Cinema italiano aporta no Rio de Janeiro

(Fotos: Divulgação)

Embora o seu parceiro internacional de maior destaque este ano seja a França, com a presença de Juliette Binoche em território brasileiro, o Festival do Rio jamais largou a mão da Itália nas suas 26 edições anteriores, tendo recebido, inclusive, a visita do divo do Spaghetti Western Franco Nero. Na sua 27.ª maratona, iniciada na quinta-feira com a projeção de gala de After the Hunt (2025) — cujo realizador, Luca Guadagnino, nasceu em Palermo — há treze produções italianas na programação e mais quatro coproduções da pátria de Visconti com outras nações.

De entre todos os representantes dessa pátria, La Duse – A Diva Contra o Fascismo (2025), de Pietro Marcello, é o mais procurado até agora, impulsionado pelo impacto da atuação da sua protagonista, Valeria Bruni Tedeschi, em Veneza, onde competiu pelo Leão de Ouro. Haverá mais uma exibição do filme nesta terça-feira, às 21h, no Cinesystem Belas Artes 2.

A narrativa centra-se no último grande ato de uma carreira lendária: depois de um longo silêncio que parecia anunciar o fim, Eleonora Duse confronta-se com os tempos turbulentos do pós-Primeira Guerra Mundial e com a ascensão do fascismo em Itália. Perante perdas financeiras inesperadas e um mundo em transformação, sente a necessidade de regressar ao palco — o único espaço onde verdadeiramente podia respirar.

No domingo, às 13h30 (18h30 em Lisboa), o Cinesystem Belas Artes associa ao evento um achado vindo de Locarno, Le Bambine (2025) — que, em tradução literal, se chamaria As Meninas —, das irmãs Valentina e Nicole Bertani. O argumento revive um período de crise para as populações italianas em 1997, uma época de aperto económico. Nesse momento, Linda, de oito anos, foge de uma vila na Suíça pertencente à sua avó rica, onde vive com a mãe, Eva. Durante a fuga, conhece Azzurra e Marta. Um vínculo de verão une as três meninas numa pequena gangue formada para proteger umas às outras, a sua juventude e a sua liberdade. À sua volta, pairam pais egoístas a perseguirem sonhos frágeis, vizinhos bisbilhoteiros e uma ama queer em busca de pertença num mundo homofóbico.

“Tre Ciotole”, de Isabel Coixet

Tensões de um pretérito imperfeito também mobilizam La Grazia (2025), de Paolo Sorrentino, que valeu a Copa Volpi de Melhor Ator a Toni Servillo no início de setembro. A sua interpretação transcende aqui a excelência já habitual. Ele interpreta um presidente viúvo em fim de mandato que precisa decidir sobre a legalização da eutanásia enquanto revisita as próprias angústias. Há sessão desta tocante comédia triste do cineasta oscarizado por A Grande Beleza (2013) neste domingo, às 21h30, no Estação NET Botafogo 1.

O Festival do Rio parla italiano numa ponte com a Espanha: Tre Ciotole (2024), traduzido como Três Despedidas, de Isabel Coixet. Artesã autoral consagrada por retratar o quanto o amor sabe ser implacável, a realizadora catalã — de Elisa y Marcela (2019) e Elegy (2008) — regressa à ribalta com uma narrativa em italiano. Tudo parte do que parece ser uma discussão trivial entre Marta (Alba Rohrwacher) e Antonio (Elio Germano). O casal termina a relação, na fricção do ressentimento. A reação de Marta é fechar-se em si mesma e afastar-se do mundo. A única coisa que ela não consegue ignorar é a súbita perda de apetite. A projeção acontece na segunda-feira, no Kinoplex São Luiz 2, às 21h30.

Fiel à bandeira da diversidade, o Festival do Rio terá até um faroeste com morada na Itália, a sublinhar o legado das macarronadas — o já célebre spaghetti western — dos anos 1960 e 1970. Há uma longa que se centra em William Frederick Cody (1846–1917). Caçador, batedor de carteiras e condutor ferroviário, tornou-se lenda no Oeste — e no imaginário de Hollywood — a partir de um espetáculo itinerante de cavalaria e de tiro, o Wild West Show, que dirigiu a partir de 1883.

Essa história foi contada no grande ecrã pelo realizador Robert Altman (1925–2006), com Paul Newman (1925–2008), em Buffalo Bill and the Indians or Sitting Bull’s History Lesson (Oeste Selvagem, 1976), filme vencedor do Urso de Ouro na Berlinale daquele ano. O que ficou de fora daquela narrativa perfumada a pólvora surge agora em Testa o Croce? (2025), traduzido como Entroncamento, de Alessio Rigo de Righi e Matteo Zoppis, produção importada do Festival de Locarno. Passa na terça-feira, às 13h45, no Cine Carioca José Wilker.

“Testa o Croce” evoca a tradição do spaghetti

É raro ver um western no Cinema hoje em dia, quando apenas o streaming ainda dá atenção a esse género, frequentemente alvo do patrulhamento da correção política. O Festival de Cannes, em 2023, deu espaço a Strange Way of Life (2023), de Pedro Almodóvar, que revisitou o western sob uma lente queer. Já a longa-metragem de Righi e Zoppis opta por uma linguagem moderna, com ecos do grande Cinema dos Estados Unidos.

A narrativa decorre no início do século XX, quando o Buffalo Bill’s Wild West Show chega a Itália para deslumbrar o público europeu com o gatilho relâmpago de Cody, interpretado por John C. Reilly. Após um rodeio mortal e um beijo roubado, Rosa e o seu amante caubói Santino (interpretados por Nadia Tereszkiewicz e Alessandro Borghi) fogem pela selva italiana, perseguidos por Buffalo Bill.

“O filme foi inspirado numa lendária competição de doma de cavalos entre italianos e caubóis americanos. É um anti-western que começa com tropos clássicos e se transforma num conto mágico onde mito, ficção e realidade se entrelaçam”, explicaram os realizadores Alessio Rigo de Righi e Matteo Zoppis em nota à imprensa.

O Festival do Rio termina a 12 de outubro, com a entrega dos prémios da Première Brasil.

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