Depois de um segundo dia destacado pela presença “Ahed’s Knee“, de Nadav Lapid, como um dos mais interessantes projetos na Competição Principal, o terceiro dia do Festival de Cannes acordou com uma enorme ovação a “Great Freedom” de Sebastian Meise.
Nove anos depois da sua brilhante estreia com “Still Life“, o cineasta austríaco regressa com um filme poderoso protagonizado por Franz Rogowski, que ainda recentemente vimos em dois filmes de Christian Petzold (“Transit” e “Undine“), e Georg Friedrich (“Bright Nights“).
Alternando a ação entre diversos períodos desde o pós-2ª Guerra Mundial e meados da década de 1970, o cineasta segue a história de Hans Hoffman, um homem que passa a maior parte da sua vida adulta na prisão. Enquanto quase todos os prisioneiros são libertados dos campos de concentração no final da 2ª Guerra Mundial, Hans é transferido diretamente para a prisão, considerado culpado de homossexualidade de acordo com o Artigo 175º, uma disposição do Código Penal Alemão em vigor desde 1872 e reforçada em 1935, que continuou a ser aplicada após o fim da guerra, e que criminalizava as relações homossexuais.
Meise entra pela prisão adentro sem amarras, construindo para já o maior candidato à Palm Queer, que este ano conta com 27 filmes na sua competição paralela ao certame. Sem manipulações ou atos de choque-pelo-choque, mas sem limitar ou reduzir a sua abordagem – no texto e na estética – aos ensaios académicos, o realizador traça um retrato do pós-guerra pegando numa história pessoal, de Hans, juntamente com um conjunto de presos, onde novas relações ambíguas se constroem em torno de uma figura ímpar transformada em farrapo humano pelo sistema.
Rogowski entrega-se de corpo e alma à representação de um homem em permanente estado ilegal, antes e depois da guerra, entregue a um sistema que considera a sua homossexualidade uma aberração punível e desprezível. Nessa viagem, ele nunca tenta alterar ou forçar o que é, assumindo um destino traçado pelos que estão errados na História.
Esteticamente este é um filme contido de exuberâncias, sempre incisivo, mas sempre também com uma ligeireza na criação de empatias e relações entre as personagens em cena, onde não faltam pedaços de humor, em que uma possível fuga da RFA para a RDA chega a ser equacionada para ele finalmente viver sem “ser um criminoso”.
Um bom filme, com um trabalho de iluminação cuidado e uma fotografia que se mostra essencialmente pálida, como a prisão e a sociedade em que Frank vivia o era. E com a força desta segunda obra, Meise confirma que o seu “Still Life” não foi um acidente de percurso, mas um trabalho que lhe permitiu um impactante começo de carreira, agora adornado convenientemente com esta segunda obra que deve fazer uma bela rota de festivais no pós-Cannes.




















