Num dia em que Kilian Armando Friedrich chegou ao BellaTOFIFEST com o poderoso drama laboral I Understand Your Displeasure, o documentário Silver, de Natalia Koniarz, levou-nos até Potosí, no coração da Bolívia, uma cidade marcada há séculos pela exploração mineira. Se o filme germânico fazia da invisibilidade e precariedade dos trabalhadores das limpezas um thriller do quotidiano, Koniarz olha para outro rosto do mesmo sistema de exploração, mas ainda mais letal e com responsabilidade direta do próprio estado.
“Aqui descansam os homens que deixaram os seus pulmões na mina”, lê-se numa placa de um cemitério da cidade onde a cineasta polaca filmou o seu projeto documental, que inevitavelmente nos fez recordar – no espírito e angústia – com o trabalho executado pela portuguesa Salomé Lamas noutra mina sul-americana, em La Rinconada, nos Andes peruanos, no seu Eldorado XXI (2016).
Embora bem distintos, os filmes tocam-se na forma como observam a ligação capitalista atual às estruturas pré-coloniais e coloniais. Em Eldorado XXI, era o ouro que conduzia os homens para as entranhas da montanha, desde os tempos dos Incas, depois pelos Espanhóis, e agora pela máquina capitalista; em Silver, é a prata que alimenta um sistema que vem desde os espanhóis, mas a Montanha Rica (Cerro Rico) é mais uma tumba onde se paga com os pulmões e com a vida a busca pela sobrevivência quotidiana. A prata boliviana, que séculos atrás era a base do poder do imperial espanhol, hoje representa a esperança de uma vida melhor para estes marginalizados do sistema.
Koniarz descobriu Potosí quando viajava pela América do Sul com o companheiro e a pandemia Covid lhes barrou o regresso à Europa. Foi essa circunstância que a levou à cidade, onde as minas funcionam sem fiscalização e praticamente sem regras de segurança.
A câmara da cineasta polaca viaja com os trabalhadores ao interior da montanha, respira o mesmo pó, e observa as múltiplas explosões que por lá se efetuam, transformando o seu filme num exercício de claustrofobia que chega também os exteriores. Por isso mesmo, vemos crianças e adultos que vagueiam pelos espaços, pelas escolas, sempre com as explosões, os gases e os desabamentos como pano de fundo. Na educação que se dá aos miúdos, todos também são confrontados com a sua função social e os perigos que ela acarreta. A verdade é que neste local, a morte tornou-se tão comum que é difícil não encontrar uma mãe que não tivesse enterrado um filho.
Como nos explicou o apresentador da sessão, a realizadora e o seu operador de câmara viveram essa realidade, revelando um problema que não pode ser visto apenas como boliviano ou sul-americano, pois a prata que daí advém entra nos circuitos económicos internacionais e toca, de uma forma ou de outra, em tudo o que consumimos.
Nesse sentido, e apesar de ter apenas 75 minutos, Silver não é apenas um filme sobre Potosí, mas sobre o modo como a sobrevivência de uns sustenta o conforto de outros, permanecendo, por isso mesmo, no espectador muito depois da sessão terminar.

