Pietro Marcello regressa a Veneza com “Duse”, protagonizado por Valeria Bruni Tedeschi

(Fotos: Divulgação)

Já lá vão seis anos desde que o cineasta italiano Pietro Marcello apresentou em Veneza Martin Eden, filme que valeu a Luca Marinelli o prémio Volpi de Melhor Ator e que continua a definir em grande medida a sua carreira.

Este ano, regressou ao Lido com Duse, em competição pelo prestigiado Leão de Ouro na 82.ª edição do festival. Com Valeria Bruni Tedeschi no papel principal, o filme mergulha num período crucial da vida de Eleonora Duse (1858-1924), considerada uma das maiores atrizes de teatro da história italiana.

Fascinou-me esta figura rebelde, e desde o início pensei em Valeria Bruni Tedeschi para o papel principal — não houve sequer casting”, disse o realizador na conferência de imprensa dedicada ao filme. “Não quis fazer um biopic clássico, até porque quase só restam fotografias dela e um registo áudio perdido. Interessa-me o espírito da Duse.

Valeria Bruni Tedeschi e Fanni Wrochna (Credits Erika Kuenka)

A narrativa centra-se no último grande ato de uma carreira lendária: após um longo silêncio que parecia anunciar o fim, Eleonora Duse confronta-se com os tempos turbulentos do pós-Primeira Guerra Mundial e com a ascensão do fascismo em Itália. Perante perdas financeiras inesperadas e um mundo em transformação, sente a necessidade de regressar ao palco, o único espaço onde verdadeiramente podia respirar.

Escolhi esses anos porque representam um período de dissolução, um tempo em que tudo parecia possível”, acrescentou Marcello, que em 2007 já tinha passado por Veneza com o documentário Il passaggio della linea, apresentado na secção Orizzonti. Sobre a relação da atriz com o regime, Valeria Bruni Tedeschi que recorreu ao método Strasberg para dar vida à personagem esclareceu: “Não creio que a Duse estava do lado de Mussolini. Cometeu um erro, como todos nós podemos cometer. Foi ingénua e presunçosa. Pensou que conseguiria obter dele um teatro, acreditou que poderia enfrentar a brutalidade do fascismo — enganou-se. Não quis contar a história de uma figura perfeita, mas de um ser humano.” “Tal como aconteceu com outros artistas perante regimes autoritários, a figura de Duse foi apropriada. Nós quisemos mostrar a sua fragilidade humana e a beleza que transmitia através da arte.”, disse Pietro Marcello.

Valeria afirmou ainda sentir-se próxima do “espírito” de Duse, para quem “o palco era o verdadeiro oxigénio”: “Ela não queria ser uma estrela, queria evoluir como pessoa e artista. Tinha uma enorme humanidade e atenção à fragilidade dos outros, e isso toca-me profundamente. Trabalhei com ela de forma íntima, quase secreta, evocando-a para me acompanhar (…). Inspirei-me também nas cartas que escreveu à filha Enrichetta, uma verdadeira preciosidade.

O elenco conta ainda com Fanni Wrochna, Noémie Merlant, Fausto Russo Alesi, Vincenzo Nemolato, Edoardo Sorgente, Gaja Masciale, Vincenza Modica, Mimmo Borrelli e Savino Paparella, além de Noémie Lvovsky.

Noémie Merlant reconheceu, durante a conferência de imprensa, que antes de integrar o projeto nada sabia sobre Duse, mas rapidamente percebeu que, como tantas outras mulheres extraordinárias, ela tinha sido apagada da história. Já Fanni Wrochna sublinhou: “Interpretei uma mulher que apoiou Duse durante 20 anos e que, apesar disso, quase não aparece mencionada em lado nenhum. Os argumentistas deram-lhe vida. Senti a responsabilidade de dar voz a essas figuras invisíveis.

O Festival de Veneza decorre até 6 de setembro.

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