‘O Dia que Durou 21 Anos 2: O Grande Irmão’: Um gesto documental contra o esquecimento

(Fotos: Divulgação)

Neste momento em que o Festival de Veneza não para de discutir as ditaduras sul-americanas, à força do desempenho de Ricardo Darín em Argentina, 1985, o cinema brasileiro também põe lenha no forno da História que aquece o debate de uma das maiores vergonhas de nosso continente com O Dia que Durou 21 Anos 2: O Grande Irmão. Continuação para um dos filmes mais eletrizantes sobre o governo de farda nas Américas, a nova longa-metragem de Camilo Tavares estreia esta quinta-feira com o título de “O Grande Irmão”, em referência explícita à vigilância norte-americana que nos acossa. Uma vez mais o cineasta eleva a nossa pressão em uma narrativa digna de um Costa-Gavras. No documentário, Tavares enquadra, a partir de imagens de arquivo, a participação do governo militar brasileiro junto à CIA e o Departamento de Estado dos Estados Unidos, no golpe que derrubou o presidente Salvador Allende, no Chile. Com documentação confidencial e inédita, o filme mostra os antecedentes e bastidores do golpe que aconteceu no dia 11 de setembro de 1973 – e a ditadura de Pinochet, que durou 17 anos. Na conversa a seguir, Tavares explica ao C7nema a sua cartografia geopolítica.

Qual é a dimensão política e poética do arquivo no cinema que você faz? De que maneira una imagem de Allende hoje ressignifica os registos biográficos que a História oficial nos deu dele?
A dimensão política do filme é extremamente importante hoje em dia, principalmente no momento em que o Chile sofre ameaças do governo Bolsonaro. O Chile tenta pela via democrática estabelecer um governo mais socialista e justo socialmente. Nós fizemos uma pesquisa nos arquivos da França, do Chile e do Brasil para recontar essa história que, infelizmente, está muito atual na América Latina. O cinema como arte tem essa função de provocar e discutir a democracia.
Qual é o papel simbólico do governo dos EUA na política latino-americana dos anos 1960 e 70? Esse papel mudou de que forma?
No Brasil, ainda estamos seguindo muito os interesses das multinacionais. Vemos isso no agronegócio, na política de exportação de produtos que atendem ao mercado externo e só beneficiam as multinacionais americanas. Não se vê uma política no governo atual de valorizar a agricultura familiar ou o Movimento dos Sem Terra. Temos 30 milhões de pessoas passando fome e somos os maiores exportadores de soja, de carne e frango. O agronegócio ganha todo o apoio nas políticas públicas. Tudo isso fruto é de uma política, que desde 1964, não fixou o homem no campo e não deu uma política de nacionalização das indústrias. O tema ainda é muito atual e nós, como nação, temos que valorizar o Brasil e ter uma nova atitude em função aos nossos recursos naturais e às nossas potencialidades.
Que imagem o Brasil dos anos 1970 deixa para o mundo depois do AI-5 de 1968? De que forma o seu filme pode dessacralizar essa imagem?
A imagem do Brasil desde a ditadura militar sempre foi muito negativa para a América Latina. Os governos militares ficaram no Poder até 1986 e interferiram em outros países. “O Grande Irmão” busca rediscutir esse papel que o Brasil assumiu em interferir em outros governos e acredito que nós possamos rediscutir o papel das Forças Armadas e o que a gente espera como nação. O Brasil tem uma influência política e económica em toda a América Latina, mas a gente sempre serviu aos interesses das multinacionais. Sempre fomos o Grande Irmão e fizemos o trabalho sujo, não só na tortura e na violação dos direitos humanos, mas no sentido de sabotar qualquer movimento de independência ou de nacionalismo da América Latina. Essa parte da nossa História é muito pouco conhecida e divulgada. O filme é uma tentativa de resgatar um pouco essa memória para que a gente construa uma sociedade mais consciente. Sempre me lembro de quandoestava nos debates dos EUA. As pessoas me perguntavam se eu tinha medo da repressão da CIA. E eu dizia que o meu medo é o esquecimento, falta de conhecimento histórico. Fiz um filme destinado principalmente ao público jovem.

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