Apenas o Vento: os ciganos e o racismo

(Fotos: Divulgação)

O Festival de Berlim é o mais politicamente correto (no bom sentido) dos certames cinematográficos e não espanta que este Apenas o Vento, quinto filme do realizador húngaro Benedek Fliegauf, tenho saído de lá no ano passado com o Urso de Prata (perdendo o de Ouro a outro filme socialmente conectado, o César deve Morrer dos irmãos Taviani).

A obra inspira-se em diversos episódios ocorridos na Hungria, entre 2008 e 2009, em que famílias inteiras de ciganos foram chacinadas por motivos raciais. Sem referir especificamente nenhum deles e a evitar mencionar lugares para dar-lhe uma dimensão de universalidade, o argumento de Fliegauf opta por uma abordagem do interior de uma comunidade assolada pelo terror depois que mais uma família é encontrada morta nas redondezas.

A família principal consta de uma mãe, que garante o sustento dos demais e ainda tenta a amealhar dinheiro para ir ao encontro do marido no Canadá, a filha adolescente, que frequenta a escola, o filho mais novo, pré-adolescente, que vaga pelas florestas sem grande finalidade e o pai dela, inválido que passa os dias deitado. Nas suas peregrinações quotidianas, Fliegauf flagra as suas relações sociais com os húngaros, marcados ora pelo racismo mais primário ora pela solidariedade, e com os demais membros da comunidade cigana, muitas vezes dominada pela inércia, pelo alcoolismo e pela violência.

Ciganos e racismo

Lançado em Portugal sob o patrocínio da Amnistia Internacional e do prémio Lux, concedido pelo Parlamento Europeu a filmes que abordam os direitos das minorias étnicas (igualmente atribuído a Shun Li e o Poeta, que também estreia em Portugal este mês), Apenas o Vento aborda temas relacionados aos Romas, ciganos existentes em diversos países da Europa Central.

As organizações que têm tratado do tema têm ressaltado nos últimos anos as condições de extrema miséria e segregação a que esta minoria tem sido vítima em praticamente toda a Europa Central, mas que atinge também o Ocidente, como ficou evidente na polémica expulsão de centenas deles de França por Nicolai Sarkozy, há três anos.

O racismo não é mais do que uma sucessão fatal de erros de raciocínio“, observou Fliegauf numa entrevista. Com isso o realizador pretende exprimir que são uma série de interpretações equivocadas e generalizações grosseiras que acabam por criar uma cultura de justificação passiva da ação de grupos radicais – conforme exposto no filme na cena do diálogo entre os dois polícias na cena do crime.

Alemães e suíços

Não foi a primeira vez que o festival alemão foi de grande valia para o cineasta húngaro. Autodidata, Fliegauf realizou um primeiro, Forest, em 2002, sem qualquer espécie de apoio e foi grande parte a reação que obteve no evento que ele pôde seguir em frente já com melhores condições. Dealer, de 2003, venceu o Festival de Mar del Plata e recebeu novamente prémios em Berlim.

Com Milk Way, em 2007, foi a vez dos suíços prestarem contas ao seu talento, outorgando-lhe o prémio máximo do Festival de Locarno. Foi também lá que o seu filme seguinte, de 2010, o primeiro em língua inglesa e que tinha Eva Green como protagonista, recebeu outra distinção. Womb tinha uma complexa história futurista a misturar biotecnologia e clonagem com incesto e uma espécie de “racismo” (os clones eram segredados). Nenhum destes filmes teve lançamento comercial em Portugal.

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