Retrospetiva 2013: O cinema português…

(Fotos: Divulgação)

 

Com o final do ano a chegar, o C7nema vai publicar uma série de artigos que relembram, em diferentes capítulos temáticos, tudo aquilo que aconteceu no mundo do cinema em 2013. Neste primeiro momento, passamos em revista o que ocorreu em Portugal num ano terrível para a produção nacional, onde à falta de meios uniu-se a incapacidade criativa.

Sobrevivendo de documentários, maus filmes comerciais e algumas experiências isoladas de cineastas que trabalham sem qualquer recurso, o cinema português quase acabou em 2013. É certo que um Estado sem interesse em qualquer outra coisa que não seja dinheiro ajudou, mas a qualidade geral daquilo que foi feito também ficou aquém do que se poderia eventualmente esperar.

No quesito qualidade, não houve nenhum título marcante como Tabu, do ano passado – e apenas alguns projetos reuniram qualidade digna de nota. Em termos de bilheteiras, ficou muito longe de 2012, com números escassos e um único sucesso de público – o recém-lançado Os 7 Pecados Rurais, de Nicolau Breyner. Ainda assim, o sucesso de A Gaiola Dourada, uma produção francesa que se inscreve como a obra mais vista do ano no país, demonstra que talvez o grande público simplesmente não se reveja na maior parte da produção nacional.

Ao mesmo tempo e com um péssimo timing, tenta-se prestigiar a produção lusitana com a criação de uma Academia que reconheça as contribuições cinematográficas atribuindo-lhes os prémios Sophia.

A ficção: descalabros

Quando já ninguém esperava um único hit do cinema português este ano (ao contrário de 2012, que teve seis títulos com mais de 30 mil espetadores), eis que Nicolau Breyner sacou da manga uma comédia baseada em personagens televisivos e obteve um enorme sucesso com Os 7 Pecados Rurais – alcançando um êxito que lhe tinha fugido com o falhado A Teia de Gelo.

Além deste filme, houve apenas mais três exemplares que tiveram distribuição nacional alargada. Destes, o mais interessante é Quarta Divisão, filme que pecava pelo excesso de reviravoltas no argumento e pela duração excessiva, para além de investir num género demasiado banalizado na própria televisão. Todavia, esse retrato do trabalho de uma divisão especial da Polícia de Segurança Pública tinha os seus méritos, entre eles o bom elenco, com destaque para a sua protagonista, Carla Chambel. O público não aderiu – e teve menos de 5 mil assistentes.

RPG contava com bem menos atenuantes. Essa tentativa de fazer uma distopia em Portugal e que trazia Rutger Hauer no elenco (na verdade numa participação minúscula) foi massacrado pela crítica, mas vindo a conseguir o segundo melhor público do ano para produções lusitanas – 22 mil espetadores.

Pior ainda foi o Bairro, uma terrível experiência de se condensar uma série televisiva que, por razões desconhecidas, não foi ao ar, e lançá-la como filme. Nem sequer merece o nome de cinema – e nem maiores comentários. Ainda assim, 18 mil vítimas foram vê-lo no grande ecrã.

Partindo de princípio semelhante, mas com resultados artísticos melhores e lançado para um público-alvo muito mais restrito, também circulo nas salas a biografia de Álvaro Cunhal, Até Amanhã Camaradas, que já tinha sido exibida na televisão em 2005. Condensada em três horas, o filme de Joaquim Leitão trazia Gonçalo Waddington no papel principal.

A ficção: da indiferença da crítica à deserção do público

Todos os demais registos tiveram públicos inferiores aos 1000 espectadores, para além de, de uma maneira geral, um notório desinteresse da imprensa especializada.

Um quase documentário, Um Fim de Mundo, termina por ser dos melhores registos de ficção do ano. Seguindo na tradição estabelecida pela Vende-se Filmes, que há alguns anos vem produzindo sólidos registos na área do realismo social, o realizador Pedro Pinho conseguiu com um filme de pouco mais de uma hora e filmado em preto-e-branco um retrato interessante da adolescência – em particular a do bairro da Bela Vista, de Setúbal. A obra passou pela mostra Gerações, de Berlim, onde colheu elogios, tendo circulado por diversos festivais.

