Cinema egípcio no 46.º Festival do Cairo: novos olhares, memórias restauradas

(Fotos: Divulgação)

Tentando encontrar o seu espaço sob o peso do legado do passado — num momento em que o streaming representa tanto um obstáculo para as salas de cinema como uma oportunidade para os criadores — o cinema egípcio marca, como é habitual, presença em várias secções da 46.ª edição do Festival Internacional de Cinema do Cairo, olhando tanto para dentro da sua própria sociedade como para realidades vizinhas, como a palestiniana. Mas vamos por partes.

Na competição internacional de longas-metragens, o documentário One More Show acompanha o grupo Gaza Free Circus enquanto atua para crianças deslocadas em meio ao genocídio em curso.

Fora de competição, um dos destaques é Complaint No. 713317, filme de Yasser Shafei que transforma um simples frigorífico avariado na faísca para um labirinto burocrático e emocional. Entre o humor negro e a crítica social, o filme expõe o colapso das instituições — e dos casamentos — com uma ironia cortante. Na mesma secção, Pasha’s Girls, de Mohamed Al Adl, cruza beleza, morte e segredos quando a esteticista Nadia morre subitamente após um atentado terrorista, e as suas colegas apressam-se a ocultar o que parece ser um suicídio.

Outra presença fora de competição, nas Sessões Especiais, é Triangle of Love, de Alaa Mahmoud, um documentário que acompanha dez anos da vida de uma mulher com cancro e do filho que ficou para contar. Também Life After Siham, de Namir Abdel Messeeh, filma o luto — a morte da mãe — com ternura, construindo um ensaio poético sobre memória e criação, entre o Egito e a França.

Na competição de curtas, The Unnamed, de Abanoub Nabil, coreografa a dor e a esperança através do olhar de uma filha que tenta salvar a mãe dançarina; The Last Miracle é uma dramédia sobre fé, culpa e segundas oportunidades; Eman, de Amir Youssef, dissolve as fronteiras entre fé, memória e movimento; e Cone, de Mark Ayman, pulsa com a energia das ruas do Cairo.

Clássicos restaurados: um regresso à grandeza

Cairo 30 (1966)

Como tem sido hábito nos últimos anos, o certame celebra a herança do Cinema egípcio, exibindo algumas das suas maiores obras totalmente restauradas. Em 2024, títulos como Al-Futuwwa (The Thug, 1957) e Al-Zawja Al-Thaniya (The Second Wife, 1967), ambos de Salah Abu Seif, além de Sawwaq el-Utubis (The Bus Driver, 1982), deixaram a sua marca. Em 2025, o festival chama à equação cineastas como Hassan Al-Imam, cujos Palace Walk (1964) e Palace of Desire (1967) adaptam com mestria os dois primeiros volumes de uma famosa trilogia de Naguib Mahfouz.

Salah Abu Seif, pioneiro do realismo egípcio, regressa com Cairo 30 (1966) e uma nova exibição de The Second Wife (1967). A homenagem estende-se a Henry Barakat e ao intenso The Sin (1965), a Houssam El-Din Moustafa, presente com quatro títulos — de The Road (1964) a The Beggar (1973), passando por A Crime in a Quiet Neighborhood (1967) e The Quail and the Autumn (1967) —, e ao inevitável Youssef Chahine, cuja visão política em The People and the Nile (1972) continua a ecoar.

Obras de Kamal El-Sheikh, Hussein Kamal e Ezz El-Dine Zulficar completam um alinhamento que evoca o esplendor de uma era em que o Cinema egípcio era o coração criativo do mundo árabe.

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