E, ao 2º dia, Tom Cruise conquista Cannes

(Fotos: Divulgação)

No dia em que se inaugurou a secção Un Certain Regard e as barras paralelas do certame – Quinzena dos Realizadores e Semana da Crítica -, foi uma estrela de cinema de Hollywood quem atraiu mais as atenções na Croisette. Tom Cruise, que surge nos ecrãs do festival em “Top Gun: Maverick”, esteve presente no festival para uma conversa sobre a sua carreira, sendo surpreendido pelo certame com a entrega da Palma de Ouro Honorária.

Amo o meu público. Faço filmes para o público. … E faço filmes para o grande ecrã”, disse Cruise, que recebeu uma enorme ovação durante a premiação. “Preparação é tudo. Mesmo que depois não a utilizes, não importa (…) Não quero que as pessoas vejam o trabalho por trás das coisas. Eles não conhecem esse trabalho e não quero que vejam isso. Só quero que eles experimentem o mundo.” Os aplausos repetiram-se na exibição de “Top Gun: Maverick”, que teve direito a cinco minutos de ovação.

O dia começou em Cannes com a estreia mundial do novo filme de Pietro Marcello, desta vez bem mais contido naquilo que se tornou uma das suas marcas pessoais, ou seja, a mistura de imagens documentais com ficção. Em “L’Envol”, filme de abertura da Quinzena dos Realizadores, o responsável por “Martin Eden” mantém a atenção ao passado e às tradições, sempre sem saudosismos e com enorme sentido crítico – explanado por aqui principalmente por personagens femininas que frequentemente levantam-se contra a injustiça de tratamento em relação aos homens. Baseado em “Scarlet Skies”, romance do russo Aleksandr Grin, “L’Envol” acompanha um homem que regressa a casa após combater na 1ª Guerra Mundial e descobre que a sua esposa morreu e lhe deixou uma filha. Mal visto na região, este homem e a sua filha são acompanhados pelo cineasta durante décadas, focando-se o constante assédio por parte do restantes habitantes.

Alma Viva

Onde também há conversas de que, “quando uma mulher é independente é chamada de bruxa“, é em “Alma Viva”, a primeira longa-metragem da franco-portuguesa Cristèle Alves Meira – que arrancou aplausos na sua primeira exibição na Semana da Crítica. Objeto raro no nosso cinema, não apenas por entrar no campo do sobrenatural, mas por centrar-se na região de Trás-os-Montes – uma paisagem que não fica nada a dever a dos westerns, como descreveu a nova responsável máxima desta barra paralela do Festival de Cannes, Ava Cohen. Com atuações divididas entre atores profissionais e não-atores, Cristèle cria um objeto de suspense que coloca em destaque as tradições e superstições do interior português e a relação dos emigrados com elas e com as suas próprias famílias. “Foi no meu ventre que este filme nasceu“, disse a realizadora apontando para a sua filha, que estava no palco e no filme interpreta o papel de Salomé, uma menina com uma forte ligação espiritual à avó.

Outra estreia mundial, e filme de abertura da Un Certain Regard, “Tiralleurs” provocou uma grande ovação ao seu elenco, em especial ao carismático Omar Sy. Visitando um tema que Ousmane Sembene focou no seu “Emitaï”, filme no qual o império colonial francês retira pela força os homens das aldeias senegalesas e leva-os a combater pela libertação da Europa na 2ª Guerra Mundial, Mathieu Vadepied coloca um pai e o filho na rota do combate nessas circunstâncias, mas agora na 1ª Guerra Mundial. Mais filme de guerra, superação e amor de um pai por um filho, que objeto crítico ao colonialismo francês, “Tiralleurs” é um objeto que cabia bem no catálogo de uma plataforma de streaming, com a Netflix à cabeça a poder aproveitar o potencial de Omar Sy, a estrela do seu “Lupin“.

Últimas