Inaugurada na sexta-feira, sob o signo da nostalgia com Nouvelle Vague, de Richard Linklater, a mostra Perlak é a secção de San Sebastián que traz a Espanha longas-metragens que marcaram os principais festivais realizados entre janeiro e agosto, com destaque para Cannes. Foi de lá que chegou o título que lidera na votação do público: The President’s Cake. Se mantiver a média de votos registada nos painéis espalhados pela cidade basca, a produção oriunda do Iraque deverá arrecadar o Prémio Donostia do Júri Popular, em meio à visibilidade conquistada após ter sido escolhida para representar o país na corrida por uma vaga nos Óscares de 2026.
Do Irão, todos esperam sempre grandes filmes, como comprovou a Palma de Ouro atribuída a Jafar Panahi por Un Simple Accident, que também será exibido na vitrine da Perlak. Já sobre o percurso do Iraque no cinema pouco se sabe. Muito por conta dos conflitos com os Estados Unidos — sobretudo a Guerra do Golfo, nos anos 1990 —, a produção audiovisual iraquiana permaneceu quase invisível no exterior. Nesse sentido, a passagem de The President’s Cake pelos festivais representa um acontecimento cultural. Antes de San Sebastián, o filme brilhou na Quinzena de Cineastas de Cannes, onde conquistou o cobiçado troféu Caméra d’Or, equivalente a uma Palma para estreantes. O realizador, Hasan Hadi, recebeu ainda o Prémio do Público na Croisette.
A narrativa mistura o “era uma vez…” das fábulas com um neorrealismo de raiz. Faz lembrar O Balão Branco (1995), de Panahi, pelo protagonismo infantil, mas distancia-se de um registo etnográfico. O que vemos é uma nação imersa no medo através dos olhos de uma criança. “Ao retratar a miséria, não faço simbolismo propositado. Entre a fábula e o naturalismo, existe uma jornada”, disse Hadi em Cannes.
Com sólida experiência como montador, Hadi tinha assinado antes a curta-metragem Swimsuit (2021), estreada no Festival de Varsóvia. Natural do sul do Iraque, trabalhou em jornalismo e tornou-se professor adjunto no Programa de Pós-Graduação em Cinema da New York University. Foi distinguido com a Gotham-Marcie Bloom Fellowship, o Black Family Production Prize e o Sloan Foundation Production Award, além de ter sido bolseiro do Sundance Lab 2022. A partir de Nova Iorque, reuniu os meios para filmar The President’s Cake. “É uma história que passa pelas minhas memórias de rapaz”, afirmou na Croisette.
A protagonista é Lamia (Banin Ahmad Nayef), uma estudante de 9 anos que precisa cumprir a tarefa imposta pela escola: preparar um bolo de aniversário para Saddam Hussein (1937-2006), então líder do Iraque. Estamos no início dos anos 1990, na era Bush (pai), e o dia 28 de abril — aniversário de Saddam — era celebrado como uma festa cívica obrigatória. Sem recursos para comprar os ingredientes, Lamia enfrenta uma travessia em busca de açúcar, fermento, farinha e ovos, acompanhada pela avó severa (Waheed Thabet Khreibat).
Lamia conta com dois aliados: o colega de escola Saeed (Sajad Mohamad Qasem) e um galo de estimação, cobiçado por todos os aviários da região. Nesta jornada culinária, o filme constrói um microcosmo da opressão — interna, pelo regime de Saddam, e externa, pelas bombas que caem ao redor. “É a travessia de duas crianças num ambiente de pobreza”, reforçou Hadi em Cannes.
Antes de The President’s Cake, o cinema iraquiano era sobretudo associado a nomes como Abbas Fahdel (Retour à Babylone, Homeland – Iraq Year Zero), Mohamed Al-Daradji, premiado em Berlim em 2010 com Filho da Babilónia, e Mohamed Shukri Jameel (1937-2025), conhecido por King Ghazi of Iraq (1993).
O Festival de San Sebastián decorre até 27 de setembro.

