O nome de Luca Guadagnino tem tido uma presença assídua na programação do Festival de Cinema de Veneza, onde estreou vários filmes, a começar pela sua primeira longa-metragem, The Protagonists (1999). Depois disso, marcou presença em 2020 com a curta Fiori, Fiori, Fiori e o documentário Salvatore: Shoemaker of Dreams. Às ficções Bones and All (2022) e Queer (2024) junta-se agora After the Hunt, um thriller psicológico protagonizado por Julia Roberts, Andrew Garfield e Ayo Edebiri.
Passado num contexto académico norte-americano de elite, no filme seguimos Alma Imhoff, uma professora de filosofia (interpretada por Julia Roberts) que vê a sua vida desmoronar quando a sua protegida, Maggie (Ayo Edebiri), acusa um colega e amigo de violência sexual (Andrew Garfield).
Com argumento escrito pela jovem Nora Garrett, After the Hunt explora, com nuances, temas como poder, privilégio, ambição, segredos e a complexa dinâmica entre gerações, num contexto académico marcado pelo movimento #MeToo.
O filme teve uma receção controversa na sua exibição para a imprensa, com algumas mulheres a considerarem que minava os princípios do feminismo e da luta feminista. Quando questionada por uma jornalista sobre esta crítica, Julia Roberts saiu em defesa do thriller: “Bem, não querendo ser desagradável – porque não é da minha natureza –, diria que o que acabou de dizer é justamente o que gosto no filme: ele revive velhos argumentos. E não necessariamente apenas o argumento das mulheres serem colocadas umas contra as outras ou de não se apoiarem. Há muitos argumentos antigos que são rejuvenescidos de uma forma que realmente gera conversa. O melhor da sua pergunta foi dizer que todas essas mulheres saíram do cinema a discutir o tema. Era exatamente essa a nossa intenção: que todos saíssem com sentimentos, emoções e pontos de vista diferentes. É nesse confronto que percebes no que acreditas, quais são as tuas convicções.”

Nora Garrett validou as palavras de Roberts, acrescentando que existem várias nuances nas questões abordadas: “Imaginar que já passámos completamente para uma nova onda do feminismo, na verdade, mina o que está a acontecer na realidade da sociedade. O que tentámos fazer foi trazer à tona algo verdadeiro, real, que pedisse às pessoas para refletirem sobre o que realmente acreditam.”
No mesmo sentido, Luca Guadagnino acrescentou que o que procurava era olhar para as diferentes pessoas e as suas verdades: “Cada um tem a sua. Não se trata de dizer que uma verdade é mais importante do que a outra. O interessante é o choque dessas verdades e até onde elas podem coexistir. Não é sobre fazer um manifesto para ressuscitar valores ultrapassados. Quem nos conhece, publicamente ou pessoalmente, sabe que não pode ver o filme dessa forma.”
Descrevendo o “coração do filme” — a natureza das personagens, a ideia de objetividade e subjetividade — Andrew Garfield acrescentou: “O filme é sobre o que acontece quando não tornamos o inconsciente consciente: coisas acontecem e chamamos-lhes destino — isto é uma versão meio deturpada de Carl Jung, e por isso peço desculpa a Jung e a vocês. Quando as nossas motivações são invisíveis até para nós mesmos, todos nos tornamos narradores não confiáveis. E, numa cultura onde a sobrevivência é primordial — ou pelo menos a perceção dela —, os humanos agem de forma animal quando sentem que está em jogo a vida ou a morte. Foi fascinante explorar personagens que acreditam ser os heróis da sua própria história, mesmo que se enganem.”
“Para mim, é sempre interessante ver o que carregamos sem perceber”, acrescentou Guadagnino. “Muitas vezes, agimos movidos por forças que nem sabemos que existem em nós. E mesmo as mentiras que contamos acabam por revelar a verdade — como vemos em muitas partes do mundo atualmente.”
Quando questionado sobre o que o fascinou no mundo da academia americana e no Departamento de Filosofia, Guadagnino mencionou uma discussão interna que já tinha tido consigo próprio sobre a ideia de poder: “O que queremos quando procuramos poder? Porque é que o desejamos? Porque é que lutamos para o ter e para o tirar das mãos dos outros? E o guião oferecia uma estrutura fantástica. Penso sempre em termos cinematográficos e a ideia de Yale, da Academia, dos corredores, das salas de aula, dos bares e restaurantes — tudo isso é muito icónico e, ao mesmo tempo, universal. Pessoalmente, sempre questionei o que quero. Até hoje, a resposta é: tranquilidade. Mas ver noutras pessoas essa ambição, essa necessidade de afirmação acima dos outros, fascina-me. É quase uma maldição. Este filme explora precisamente isso: aqueles que querem o poder a todo o custo, que precisam de ser definidos pelo poder que têm. Até agora, muitos dos meus filmes eram sobre personagens que diziam “não quero”, como em Bartleby, do Herman Melville. Desta vez quis inverter a perspetiva e explorar os que dizem “quero” e fazem tudo por isso“.
Depois de estrear em Veneza, After the Hunt será exibido no Festival de Nova Iorque. O projeto é da Amazon MGM.
O Festival de Veneza decorre até dia 6 de setembro.

