Metallica: Through the Never, o apocalipse na terra do nunca

(Fotos: Divulgação)

Muitas t-shirts pretas avistam-se pelos saguões próximos aos cinemas do Centro Comercial Colombo, em Lisboa, na primeira apresentação ao público português de Metallica Through the Never, em IMAX e 3D. Enquanto se assiste à banda de homenagem Blackallica executar alguns dos clássicos dos mestres, vive-se a expectativa da promessa de uma das bandas de rock mais populares do mundo em promover uma experiência única.

Outra forma de monstro

Na base do conceito deste filme, que concilia uma performance cénica e visual desenvolvida especialmente para o projeto com a história de um roadie (vivido por Dane DeHaan) que circula por um cenário apocalíptico enquanto tenta cumprir a sua tarefa, está a ideia da banda em fazer algo completamente diferente do documental Some Kind of Monster, que lançaram em 2004.

Segundo o baterista Lars Ulrich, um dos líderes criativos dos Metallica ao lado do cantor/guitarrista James Hetfield, o espetáculo não está inserido em nenhuma tour, mas sim foi algo pensado, desde o início, para ser um filme. Diferente dos palcos normais, onde a banda toca de frente para o público, aqui o grupo atua no centro da Arena, cercado pelo público por todos os lados e onde normalmente se sobressai a perspetiva dos músicos.

Metallica? Quem são esses?

O primeiro passa para se levar adiante essa proposta de concerto com enredo foi começar a contratar gente que entende do assunto. Uma das primeiras a embarcar no projeto foi a produtora e especialista em 3D Charlotte Huggins, que confessou não conhecer nada da música do grupo. Para relativizar a informação, ela conta a quase anedótica história de que quando perguntou ao marido quem eram os Metallica ele teria respondido: “a maior banda de rock da América!“. Exagero ou não, o que interessa é que Huggins (que produziu os dois filmes da franquia Viagem ao Centro da Terra) percebia muito do assunto para o qual foi chamada e começou a dar a forma que se pretendia para o filme.

Vindo de outro planeta

O passo seguinte era achar um realizador que, como conta Ulrich, depressa se compreendeu que teria que ser um verdadeiro parceiro da banda. No início não foi muito fácil, conforme relata: “Nem sequer havia um argumento na época e a maioria das pessoas com quem eu falava olhava para mim como se eu fosse de outro planeta quando eu explicava o que queríamos faz“.

Foi da lista da produtora que surgiu o nome do realizador Nimród Antal. Mas, ao contrário dela, o cineasta de Predadores sabia “tudo” sobre eles, relatando como era um dos milhares de fãs fanáticos a crescer na Hungria ao som do grupo. Diz Huggins sobre a contratação de Antal: “O nosso trabalho não era apenas fazer um bom trabalho, mas um filme incrível. E Nimrod estava em sintonia com isso: ele queria dar um passo além“.

E diz o baterista sobre a primeira reunião com Nimród. “Ele ficou com um olhar louco e imediatamente aceitou. A forma como ele falou da importância dos Metallica na sua vida quando cresceu na Hungria fez-nos perceber que ele era maluco o suficiente para embarcar connosco nesta aventura. Ele inventou a metrópole e toda a jornada em forma de pesadelo que ocorre no filme“. Horas de reuniões criativas foram gastas para encontrar o equilíbrio entre as performances e a narrativa. Mas com Antal e Charlotte assumindo o comando, a banda pôde se concentrar naquilo que melhor sabe fazer, tratar da sua atuação no palco.

O “não” como resposta

Diz James Hetfield sobre a entrada no mundo do cinema: “Nós estávamos habituados a ter sempre carta-branca no mundo da música e raramente ouviamos a palavra ‘não’ quando queríamos tentar algo novo”. No complexo mundo do levantamento de financiamento para filmes as coisas já não foram tão simples.

Os Metallica encontram Paulo Coelho…

Antes que se pense que não há mesmo limites para o escritor brasileiro, vale a pena avisar que foi um encontro literário. E é coisa do realizador Antal, que cita duas origens diversas para a história do seu roadie que vai ao inferno para cumprir a sua missão. Uma delas foi o coordenador de produção da banda, Dan Braun, que impressionou o cineasta como um exemplo de enorme dedicação ao trabalho. Bem mais inesperado é quando ele dá a conhecer a outra fonte de inspiração para o seu argumento – nada menos que O Alquimista, de Paulo Coelho, o seu livro preferido. A explicação: “é sobre um miúdo que sai à procura de um tesouro, apenas para descobrir que estava no lugar de onde ele tinha partido. Aquela espécie de narrativa circular sempre teve um grande apelo para mim“.

Escala épica

O filme foi rodado em três noites em Vancouver e duas em Edmonton, resultando em 60 horas de filmagens que possibilitaram a Antal escolher os momentos mais dinâmicos. No todo, 24 câmaras operaram em simultâneo, flagrando o palco de todos os ângulos possíveis.

As performances e os efeitos no palco ficaram a cargo de outro especialista, Mark Fisher, por trás do The Wall dos Pink Floyd e mais de 30 anos de carreira que incluem colaborações com Rolling Stones e U2, entre outros. Fischer foi buscar ao longo histórico de concertos do grupo muitas dos seus símbolos e cenários para os reconstruir numa escala épica, utilizando tecnologia topo de gama. Daí vieram a implosão do cenário da tour de Reload, o covil das cobras do “Black Album“, a Lady Justice de “Justice for All” e os caixões de “Death Magnetic“. Segundo Fisher, “o grande desafio era construir um palco que comportasse isso tudo“.

Set List

Para Ulrich, a ideia foi unir canções que toda a gente conhece, as prediletas dos fãs e músicas menos conhecidas. O set list inclui composições de quase todos os nove álbuns da banda. No caso dos álbuns mais antigos, de Kill Em All aparece Hit the Lights, de Ride the Lightning surgem a faixa-título, Creeping Death, Fade to Black e For Whom the Bell Tolls e de Master of Puppets a música que dá nome ao álbum mais Battery” e Orion. Já de And Justice for All… a banda executa igualmente a faixa-título mais One. Do seu trabalho mais famoso, o Black Album, são executadas Enter Sandman, Nothing Else Matters e a introdução de Wherever I May Roam. Completam a lista Fuel e The Memory Remains (de Reload) e Cyanide, de Death Magnetic. James Hetfield (vocalista/guitarra), Kirk Hammett (guitarra), Robert Trujillo (baixo) e Lars Ulrich (bateria) compõem a formação atual dos Metallica.

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