A Parte dos Anjos: quando beber é a solução

(Fotos: Divulgação)

O mais do que consagrado realizador britânico Ken Loach, recordista de aparições nas competições oficiais do Festival de Cannes, é conhecido pelos seus filmes mais dramáticos, com tonalidades políticas e sociais bastante vincadas. Mas neste A Parte dos Anjos, que se segue a um pesado Route Irish – A Outra Verdade, o cineasta apostou na leveza, no humor e na diversão.

É certo que os seus protagonistas também fazem parte das camadas sociais mais baixas da sociedade escocesa, mas aqui vão encontrando outro tipo de saída para os seus problemas. Os membros do grupo conhecem-se a cumprir pena de serviços comunitários por crimes diversos. O único realmente violento deles é Robbie (Paul Brannigan), condenado por agredir outro jovem num acesso de fúria injustificado.

O filme tem drama, até porque Robbie está desempregado, o seu filho está prestes a nascer, a família da namorada detesta-o e ainda tem que lidar frequentemente com um rufia que o persegue por uma rixa ancestral. Mas a via cómica é bem pronunciada quando Robbie aprende a degustar a bebida favorita dos escoceses, unindo-se a esta um componente dos heist filmes quando ele e seus amigos decidem roubar um barril de whisky num leilão.

Um sorriso para o público

Segundo Ken Loach, esse acento cómico da obra parte de uma vontade em fazer algo sensivelmente mais leve depois de Route Irish – A Outra Verdade. Conforme disse em entrevista a Emmanuel Levy, “o último filme que fiz com Paul (Laverty, seu argumentista habitual), foi áspero e com um final muito duro para o público e eu pensei que deveríamos fazer algo que reservasse algum sorriso para a audiência no final. Obviamente que o mundo não muda e é um lugar sombrio para as pessoas que nós retratamos, mas elas usam humor e compaixão para superar os tempos difíceis“.

A classe operária vai ao paraíso

Loach assume que esse extrato social, presente na maioria dos seus filmes, é um ponto central da sua filosofia enquanto realizador. Mas a ideia é dar aos seus personagens proletários uma complexidade que muitas vezes não têm num cinema que frequentemente os apresenta através de estereótipos e bidimensionalidade. “O nosso objetivo é explorar as suas contradições, esperanças e vidas sem padronizá-las“. Por trás disto está uma mentalidade revolucionária ou, pelo menos, questionadora. “Qualquer mudança que se venha a conseguir na sociedade será através da classe operária e de ninguém mais, porque os outros estão empenhados em zelar pelo seu status quo e proteger-se a si próprios”.

Atores desconhecidos

Outro ponto importante do seu trabalho é o gosto por trabalhar com atores desconhecidos. O ator que interpreta o personagem principal, Paul Brannigan nunca tinha feito esse tipo de trabalho antes. “Eu acho que entre as pessoas comuns existe uma enorme quantidade de gente com talento. É mais interessante ver novas caras quando se vai ao cinema. Não se quer ver sempre os mesmos rostos“.

Loach ostenta já uma longa e premiada carreira, cujos filmes já receberam Baftas, prémios em Berlim, Cannes (incluindo a Palma de Ouro por “Brisa de Mudança”, de 2006) e Veneza, entre muitos outros.

A Parte dos Anjos ganhou o Prémio do Júri em Cannes e o do público em San Sebastián, para além de outras vitórias e nomeações.

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