1997: Linda, uma menina de oito anos, afasta-se da luxuosa vivenda suíça da avó abastada para embarcar numa viagem incerta ao lado da mãe descontraída, Eva. Ao chegar a Itália, conhece Azzurra e Marta, e entre as três floresce uma forte cumplicidade de verão. Unidas por um vínculo profundo, elas fazem tudo para proteger a sua amizade, juventude e a liberdade recém-descoberta. À sua volta, movimentam-se adultos egoístas presos em sonhos efémeros, vizinhos curiosos e fofoqueiros, e uma empregada doméstica queer à procura de um lugar onde possa ser ela própria, num mundo marcado pela homofobia.
É esta a base de Le Bambine (Mosquitoes), um filme profundamente biográfico assinado pelas irmãs Valentina e Nicole Bertani, que concorrem ao Leopardo de Ouro na 78.ª edição do Festival de Locarno — uma história de memória, de amizade, e de como, por vezes, voltar atrás é a única forma de seguir em frente.
“Foi um filme terapêutico“, admite Valentina ao C7nema, numa entrevista no coração de Locarno. “Foi uma forma de confrontar a nossa família, de tentar perdoar os erros dos nossos pais. E esperamos que eles nos perdoem pelo que mostrámos no filme.“
Valentina já tinha deixado a sua marca no cinema em 2022 com o documentário La timidezza delle chiome, apresentado nas Giornate degli Autori em Veneza, onde seguíamos os gémeos Benji e Josh, jovens judeus praticantes, músicos e com deficiência intelectual. Em estreia na ficção, ela contou com a colaboração da irmã Nicole na concretização de um filme que desafia a ideia de que a infância é um mundo de inocência pura — e que crescer é descobrir que o mundo é sombrio. Em Le Bambine, o caminho é inverso. “São as irmãs que ensinam a Linda a voltar a ser criança“, explica Valentina. “Ela chega com um olhar pesado, controlado, quase adulto. Elas mostram-lhe como brincar, como imaginar, como ser livre.“
“Esta história precisava de ser contada“, diz a dupla sem hesitar. O filme nasceu de memórias reais — de um verão marcante. Foi Valentina quem teve a ideia inicial: reviver aquele período em que tudo mudou com a chegada de uma nova rapariga, com a sua mãe deslumbrante, que apareceu do nada numa noite de verão e perturbou o equilíbrio da rua, das amizades, da infância. “Foi um abalo. Mudou tudo“, explica Nicole, acrescentando que foi imediatamente chamada para trabalhar com a irmã no filme: “Falámos da infância, daquela sensação de que faltava alguma coisa — o fundo, a textura daqueles anos. Começámos a fazer uma troca de ideias, a mergulhar nas memórias.“
Para estruturar essa memória coletiva, a dupla envolveu ainda Maria Sole Limodio, argumentista fundamental no processo. “Ela tornou-se a terceira criança conosco“, dizem. “As suas memórias fundiram-se com as nossas. Há partes das três protagonistas que são dela. Não é só o nosso filme — é também o dela.“

Memórias que colidem — e como as reconciliar
Quando duas pessoas recordam o mesmo evento, as versões nem sempre coincidem. Mas, neste caso, a realidade central era inegável: um acontecimento real, vivido pelas duas. Os factos eram objetivos, mas, para o cinema, decidiram fazer uma transposição cinematográfica: alterar certos elementos, sempre em consenso, para servir a narrativa. “A verdade emocional permaneceu. Mas o filme não é um documentário — é uma recriação poética da memória.“
A música como alma
A década de 90 é evocada com precisão — especialmente através da música, que teve um papel central desde o início. “A música estava presente já na escrita do argumento“, explica Nicole, acrescentando que todos os temas são fiéis à época, mas nunca são usados por pura nostalgia. “Não escolhemos as músicas só porque eram dos anos 90. Escolhemos porque tinham significado emocional.”
Entre as escolhas, destaca-se Certe notti, de Ligabue — um hino de verão em Itália em 1997. “Aquela música traz imediatamente o calor, os mosquitos, as noites longas. É o espírito daquele tempo. Daquele verão.”, diz a dupla, que menciona ainda Children, de Robert Miles — outro ícone da época, que transporta para um estado de sonho, de fuga.
Mas a escolha mais ousada talvez seja E Ti Vengo a Cercare, dos C.S.I.. “É quase distópica na cena da discoteca“, admite Valentina. “Nunca se ouviria ali. Não é música para dançar. Mas a letra — ‘E ti vengo a cercare’ — ‘E venho procurar-te’ — é sobre a busca de uma mãe, de raízes, de pertença. É o que a Linda está a viver.” “Talvez ela nem a ouça na discoteca“, acrescentam as cineastas.: “Talvez seja só na cabeça dela. A música como mundo interior.“
Trabalhar com jovens atrizes
O processo de preparação foi cuidadoso. “Não lhes contámos toda a história de imediato“, revela a dupla. “Queríamos que descobrissem a trama aos poucos, tal como os espectadores. Queríamos manter o mistério.“
Porém, as jovens atrizes — apelidadas carinhosamente de “as três mosquinhas” — espionaram uma leitura do argumento. “Voltaram a chorar: ‘Descobrimos tudo! Já não há mistério!’”, ri-se Valentina. “Ficaram devastadas. Mas foi um sinal de que estavam profundamente ligadas à história.“
O Festival de Locarno decorre até dia 16 de agosto.

