Cairo ao sabor dos clássicos:  “Al-Futuwwa” (The Thug)

(Fotos: Divulgação)

Casa cheia no cinema Hanegar, conversas em plena sala de espetáculos e até um fotógrafo, à antiga, a disparar flashes durante a sessão de cinema. É assim no Cairo, não fruto dos novos tempos, mas dos antigos. E nesta viagem profundamente sensorial, como se entrássemos numa cápsula do tempo, nada melhor que a exibição de um clássico, restaurado em 4K, do cinema egípcio. Datado de 1957, “Al-Futuwwa” (The Thug) de Salah Abu Seif remete-nos  aos “tempos de injustiças” em que os poderosos esmagavam os fracos, ou seja, embora a produção já tenha sido filmada no pós tempos coloniais, o olhar é para o passado do domínio britânico.

Baseado na história real de um homem, Abu Zayd, que liderava o monopólio no mercado do Cairo, o qual, quando o filme foi lançado, tentou travar a sua exibição, “The Thug” acompanha a luta de Haridi (Farid Shawqi), um recém chegado ao Cairo que vê num mercado uma oportunidade de trabalho. Ele não tem certamente grandes dotes para esse emprego, como lhe diz uma vendedora do mercado (interpretada pela inesquecível Tahia Carioca), mas progressivamente vai subindo na hierarquia e percebendo que, tal qual uma máfia, o Mestre Abu Zaid, que lidera o mercado, usa todos os esquemas possíveis para manter os preços elevados dos produtos, esmagando a concorrência e contribuindo para a fome e pobreza. Usando muitos dos esquemas que ainda hoje servem para valorizar o preço dos produtos (retirar do mercado produtos, levando a crise de oferta e aumento dos preços), Abu Zaid é dono e senhor de todas as transacções, esmagando qualquer um que se atreva a fazer-lhe concorrência. E esse alguém será Haridi, que embora trabalhe para Zaid vai, paralelamente, criando um rival fictício para Zaid, qual agente duplo. 

Assinado por Salah Abu Seif, considerado o padrinho do neorrealismo no cinema egípcio, o filme contou com a escrita de Naguib Mahfouz, Nobel da Literatura em 1988 e um dos maiores dinamizadores na cultura literária e cinematográfica do conceito de Futuwwa, que nos tempos idos era usado em contextos religiosos, políticos e militares para definir aliados que perpetuam ideais de cavalaria e fraternidade, mas que na entrada do século XX, no Egito, passou a ser designada pelos dicionários como uma espécie de “durão” que protege os interesses locais num sistema agressivo, que degenera muitas vezes naquilo que se procurava combater, ou seja, um tirano.

Haridi (Farid Shawqi) não é propriamente um jovem, mas definitivamente “um novato” na sua condição de oprimido, e que observa como uma figura tirânica e opressora controla (quase) todos ao seu redor, contribuindo para um cada vez maior fosso entre ricos e pobres. Os agentes estatais estão praticamente ausentes do filme, tirando um policia egípcio bem intencionado, uma vez que os elementos criminosos subornam (nas entrelinhas) os representantes do estado colonial, conseguindo mesmo interferir na transferência do polícia de farda branca para uma outra zona do país. 

Haridi insere-se no que a cultura egípcia construiu do “thug” (rufia) de génese proletária, mas que progressivamente, também ele com acesso ao poder, começa a corroer o seu código moral. No Egito, os chamados líderes futuwwa das décadas de 1920 e 30 eram vistos como protetores dos bairros e não opressores, mas tal como acontece com alguns governantes, na lógica do poder como imã da corrupção moral, o protetor por vezes transforma-se no usurpador. Por isso mesmo, num desenlace que afasta os dois grandes tiranos de cena, Abu Zayd e Haridi, o polícia de farda branca, que conhecemos anteriormente, avisa os vendedores aliviados: “A questão não são os indivíduos. Abu Zayd e Haridi já se foram, mas mil como  eles virão ocupar o seu lugar, com a mesma ganância e avareza.”

O Festival do Cairo prossegue até dia 22 de novembro.

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