Com o final do ano a chegar, o C7nema está a postar uma série de artigos que relembram, em diferentes capítulos temáticos, tudo aquilo que aconteceu no mundo do cinema em 2013. Nesse item, dividido em três partes, o destaque vai para os lançamentos no mercado português este ano, deixando de parte todos os títulos já incluídos na seção Retrospetiva 2013 – Box Office. O objetivo é dar aos fãs de cinema uma ideia geral sobre todas as obras relevantes que passaram por cá – sejam as de cunho mais comercial, sejam as do chamado cinema de autor.
Índice
Janeiro: os retardatários dos Oscars
Alguns filmes que ficaram entre as maiores receitas de 2012 mundialmente só estrearam em Portugal em 2013, entre os quais obras que teriam nomeações para os Oscars deste ano. Alguns deles gozaram de consenso generalizado de público e crítica, como a viagem ao velho oeste de Quentin Tarantino (Django Libertado) e as aventuras de dois maníacos depressivos que valeram um Oscar a Jennifer Lawrence (Guia para o Final Feliz, de David O. Russell).
Apesar das reservas a um conteúdo politico sempre dúbio, Lincoln, de Steven Spielberg (Oscar para Daniel Day-Lewis), e a caça a Bin Laden de 00:30 A Hora Negra (de Kathryn Bigelow) foram outros dos lançamentos mais importantes do ano passado a serem lançados por cá no início de 2013. Por fim, no universo mainstream, destaque para Decisão de Risco, com elogios generalizados ao trabalho de Denzel Washington.
Com um sabor mais indie, Seis Sessões beneficiava de brilhantes prestações de John Hawkes e Helen Hunt numa história que tinha tudo para não funcionar (um tetraplégica que contrata uma terapeuta sexual); outro com grandes atores (Joaquin Phoenix e Philip Seymour Hoffman), The Master – o Mentor, de Paul Thomas Anderson, trazia uma biografia não assumida e polémica sobre o criador da Cientologia; Bestas do Sul Selvagem, por sua vez, vinha de uma daquelas impressionantes trajetórias de um pequeno filme começa com a consagração em Sundance e termina por aterras na nomeações ao Oscar.
Ainda no âmbito dos prémios da Academia, as equipas de duas produções europeias circularam pelos tapetes vermelhos do Dolby Theatre. Uma delas foi Os Miseráveis, numa carreira surpreendente para um musical contemporâneo. Com Hugh Jackman, Russell Crowe e Amanda Seyfried em grandes cantorias, o spotlight final terminou por ir para Anne Hathaway. Na linha do assistir-munido-de-uma-caixa-de-lenços, O Impossível foi uma produção espanhola que bateu recordes no seu país (com grandes resultados em Portugal) e rendeu uma nomeação a Naomi Watts.
Do cinema de autor, realce para dois dos grandes títulos do ano passado: Reality, prémio do Júri no Festival de Cannes em 2012 e segundo trabalho de Mateo Garrone, consagrado com Gomorra e que aqui abordava o impacto dos reality shows no cidadão comum, e Barbara, belíssimo trabalho de Christian Petzold, onde explorava seus habituais jogos de sombras onde nada é o que parece, beneficiando do clima de permanente terror da Alemanha sob a ditadura e o policiamento da Stasi. Foi também mais um título da prolífica colaboração do realizador com a atriz Nina Hoss.
Fevereiro: o mês dos flops
Se janeiro é dominado pela chegada dos últimos inéditos a caminho dos Oscars, fevereiro assistiu, curiosamente, a um lançamento em cadeia de grandes flops internacionais, todos com um relativo grau de injustiça. A maior delas talvez seja o do extremamente divertido The Last Stand – O Último Desafio, estreia em Hollywood de Kim Jee-Woon, sul-coreano responsável por alguns grandes títulos no seu país (inclusive Eu Vi o Diabo, que receberá um remake americano). Era o regresso de Arnold Schwarzenegger a um set de filmagens após anos como governador da Califórnia.
De qualidades menos reconhecidas pela crítica internacional, Cidade Dividida trazia alguns elementos interessantes do cinema noir, algo que também fazia Força Anti-Crime no caso dos filmes de gangsters. Por fim, outro grande falhanço foi a tentativa de se lançar um novo franchise juvenil, Criaturas Maravilhosas, obra no todo bastante superior às escritas por Stephenie Meyer. Neste sentido, o romance de zombies com Nicholas Hoult como protagonista, Sangue Quente, teve mais sorte – mesmo partindo de uma ideia algo bizarra (o romance entre um morto-vivo e uma humana).
No universo independente é de se mencionar Notas de Amor, de Sarah Polley, Corações Perdidos, de Jake Scott e Laurence para Sempre, de Xavier Dolan. O primeiro foi uma excelente surpresa que trazia Michelle Williams às voltas com o adultério, o desejo e a insatisfação conjugal. Corações Perdidos, realizado pelo filho de Ridley Scott, chegou com três anos de atraso e mostrava um melancólico James Gandolfini a lidar com uma jovem prostituta vivida por Kristen Stewart. Após a morte de Gandolfini, a obra acabou por ganhar um caráter ainda mais nostálgico.
Por fim, no universo das animações o francês Zarafa misturava drama e humor com um pano de fundo histórico de interesse – a chegada do primeiro animal selvagem ao zoológico de Paris.
Março: um grande mês do cinema de autor
O destaque neste mês pertence claramente ao cinema de autor, com cinco grandes títulos (todos de 2012) a estrearem no mercado nacional. Ferrugem e Osso, última obra de Jacques Audiard, apresentava uma Marion Cotillard arrepiante, secundada pela grande prestação do belga Matthias Schoenaerts. Abordagem árida de um relacionamento, orquestrando de forma explosiva o binómio amor/sexo num filme poderoso.
