Apesar de mostrar frequentemente no seu cinema uma hierarquia de poderes que conduz a um enorme sentido de injustiça e uma separação exacerbada das classes sociais, o padrinho do neorrealismo no cinema egípcio, Salah Abu Seif, como também se viu em “The Thug” (1957), parece sempre mais interessado no impacto que essas injustiças têm nos indivíduos que nas injustiças em si. Não é diferente em “The Second Wife” (Al-Zawja Al-Thaniya, 1967), onde – regressando aos tempos antes da revolução de 1952 (Revolução de 23 de Julho)-, o umda (líder) da aldeia abusa tanto do poder que vai encontrar num camponês, forçado a divorciar-se para que ele se case com a sua esposa, o motor para uma revolta absolutamente trágica.
E se “The Thug” (1957) nos mostrava a pobreza daqueles que migraram para as cidades e tiveram que lidar com os tenebrosos líderes das negociatas de um mercado de vegetais, em “The Second Wife” vemos que nas zonas rurais a vida ainda era mais complicada e injusta para os mais pobres e sem terras. Mais que um filme de tendência marxista ou de exploração da miséria, o filme de Salah Abu Seif visita a psique de um homem na construção da sua vingança a partir de uma força moral impulsionada pelo sentido de justiça.
Sem um herdeiro para prosseguir com o seu legado e muito interessado na sua serviçal Fátima (Soad Hosny), o líder de uma aldeia (Salah Mansur), que sempre arranja mil e uma desculpas para surrupiar mais terras a todos os que lá habitam, convence a sua esposa Hafiza (Sanaa Gameel) que ela é incapaz de lhe dar um filho, pondo em risco o seu legado. Para ele, a solução é casar-se com uma segunda mulher e nada melhor que Fátima para isso. Claro está que se ele convence a esposa desse objetivo, prometendo a esta uma espécie de maternidade controlada do eventual filho que virá a ter, esses desejos esbarram em Fátima e, também, no seu marido, Abu Al-Ala (Shukri Sarhan).

Numa sociedade profundamente corrupta e desequilibrada, Abu Al-Ala e Fátima ainda tentam escapar, mas acabam detidos, com o homem a ser acusado de um roubo que não cometeu. A fonte de corrupção moral, que em “The Thug” se resumia a especulador do mercado citadino, aqui é bem mais abrangente. Além do umda, vislumbramos um vasto conjunto de oportunistas habituados a colher as migalhas do poder. Assim, encontramos clérigos hipócritas, forças da lei que cegamente obedecem e outros burocratas (como oficiais dos registos) envolvidos na espinha dorsal de um sistema degenerado.
Encostado às cordas e com o apoio da esposa, Abu decide aceitar a separação para evitar males maiores, enquanto Fátima acede a casar. O casamento ocorre, mas as intenções do umda em ter um filho com Fátima vão esbarrando sistematicamente, ora em recusas e desculpas por parte desta (que geram um conjunto de gags curiosas), ora em atitudes da primeira esposa do líder da aldeia, Hafiza, tudo enquanto Abu Al-Ala prepara o seu regresso e vingança.
O mais curioso de “The Second Wife” é que, em oposição a “The Thug”, onde a chegada ao poder trazia consigo uma inevitável corrupção moral, aqui isso não acontece, com os vilões a desaparecerem de cena e os camponeses, entretanto transformados em líderes, a aplicarem uma justiça social que irá trazer felicidade à aldeia. Também contrariamente ao filme de 1957, este conta com atuações de maior ênfase dramático, saindo do realismo e entrando numa dimensão teatral que nunca lhe retira força ou poder no espetáculo dramatúrgico que tenta ofertar.
Destaque para a realização de Salah Abu Seif e a interpretação do vasto leque de atores, com Soad Hosny ainda a conseguir provocar muitos suspiros na sala Hanager no Cairo onde a sessão decorreu, com muitos dos jovens a não se esquivarem a tirar fotografias e fazer vídeos do grande ecrã, enquanto esta encanta com a sua presença.

