Amigos de Risco: Desaparecido há 15 anos, o ‘After Hours’ do Recife estreia finalmente no Brasil

(Fotos: Divulgação)

Terra natal de “Cinema, Aspirinas e Urubus” (2005); “Baixio das Bestas” (2006); “O Som ao Redor” (2012); “Aquarius” (2016); “Bacurau” (2019) e “Carro Rei” (2021)Pernambuco, estado do Nordeste brasileiro reconhecido mundialmente como sendo uma potência cinematográfica, aportou o seu espírito criativo e crítico nas veredas do género, na confluência entre o drama geracional e o suspense, na construção de um thriller que surpreendeu espectadores na sua passagem pelo Festival de Brasília, em 2007. “Amigos de Risco“, escrito, dirigido e montado por Daniel Bandeira, era uma espécie de “After Hours” (1985), filme de culto que deu o prémio de Melhor Realização de Cannes a Martin Scorsese. Qual Griffin Dunne a correr desenfreado por Nova Iorque, fugindo de uma noite de flert malfadado, os protagonistas desta longa-metragem corriam pelas ruas do Recife, noite afora. Mas depois de um problema operacional – uma cópia da longa-metragem que foi extraviada durante um voo –, o filme desapareceu do mapa sem encontrar espaço para ser projetado. Agora, 15 anos depois, o Instituto Moreira Salles (IMS), no Rio e em São Paulo, agendou uma série de exibições dessa caudalosa narrativa.

Na trama, o malandro Joca (Irandhir Santos) nunca foi flor que se cheire e, por isso, teve de sair do Recife. Quando as suas confusões se aquietam, ele está de volta. E resolve celebrar com os parceiros do coração: Nelsão (Paulo Dias), um homem cheio de dívidas com agiotas, e Benito (Rodrigo Riszla, uma força da natureza), funcionário subserviente de uma gráfica. Um reencontro regado a cevada abre precedentes para sonhos, projetos e inquietações entre eles, até que Joca, numa visita a uma boate, sente-se mal e desmaia, sob o vetor de um certo pó branco nas suas vias nasais. Sem dinheiro, transporte ou comunicação, os seus parceiros o carregam pela cidade deserta, onde cada esquina aguarda uma surpresa… e o tal “risco” do título, sobre o qual seu realizador fala a seguir, ao C7nema.

Qual é a dimensão dramatúrgica da amizade, como sentimento e como vivência? O que o teu filme busca nesse corpo a corpo com a lealdade?

Daniel Bandeira: 
Em 2005, quando filmamos essa longa-metragem, formávamos um grupo de amigos no início da vida adulta, tentando se estabelecer no audiovisual através do vídeo digital – que nem era considerado “cinema sério”, na época. E a amizade foi a chave para driblarmos as dificuldades e realizar o filme. A amizade, enquanto tema, sempre me interessou mais do que o amor romântico. Mas, no nosso caso, servia também como uma espécie de espelho da minha geração: o peso das amizades e das consequências das escolhas, o desconforto de uma caminhada sem um destino muito claro, a ausência da ajuda alheia… tudo isso se resume de uma maneira simbólica nessa imagem do amigo caído, carregado pelos seus companheiros. Ao longo da vida, carregamos pessoas com a gente, para o bem e para o mal. E essas relações têm peso acumulativo.

O que mudou no cinema pernambucano desde a primeira sessão de “Amigos de Risco“, em 2007? O que é rever o filme hoje, em circuito?

A primeira sessão pública de “Amigos…” tinha muito de uma tomada de posição. Contra todas as possibilidades, lá estávamos, estreando no Festival de Brasília. Era possível! Gosto de pensar que, mesmo ausente, “Amigos de Risco” pode ter estimulado vários amigos contemporâneos a desenvolverem os seus próprios projetos. Ou que a experiência pode ter contribuído para a carreira de vários que iniciaram na época como Pedro Sotero, Juliano Dornelles, Amanda Gabriel, Irandhir Santos… Mas não deixa de ser um alívio, uma retribuição a todos que apostaram na realização do filme na época. Por outro lado, “Amigos de Risco” também é uma espécie de defesa do cinema de género. E eu gostaria de ter visto o cinema de Pernambuco se voltar também ao policial, à comédia, ao horror… Tento imaginar se o lançamento comercial de “Amigos de Risco“, naquela época, teria estimulado mais produções desse tipo em Pernambuco, no decorrer desses anos, mas, só recentemente, tenho visto alguns exemplares surgirem. Se essa é uma mudança duradoura, espero que “Amigos…” retorne para contribuir com ela.

Como é que foi pensada a montagem nevrálgica do filme? Como concebeu a edição?

Na decupagem do filme há muito do cinema americano independente dos anos 1970, da blaxploitation, dos polizieschi… Mas o nosso set exigia cortes na nossa decupagem original. Nunca dava tempo para cumprir todo o nosso storyboard. Assim, desenvolvemos uma dinâmica em que a câmara cobria a cena de forma mais livre e com takes mais longos, em uma mise-en-scène mais elaborada. E era assim que a montagem transformava poucos e longos takes em planos curtos e mais diversificados, que davam o ritmo que o filme pedia. O tempero original está lá, mas o cozimento pediu que adicionássemos um pouco de Dogma 95 ao sabor.

De que forma o filme conversa com o cineasta que você foi há uma década e meia atrás e o que ele aponta do que você se tornou?

Todo esse processo de perda do filme me custou bastante e precisei me recolher um bocado. Só hoje, com o filme na rua, tento perceber a dimensão real desse impacto. Ouço os ecos do Daniel daquela época: a ousadia, a pretensão (por que não?), o prazer de provar com os amigos que o difícil era possível. Daquela época, carrego comigo a escuta e a confiança, mas tenho relembrado a importância de conciliar as experiências aos imprevistos – seja no cinema ou na vida

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