Sete pessoas partem rumo a uma perigosíssima jornada rumo ao extremo norte do Canadá. Desde o início não falta quem lhes agoire a sorte: não é muito certo que eles cheguem ao seu destino. É facto que eles se arriscam na empreitada ainda no verão, mas todo o tipo de dificuldades os espreita, incluindo, principalmente, a falta de estradas, de mapas corretos e, principalmente, um guia confiável…
Wilhelm Laser (Peter Kurth) é o líder, uma figura muito próxima dos famosos “robber barons” que lideraram à conquista do Oeste nos Estados Unidos. Foi ele quem pôs o anúncio no jornal ao qual os outros seis responderam. Entre estes, um jornalista tão intrépido quanto incómodo, Gustav Müller (Uwe Bohm), para além de um tratador de cavalos arrogante, Carl Böhmer (Marko Mandic). Perante os olhares conspícuos destes paira a enigmática figura de Emily Meyer (Nina Hoss), com a atriz alemã a fazer aqui o que sabe melhor: imprimir uma vasta gama de emoções com uma expressão aparentemente gélida.
Corrida gelada
A chamada Corrida de Ouro de Klodike foi um episódio histórico dos mais dramáticos e esteve na origem da ideia de Tomás Arlsan para este projeto. Ele concebeu o seu enredo após dar uma olhadela numa obra que falava sobre o assunto numa livraria. Ao contrário da sua ensolarada história e dos seus sete protagonistas, no entanto, no verdadeiro episódio estimam-se que em torno de 100 mil pessoas dirigiram-se para as fronteiras do Alasca depois de uma descoberta de ouro em 1896. Entre 30 e 40 mil chegaram ao destino: o restante pereceu nos caminhos tortuosos e, particularmente, quando não tiveram a sorte de escapar do clima polar que se abate sobre a região durante o inverno.
Paralelamente a isto, o filme toca também na questão da imigração alemã do final do século XIX, onde milhares deles dirigiram-se aos mais remotos confins das Américas, de norte a sul, para fugir da pobreza. Curiosamente, como observou o cineasta numa entrevista ao Hollywood Reporter, esse é um tema pouco explorado no cinema do seu país – algo que ele também fez questão de usar contra os argumentos xenófobos presentes na sociedade atual.
Nina Hoss
Igualmente pouco usual é ter uma mulher no centro deste tipo de histórias embora, obviamente, Meyer não seja a primeira – algo que Arslan reconhece: “Eu pensei que seria uma alteração interessante em relação ao herói masculino conforme estamos habituados. Mas, obviamente, outros “westerns” já tiveram mulheres fortes no seu centro“. Quanto a Nina Hoss, a loira fetiche do seu colega da Escola de Berlim Christian Petzold, o realizador afirma ter pensado nela desde o início. “Fiquei muito feliz quando ela disse sim. Acho que ela atua muito bem dentro de certas restrições, mas percebe como excedê-los de forma quase impercetível“.
Cápsula do tempo
Sempre a filmar em Berlim, Thomas Arslan e a sua equipa meteram-se, desta vez, pelo Canadá rural. Trabalhando há seis horas de Vancouver, a falta de rede nos telemóveis era crónica. “Foi como filmar numa cápsula do tempo”, disse. A gestão dos cavalos foi outro problema, pois não era possível avançar com muitos deles ao mesmo tempo. E, por fim, havia as restrições do orçamento, que era de 2 milhões de dólares. “Fizemos com o que havia. O comboio no qual chega Emily Meyer, por exemplo, foi emprestado de um museu“.
O céu sobre Berlim
Com uma carreira quase toda circunscrita à sua terra natal, Thomas Arslan [na imagem acima] é frequentemente mencionado como um dos primeiros realizadores da chamada “Escola de Berlim“, ao lado de nomes como o de Christian Petzold, o mais internacional do grupo. O primeiro trabalho de Arslan, Geschwister – Kardesler, foi lançado em 1997 e girava em torno de uma família turco-germánica – mesmo ambiente da obra que faria a seguir, Dealer de 1999.
Neste caso a história tratava de um jovem que, a despeito de muitas tentativas, não conseguia largar a vida de pequeno criminoso, sustentando-se, principalmente, como traficante de drogas. Dealer valeu a Arslan o seu primeiro grande reconhecimento da crítica, essencialmente germânica, recebendo dois prémios no Festival de Berlim. Seu trabalho a seguir, Der schöne Tag, também passou pelo certame, embora desta vez sem prémios. Lançado comercialmente apenas na Alemanha, o filme lidava com relacionamentos através de um dia na vida de uma jovem que se separa do namorado e conhece uma nova paixão.
Férias, de 2007, foi o único até Ouro a ter lançamento fora das fronteiras germânicas e, em Portugal, já foi exibido no Instituto Goethe. A obra trata de uma família em vias de desintegração que passa férias numa estância a norte de Berlim. Longe de um sossego idílico, no entanto, o que se assiste são os membros do grupo a serem acometidos pelos mais diferentes problemas. Também passou pelo Festival de Berlim, assim como Im Schatten (In the Shadows, na versão em inglês), de 2010, que ainda passou pelo Lisbon & Estoril Film Festival. Este voltava ao mundo do crime, onde um ladrão recém-saído da prisão parece não ter aprendido nada com a experiência e tenta novamente obter dinheiro rápido e em grandes quantidades.

