A partir desta quinta-feira, 50 cidades brasileiras embarcam na maior maratona anual de cinema francês da América Latina: o Festival Varilux, que entra na sua 13ª edição. Marca de excelência curatorial e de mobilização popular, o evento mobiliza as telas brasileiras até 6 de julho. No Rio de Janeiro, a programação será exibida no Cinemark Downtown, Espaço Itaú de Cinema Botafogo, Estação NET Rio, Estação NET Gávea, Estação NET Botafogo, Cine Casal Museu da República, Cine Santa e Instituto Moreira Salles. Já estão assegurados sucessos de bilheteria na Europa como “En attendant Bojangles”, de Régis Roinsard, vista por meio milhão de espectadores em terras francesas, à força do carisma de Romain Duris, Virginie Efira, Grégory Gadebois. E, pela primeira vez na sua história de sucesso, marcada por apostas contínuas em narrativas documentais e longas-metragens de animação, o Varilux vai abrir as portas para a produção francesa de séries. Ao todo, serão apresentadas seis produções nesse formato, entre elas: “Cheyenne et Lola”, de Eshref Reybrouck, e “Les Sentinelles”, de Jean-Philippe Amar. Roisnsard virá ao Brasil, para participar de um colóquio com as plateias. Virá ainda o galã e cineasta Gilles Lellouche, os cineastas Carine Tardieu, Jérôme Salle, Diastème e Eric Gravel.
O C7nema selecionou sete filmes imperdíveis do programa montado por Emmanuelle e Christian Boudier.

- L’ÉVÉNEMENT, de Audrey Diwan: A tradução no Brasil ficou igual a Portugal, ou seja, “O Acontecimento”. O Leão de Ouro de Veneza, enfim, dá o ar da sua graça em circuito brasileiro, de prosa com a literatura memorialista da romancista Annie Ernaux, autora de “O Lugar”, “Os Anos” e “Paixão Simples”. A narrativa decorre em 1963, quando a estudante Anne (Anamaria Vartolomei) tenta abortar uma gravidez indesejada, mas encara os riscos da ilegalidade, deixando a sua própria saúde em perigo. Há uma participação impecável de Sandrine Bonnaire, vivendo a mãe de Anne. Há uma promessa de polémica anunciada com a passagem da longa-metragem pelo circuito brasileiro num momento em que um caso de estupro de uma menina deflagra um debate sobre o posicionamento da Justiça em relação aos direitos femininos.
- LE MONDE D’HIER, de Diastème: Traduzido em solo brasileiro como “O Mundo de Ontem”, este thriller político arrebata a plateia à força do seu elenco. Presidente da República, Elisabeth de Raincy (Léa Drucker, em impecável desempenho), optou por se reformar da vida política. Três dias antes da primeira volta das eleições presidenciais, ela fica a saber através do seu secretário-geral, Franck L’Herbier (Denis Podalydès), que um escândalo do exterior atrapalhará o sucessor designado e dará a vitória ao candidato da extrema direita. Eles têm três dias para mudar o curso da História.
- MADELEINE COLLINS, de Antoine Barraud: Virginie Efira atinge o apogeu como intérprete num ensaio sobre identidades fraturadas e desejos saturados que colecionou elogios na sua passagem pela Gironate degli Autori de Veneza. Ela dá corpo e alma a Judith, uma mulher cheia de mistérios que leva uma vida dupla entre a Suíça e a França, com dois amantes e filhos diferentes. Por um lado, há Abdel (Quim Gutiérrez); do outro, Melvil (Bruno Salomone). Cada um tem um perfil. Mas o obstáculo de Judith é encontrar um equilíbrio entre as suas mentiras, os segredos, as idas e vindas. Um dos destaques do elenco é o desempenho de Jacqueline Bisset.
- PETER VON KANT, de François Ozon: Filme de abertura da Berlinale, em fevereiro, de onde saiu ovacionado graças ao desempenho do ator Denis Ménochet. É uma homenagem ao diretor Rainer Werner Fassbinder (1945-1982) a partir de uma releitura de um dos seus maiores sucessos: “As Lágrimas Amargas de Petra von Kant”, peça teatral escrita pelo cineasta em 1971 e filmada pelo próprio em 1972. Ménochet é um cineasta de prestígio que enlouquece de amor por um rapaz, Amir (Khalil Ben Gharbia), apresentado a ele pela amiga e musa, a atriz Sidonie (Isabelle Adjani).
- A PLEIN TEMPS, de Eric Gravel: Chamado na América do Sul de “Contratempos”, este drama foi um dos achados dos Horizontes de Veneza em 2021 e um dos melhores trabalhos da atriz Laure Calamy. Ela saiu premiada da Terra das Gôndolas pelo seu desempenho como Julie, que luta sozinha para criar os seus dois filhos nos subúrbios de Paris. Quando finalmente consegue uma entrevista para um cargo correspondente às suas aspirações, uma greve geral eclode, paralisando os transportes. Ela então embarcará numa corrida frenética para salvar o emprego e a família. É uma reflexão marxista sobre trabalho, que conversa com a estética sociológica de Stéphane Brizé e Joachim Lafosse.
- LES JEUNES AMANTS, de Carine Tardieu: Cada vez mais brilhante em cena, Fanny Ardant utiliza todo o ferramental cénico que acumulou desde “A Mulher do Lado” (1981) para traduzir a emancipação de uma septuagenária que se recusa a ser refém dos ditames sociais do etarismo e do sexismo. Na trama de “Jovens Amantes”, Fanny brilha no papel de Shauna, uma mulher de 71 anos que reencontra um antigo amor, Pierre (Melvil Poupaud, um ator em fase de apogeu profissional), hoje com 45. Opostos nas crenças, mas hipnotizados um pelo outro, eles se reconectam, enquanto Shauna, que já é mãe, avó e viúva, quer reafirmar a sua potência apesar da diferença de idade entre eles. Cécile de France brilha no elenco.
- KOMPROMAT, de Jérôme Salle: Prestes a completar 50 anos, aniversariando no dia 5 de julho, Gilles Lellouche é um dos atores de maior sucesso na França, tendo arrastado 2 milhões de pagantes aos cinemas para vê-lo em “Bac Nord: Sob Pressão”, no ano passado. Ele ainda fez fortuna como realizador, rodando “Le Grand Bain”, em 2018. E ele brilha aqui nesta recriação da espetacular fuga de um diretor da Aliança Francesa da Sibéria. Vítima de uma trama orquestrada pelo FSB (Serviço Federal de Segurança da Rússia), este intelectual, Mathieu, terá que se transformar em homem de ação para escapar ao destino. E Lellouche sabe dar vida a brucutus muito bem, em especial quando é guiado por um habitué do género, como é o realizador de “Zulu” (2013).

