariamente quem se mete no seu caminho. Igualmente a brincar com coisas sérias é A Loja dos Suicídios, de Patrice Leconte, que ousou abordar com leveza temas com a morte, a depressão e o suicídio numa animação!

Em termos de propostas alternativas, realce ainda para A Malta e Eu, onde o francês Michel Gondry, num registo muito diferente do resto de sua carreira, abordava com tons de realismo social a trajetória de um autocarro que levava adolescentes do Bronx no seu último dia de aula. A Qualquer Preço, de Ramin Bahrani, por sua vez, trazia Dennis Quaid e Zac Effron como pai e filho rebelde, respetivamente, numa cidade do interior.

Na linha autoral mais acessível, um dos grandes momentos do Festival de Cannes de 2012 chegou por cá um ano depois. Com magníficos trabalhos de Fabrice Luchini e Ernst Umhauer, Dentro de Casa, de François Ozon, trazia uma história sobre literatura e metalinguagem. Já Brian de Palma foi capaz de suscitar amor e ódio (uma constante nos seus últimos anos, diga-se) com Paixão, uma rocambolesca história policial que trazia Rachel McAdams e Noomi Rapace nos papéis principais.

O inglês Boas Vibrações, que chegou com bastante atraso, trazia um pano de fundo histórico bastante original – o aparecimento do vibrador na Inglaterra vitoriana. Igualmente insólito era a história de Paixões Proibidas, onde Robin Wright e Naomi Watts desenvolviam relacionamentos afetivos com os filhos adolescentes uma da outra. Por fim, vale mencionar Xingu, filme brasileiro com um interessante background histórico – o avanço da civilização sobre as mais remotas aldeias indígenas do país a partir dos anos 50.

Agosto: um terremoto chamado A Gaiola Dourada

O recorde absoluto de bilheteira esse ano não veio de um blockbuster de Hollywood, mas sim de uma comédia francesa com tons muito lusitanos. A Gaiola Dourada, que trazia Joaquim de Almeida e Rita Blanco nos papéis principais, falava de uma maneira cómica e comovente sobre a vida dos imigrantes lusos em França. O tom sincero do filme chegou a todos e os portugueses, que raramente se vêem representados no seu próprio cinema, aderiram em massa: mais de 750 mil espectadores!.

Outro dos destaques do mês foi o controverso Bling Ring: O Gangue de Hollywood, de Sofia Coppola. A cineasta inspirou-se num artigo jornalístico sobre um grupo de jovens que invadia mansões em Hollywood. No universo do terror, um dos mais elogiados trabalhos do género dos últimos anos, Hóspedes Indesejados, de Ti West, teve uma estreia igualmente tardia – dois anos depois de ser lançado no exterior.

Do Médio Oriente vieram duas das propostas mais interessantes do verão: a original história de Noiva Prometida, onde a realizadora Rama Burshtein observa a complexa vida de uma comunidade judaica ortodoxa, e o iraniano Uma Família Respeitável, onde Massoud Bakhshi mostra de forma ácida as mazelas sociais e políticas do Irão às vésperas da Revolução Verde. Já os franceses contemporâneos a viverem num mundo onde perderam as referências é o tema do tresloucado A Rapariga do 14 de Julho, de Antonin Peretjatko. Os três filmes foram obras de estreantes.

No universo mainstream, tiveram sua estreia várias obras não muito entusiasmantes, com exceção de Um Homem de Família, filme que trazia Michael Shannon como um assassino de aluguer que tinha uma vida familiar impecável. De resto, houve a mal recebida biografia de Steve Jobs (Jobs), um Michael Bay a relatar ao seu jeito o caso de culturistas assaltantes (“Dá e Leva“), o mais-do-mesmo e falhanço nos Estados Unidos Reds 2, um novo capítulo de fantasia adolescente com criaturas bizarras (Percy Jackson e o Mar dos Monstros), a nova aventura do Kick Ass 2: Agora É a Doer, e a animação Aviões, um projeto menor da Disney que terminou por se tornar um grande sucesso.

Menções ainda para três trabalhos que passaram desapercebidos, mas que têm os seus méritos: Viramundo – uma Viagem Musical com Gilberto Gil, onde o título explica tudo, Eu Venho com a Chuva, um trabalho de Tran Anh Hung (de 2009!), o realizador vietnamita de Odor da Papaia Verde, que foi atirado numa sala de um dia para o outro, e Mobius – Laço mortal, um interessante exemplo do cinema policial francês.

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