Sparta: Seidl leva a San Sebastián uma ferida moral a gangrenar

(Fotos: Divulgação)

Proscrito eticamente em função de um escândalo ligado aos procedimentos no set de filmagens do realizador Ulrich Seidl, acusado de não ter sido transparente acerca do conteúdo do guião com o elenco juvenil, “Sparta” é uma ferida aberta de 110 minutos que gangrena em San Sebastián, ao permanecer na luta pela Concha de Ouro. Toronto retirou o filme da sua programação e e outros eventos começam a negar seus holofotes ao cineasta austríaco. O protesto contra ele gravita pela temática – pedofilia – que ele aborda sem qualquer subtileza, como lhe é peculiar. Mas a situação se agrava (tornando a imersão na sua narrativa quase intragável) pela opção por ele adotada de expor o tema de maneira gráfica, com as crianças sem camisa quase a toda a hora, observados por um homem na faixa dos 50 anos que os deseja.

Premiado na Berlinale de 2017 por sua atuação em “Bright Nights“, Georg Friedrich, ator escolhido por Seidl para viver o protagonista, é um intérprete corajoso, que não foge de enredos espinhosos, como se viu no aclamado “Great Freedom“, em 2021. Ele faz o que pode para dar camadas existenciais à personagem central de “Sparta“: Ewald, um austríaco que se instala na Roménia a fim de poder libertar os demónios sexuais que o levam ao choro, mas, também, fazem com que macule a vida dos miúdos a quem oferece aulas de judo. A profundidade dos dilemas psicológicos de Ewald acabam sendo esvaziados pela maneira reiterativa como Seidl repete as situações (como brincadeiras nas quais ele se aproveita para observar as crianças). E a polémica de bastidores em volta do realizador de “Safari” (2016), em si, já esvazia o filme, criado para formar uma trilogia, iniciada em “Rimini“, que concorreu ao Urso de Ouro de Berlim, em fevereiro.

Existe sempre algum eixo de polémica e de desconforto na obra de Seidl, um cineasta de 69 anos que começou a filmar em 1980. “Dod Days” (2001) e “Import Export” (2007) deram a ele a fama de provocador que explode agora, para além dos ecrãs. “Sparta” carrega todos os elementos da identidade de autor que forjou da década de 1980 até aqui, a começar pela natureza anfíbia de mesclar o realismo ficcional a elementos documentais, com não atores. Mas a sua aposta contínua em escancarar atitudes condenáveis, aqui, tropeçam na absoluta falta de subtileza. O cineasta busca um subterfúgio para Ewald (que não funciona dramaturgicamente): o pai, hoje senil, ao cantar músicas bélicas nacionalistas e a fazer a saudação do Terceiro Reich, demonstrando um DNA nazi. É um dado que poderia realçar as sombras de Ewald, mas parecem estar em cena meramente para justificar a “maldade” inerente à sua perversão.

Últimas