Outro filme de interesse foi Em Segunda Mão, de Catarina Ruivo. Última contribuição de Pedro Hestnes ao cinema, vindo a falecer pouco depois das filmagens. Sob o comando de Catarina Ruivo, ele é uma espécie de marioneta de um mundo indesejado e sem vontade de viver. Um retrato voyeurista sobre voyeurs que utiliza certas influências de A Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock, para descrever uma analise pertinente sobre a identidade, a cobiça e a ausência da força de vontade dos seus personagens. De narrativa algo minimalista e de uma fotografia monótona como a composição voluntaria do seu protagonista, Em Segunda Mão é um thriller metódico, metafórico e visualmente intrigante ao apresentar sequências “anti-hitchockianas“.

Três esforços de cineastas que trabalham as suas primeiras longa-metragens sem quaisquer financiamentos terminam o rol de tudo o que se fez de ficção em Portugal este ano. Um deles, Até Ver a Luz, de Basil da Cunha, esteve na Quinzena dos Realizadores, em Cannes. Esse registo que mistura o realismo social com filme policial tem os seus méritos, mostrando um grupo de pequenos criminosos da Reboleira, Amadora, e um rastafari algo místico que procura novos caminhos para a sua vida.

Já “Além de Ti“, do algarvio João Marco e O Frágil Som do Meu Motor, de Leonardo António, demonstraram potencial e algumas qualidades nos filmes, mas com distribuição mínima não conseguiram ultrapassar a fronteira da marginalidade.

Os documentários

Terra de Ninguém, de Salomé Lamas. Vencedor da competição portuguesa do Doclisboa do ano passado. Através de entrevistas com o antigo mercenário Paulo de Figueiredo, a obra reconstrói a brutal trajetória de um homem que conta na primeira pessoa as suas experiências, primeiro na guerra colonial, depois como assassino contratado. Apesar da exploração limitada das possibilidades, a força impressionante do seu entrevistado garante o interesse da obra.

É o Amor, de João Canijo. Filme que vai buscar o seu tema as mulheres dos pescadores da localidade de Caxinas, em Vila do Conde, extraindo o seu título de uma música brasileira insistentemente cantada por elas. A atriz Anabela Moreira, colaboradora habitual do realizador, infiltra-se nesta comunidade – vivenciando a luta diária de mulheres cujos maridos passam a semana em alto-mar.

E Agora Lembra-me?, de Joaquim Pinto, acabou por ser um dos destaques do ano pela presença em festivais internacionais, no Queer e no Doclisboa. Trata-se de uma experiência cinematográfica particularmente intensa, onde quase três horas de filme documentam a vida do realizador após ele descobrir ser seropositivo.

A Batalha de Tabatô, de João Viana. Outro trabalho que marcou presença em diversos certames internacionais, com destaque para o Festival de Berlim, onde circulou com uma versão em curta-metragem. A obra trata da guerra da Guiné de uma forma alegórica e em preto-e-branco.

A Última vez que Vi Macau, de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata. Foi a abertura do Doc Lisboa do ano passado, mas só este ano teve lançamento comercial em Portugal. Uma tentativa original de unir documentário com elementos próprios da ficção, como o enredo policial. Ao fundo, as imagens de Macau brilham.

Ophiussa – Uma Cidade de Fernando Pessoa, de Fernado Carrilho. Tentativa de reconstruir a cidade na qual viveu o poeta e a qual destinou vários dos seus trabalhos. Com leituras de vários dos seus poemas, Carrilho percorre a cidade captando imagens que de alguma forma estejam interligados com eles.

Os Prémios Sophia

A tentativa de valorizar os artistas e técnicos da produção portuguesa beneficiou de um ano (2012) em que houve uma produção estável e de qualidade para premiar. O grande destaque do ano passado, Tabu, de Miguel Gomes, foi reconhecido pelo prémio de Melhor Filme. Outras produções de relevo de 2012 foram lembradas, como Florbela, As Linhas de Wellington e Operação Outono.

Para além da relevância que não lhe foi concedido pelos meios de comunicação de massa (televisão em particular), não deixa de ser notório o péssimo timing do surgimento da instituição. Isto porque, agora, deixando de lado minúcias e avançando para o futuro, a grande questão que se põe é: o que a Academia Portuguesa vai premiar no próximo ano?

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