Escolhido para o elenco da série “The English”, com Emily Blunt, o ator irlandês Stephen Rea, nomeado ao Oscar por “The Crying Game” (1992), teve uma aula de geopolítica e de cidadania à moda brasileira, com a sua participação no documentário “Segredos do Putumayo”. Hoje em cartaz no Brasil, o novo filme de Aurélio Michiles (“O Cineasta da Selva”) conta com o fetiche de Neil Jordan para a locução da sua narrativa centrada em genocídios indígenas.
É Rea quem empresta a voz ao ativista de Dublin Roger Casement (1864-1916). Numa missão diplomática na América do Sul, ele foi testemunha da escravização e do assassinato dos povos originários da floresta, que eram forçados a trabalhar na colheita da borracha.
“Sempre tive interesse por questões indígenas. Sou um embaixador do Unicef e sempre tive uma conexão com os esforços de proteger a cultura indígena. Sinto que nesse filme de Aurélio, tive o mais profundo contacto com esse mundo”, disse Rea ao C7nema, na sua passagem por São Paulo, neste fim de semana. “Foi muito vívida a nossa relação de criação, sobretudo no discurso da (ativista) Vanda Witoto”.
No início do século passado, por volta de 1910, Casement veio à Amazónia, na fronteira com a Colômbia e o Peru, para investigar as atividades da Peruvian Amazon Company. A empresa que operava na Bolsa de Londres utilizava trabalho escravo de indígenas na extração da borracha. A preocupação da Inglaterra não era a brutalidade genocida em si e, sim, o quanto ela macula o nome da Coroa. Daí Casement ter sido designado, pois ele já havia denunciado as violações de direitos humanos pelo rei Leopoldo, da Bélgica, no Congo. São dos diários dele que Michiles extraiu o texto falado por Rea. “Stephen, antes de ator, é um humanista, um militante que usa o talento para exaltar as artes contra as injustiças”, diz o cineasta brasileiro.
De volta à Europa, depois da sua expedição amazónica, Casement envolveu-se em conflitos políticos na Irlanda buscando a emancipação do seu país do jugo inglês. Durante a Revolta da Páscoa, um movimento revolucionário de independência, em 1916, o diplomata acabou preso, julgado por traição, condenado e executado tendo, nessa altura, perdido a honraria de cavaleiro da Ordem de São Miguel e São Jorge. Foi reabilitado apenas em meados dos anos 1960 e transformado em herói.
“O roteiro do Aurélio é calçado nas palavras de Casement”, diz Rea. “Nesse sentido, o meu trabalho foi uma questão de emprestar a fala às suas experiências. O diário dele retrata uma mudança no seu entendimento do mundo. O seu olhar é diferente no começo, quando você sente a raiva e a frustração que ele está sentindo. A minha voz tenta mudar e capturar essa mudança e essa transformação dele em um revolucionário”.