Blancanieves, de Pablo Berger, foi uma das grandes sensações do cinema espanhol de 2012, ganhando a maior parte dos prémios entregues pela Academia do país naquela ano. Uma versão muito particular do conto de Branca de Neve, todo em preto-e-branco e sem diálogos. Igualmente fundamental é o dinamarquês A Caça, consagração absoluta de Mads Mikkelsen com o prémio para Melhor Ator no Festival de Cannes. Os temas da pedofilia e do homem condenado socialmente por algo que, supostamente, não fez, ganhou um tratamento intenso de Thomas Vinterberg.
Irmã, de Ursula Meier, tinha Léa Seyoux no papel principal, focando as diferenças sociais nos ricos Alpes suíços, enquanto Terence Davies comparecia com outra grande atriz, Rachel Weisz (para além de Tom Hiddleston) no minimalista O Profundo Mar Azul.
Outro grande momento de cinema autoral, mas com um pé maior no mainstream, foi o filme de suspense Efeitos Secundários, com um Steven Soderberg em grande forma a gerir uma nebulosa história que envolvia homicídios, ética médica e a indústria farmacêutica. Também Gus Van Sant surgiu com um filme a misturar conspirações e romance, com o polémico Terra Prometida, onde Matt Damon lidava com a má ética das empresas petrolíferas.
Duas grandes coproduções europeias marcaram presença. A primeira delas, muito familiar ao público português, Comboio Noturno para Lisboa, trazia à capital lusitana um grande elenco liderado por Jeremy Irons para contar a história de um professor que investigava a vida de um opositor do regime de Salazar. Mais de 50 mil espetcadores foram assisti-lo por cá. Já o dinamarquês Um Caso Real foi mais um representante do grande ano de Mikkelsen, numa obra que abordava as lutas entre conservadores e progressistas no explosivo panorama do século XVIII, onde os iluministas iam influenciando meio mundo com as suas ideias subversivas.
O cinema de terror teve dois momentos interessantes: Mamã, um surpreendente sucesso internacional com Jessica Chastain no papel principal, e The Tall Man- O Homem das Sombras, um enigmático filme suspense com outra Jessica, a Biel, como protagonista.
Um dos maiores desastres de bilheteira do ano, Jack, o Caçador de Gigantes, trazia uma abordagem algo diferente do conto dos irmãos Grimm sobre o menino sonhador que depara-se com feijões mágicos. A obra tinha uma história muito bem contada e coerente sobre o sonhador Jack, mas por alguma razão não funcionou junto do público. Outro fracasso, Nómada, extraída da obra de Stephanie Meyer, tinha as suas qualidades, especialmente no seu elenco feminino principal, com Saoirse Ronan e Diane Krugger.
É útil referir ainda a Sete Psicopatas, retorno de Martin McDonagh, depois do sucesso de Em Brugges e a liderar um elenco de luxo (Colin Farrell, Woody Harrelson, Sam Rockwell, Christopher Walken) num enredo marcado por humor e violência, e Uma Mulher, Uma Arma e Uma Loja de Massas, que tem a particularidade de ser um remake assinado por um dos grandes realizadores chineses, Zhang Yimou, do primeiro trabalho dos irmãos Coen, Blood Simple.
Abril: grandes realizadores, belos filmes (ou não)
Alguns dos grandes nomes da história do cinema aportaram por cá com novos trabalhos. Talvez o mais ambicioso e impressionante seja o Fausto, de Aleksandr Sokurov, obra que compõe a sua tetralogia do poder. Filme denso e alegórico, que propõe um desafio excitante à imaginação do espectador. No âmbito autoral, convém referir ainda A Rapariga de Parte Nenhuma, primeira obra de Jean-Claude Brisseau, onde realidade e o fantástico misturam-se num filme altamente elogiado pela imprensa especializada.
O canadiano Professor Lazhar, de Philippe Falardeau, já tinha sido nomeado aos Oscars de Melhor Filme Estrangeiro e contava o drama de um professor argelino sob ameaça de deportação, enviado para uma sala de aula onde deparava-se com um grupo de alunos a viver eles próprios os seus tormentos – no caso a perda da professora anterior que havia-se suicidado.
Brillante Mendoza, o mais conhecido realizador filipino fora do seu país, surge com uma mistura de drama com a ação, Cativos, a abordar um sequestro na selva, enquanto Giuseppe Tornatore, consagrado há duas décadas com Cinema Paraíso, ressurge com um dos seus melhores trabalhos em anos, o hitchcockiano A Melhor Oferta, que terminaria nomeado aos Prémios de Cinema Europeu. Em moldes igualmente clássicos, destaque para o belo Regra de Silêncio, drama de Robert Redford sobre a luta armada nos Estados Unidos dos anos 60, enquanto a ecologia e a economia global são os temas de O Caçador: Último Tigre da Tasmânia, de Daniel Nettheim.
Na via contrária, Pedro Almodóvar tem prestígio suficiente para pôr tudo a balançar com o muito temerário Os Amantes Passageiros, que irritou quase toda a crítica, mas foi um sucesso de público em Espanha. John Woo, por sua vez, apareceu com um filme de samurais, Reino de Assassinos, enquanto Danny Boyle com o muito intrincado Transe, onde um trio de protagonistas de luxo (James McAvoy, Vincent Cassel e Rosario Dawson) enganavam-se e manipulavam-se recorrendo a hipnose.
Por fim, mas não menos importante, destaque para o drama chileno Não, que abriu o Indie Lisboa deste ano. Protagonizada por Gabriel Garcia Bernal, era o fecho da trilogia sobre a ditadura de Augusto Pinochet realizada por Pablo Larraín. Aqui o foco é luta na campanha do referendo de 1988.

