Adèle (Adèle Exarchopoulos) é uma jovem que anda muito cabisbaixa pela escola depois de descobrir que não sente nem desejo nem afeto maior pelo seu primeiro namorado. Mas a coisa muda de figura quando entra em cena uma lésbica punk de cabelo azul, Emma (Léa Seydoux): com ela, Adéle embarca numa viagem fascinante repleta de amor, paixão e sensualidade – mas também de tristeza e desespero, num dos mais belos filmes do ano. O filme foi baseado na novela gráfica de Julie Maroh, Le Bleu est une Couleur Chaude.
Cannes: Spielberg e puritanismo
O júri do Festival de Cannes foi o primeiro a render-se ao mais novo do trabalho do franco-tunisino Abdellatif Kechiche, já amplamente reconhecido por obras como A Esquiva, Vénus Negra e O Segredo de um Cuscuz. Mas houve quem temesse pelo pior – o de que um grupo presidido por um puritano Steven Spielberg tivesse dificuldades em entregar o prémio máximo do certame à um filme com uma cena de sexo de dez minutos entre duas mulheres.
Nada disto aconteceu, muito pelo contrário: o presidente do júri inovou foi ao dizer que o prémio devia ser divido entre os três – o realizador e as suas duas protagonistas – algo completamente inédito. “É uma história de profundo amor e de como esse sentimento vai evoluindo. Encantaram-nos as suas interpretações e como o realizador deixa que respirem as suas personagens“. Talvez a influência maior do cineasta norte-americano nas decisões finais se tenha dado no Prémio do Júri para o sentimental Tal Pai, Tal Filho, de Hirozaku Koreeda, cujos direitos de remake já foram comprados pela sua empresa, a Dreamworks.
Controvérsias I: Kechiche contra as mulheres. As atrizes
Depois de colher os louros das suas prestações no Festival de Cannes, as atrizes acharam por bem denunciar os maus-tratos de que supostamente foram vítimas durante as filmagens. Tudo ocorreu numa edição do Festival de Telluride, em setembro, onde revelaram a Daily Beast os procedimentos draconianos do cineasta no set (ver notícia).
Seydoux foi a mais enfática, dizendo que nunca mais trabalhará com o realizador, que as filmagens foram horríveis, intermináveis e que eram obrigadas a refazer várias vezes o mesmo plano, mesmo com desconforto físico. Por fim, disse que se sentiu “violada” por ter sido exposta desta maneira por Kechiche.
O que, de certa forma, é contraditório com aquilo que afirmou antes em Cannes (ver entrevista ao C7nema) – ou seja, que sabia bastante bem ao que ia. Mas o certo é que, dada a obsessão do cineasta pela perfeição, o simples plano do olhar que uma lançava a outra quando se cruzaram num parque… teve 100 takes! Outra reclamação teve a ver com a cena da rutura entre as duas, onde Exarchopoulos teria sido “espancada” realmente, várias vezes.
Mesmo assim ela foi mais leve nas críticas, embora também tenha dito que “dificilmente” voltaria a trabalhar com ele. Apesar disto, voltou atrás há dias, dizendo que exagerou quando disse que foi “manipulada” pelo cineasta durante as filmagens. Ela também afirmou que sabia O que se esperava dela, ainda que não contasse com o nível de exigência de Kechiche e que aceitou “porque era muito nova“. De qualquer forma, a atriz parece lidar melhor com o que passou depois de ter sido consagrado definitivamente. Ela continua a promover o filme, ao contrário de Seydoux.
Kechiche, por sua vez, viria depois a público dizer que a obra não deveria ter sido lançada, pois tinha sido enxovalhada pelas atrizes principais. De qualquer forma, afirmou ao The Guardian que Léa Seydoux era um assunto para o seu advogado, enquanto esperava que Exarchopoulos, que é muito nova, pudesse rever a sua postura.
Controvérsias 2: Kechiche contra as mulheres. As homossexuais
Os circuitos mais fundamentalistas dentro do universo Queer não quiseram saber das alegações do cineasta de que esta é uma história de amor universal – e de que não é preciso ser homossexual para fazer um filme com um casal de lésbicas como protagonista. A primeira a reclamar foi a autora da obra que inspirou o filme, Julie Moroh, que afirmou que “duas mulheres não fazem sexo assim“. Uma jornalista de uma publicação queer, por sua vez, afirmou que “é um filme de lésbicas sem lésbicas“.
Mas um dos comentários mais interessantes neste sentido veio de Alain Guiraude (ver entrevista), cujo O Desconhecido do Lago, filme também com temática homossexual, estreou em Portugal na semana passada. Também ele a lutar contra o rótulo de “filmes gay“, o cineasta afirmou que pondera “…porque um realizador heterossexual faria um filme que mostra mulheres a fazer amor. Acho que a intenção dele foi criar um espetáculo picante, algo que geralmente tento evitar“.
Embora não se concorde totalmente com o argumento de Guiraude, especialmente no que se refere ao “picante“, pode ser que o realizador tenha razão ao sugerir que a escolha de Kechiche por duas mulheres bonitas para a sua abordagem do amor tem o seu ar de fantasia masculina.
Fumando charros na Tailândia
A imparável Seydoux disse que teve apenas cinco dias de folga antes de embarcar em novos projetos. Ela já teve estreados em Portugal este ano Irmã e Grand Central, será vista brevemente no novo e muito aguardado projeto de Wes Anderson, The Grand Budapest Hotel, para além de numa versão de A Bela e o Monstro, onde divide o protagonismo com Vincent Cassel.
Depois deste trabalho extraordinário, é aceitável a expectativa em torno de Adèle Exarchopoulos. Os dois projetos que tem programado até o momento, não revelam muito sobre suas possibilidades para o futuro: Qui vive, filme de estreia de Marianne Tardieu, com Reda Kateb (de O Profeta) no elenco principal; e M, filme que marca a estreia na realização de Sara Forestier.
Talvez ela ainda ande em modo relax depois das exaustivas filmagens de A Vida de Adèle. Ainda na entrevista ao Daily Beast, a atriz disse: “”Eu fui para a Tailândia com meu namorado, sem telemóvel e sem ninguém a dizer-me ‘faça isso’, ‘faça aquilo’, ‘bate-lhe novamente‘. Eu sentia-me como se estivesse a voar, fumando erva, tendo massagens…Wow.”

