Somando os inúmeros problemas técnicos no agendamento das sessões por parte de todos os acreditados no evento, às acusações de censura vindas dos EUA em relação a uma entrevista de Thierry Frémaux à Deadline, podemos afirmar que não começaram da melhor forma os preparativos do maior festival de cinema do mundo. Ainda assim, nesta terça-feira, 17 de maio, o primeiro dia oficial de um festival que se prolonga até ao dia 28 deste mês, a engrenagem já dá sinais de estar bem oleada, dando mesmo origem a alguns momentos que merecem estar inscritos na sua longa História.
Este ano a anfitriã da cerimónia oficial de abertura foi Virginie Efira, a atriz sobre quem caíram as responsabilidades da apresentação do júri da competição à Palma de Ouro, no Grande Auditório Louis Lumière. A atriz, que ainda não há muito tempo tivemos a oportunidade de ver no controverso “Benedetta“, dividiu também as atenções com um Forest Whitaker visívelmente emocionado ao ser premiado pela sua carreira. O ator, que participou no festival pela primeira vez há 34 anos no papel do músico de jazz Charlie Parker no flime que Clint Eastwood lhe dedicou, recebeu a Palma de Ouro honorária.
E nestes tempos conturbados no panorama da política internacional, os ecos da tensão que se vive atualmente não se deixaram de fazer sentir. Mesmo que o discurso oficial de Efira tenha tocado naquele que é um dos temas mais quentes na agenda, como a importância de preservar a experiência do cinema em sala, acabou por ser a participação surpreendente do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, através de uma mensagem de vídeo, a roubar todas as atenções. Num discurso de cerca de dez minutos de duração, o ator transformado em presidente relembrou e homenageou Charlie Chaplin, destacando o filme “O Grande Ditador”, numa ligaçao óbvia a Vladimir Putin: “A humanidade fez um grande número de filmes magníficos [desde aí] (…) e pensaríamos que o horror da guerra não teria sequelas, mas como antes, agora há um ditador (…) Precisamos de um novo Chaplin que prove que o cinema não se silencia (…) Vamos continuar a lutar, não temos outra escolha (…) Estou convencido de que o ‘ditador’ vai perder”.
Terminando o discurso com um “Glória à Ucrânia”, Zelensky recebeu da plateia uma grande ovação.
O Z da discórdia

Logo após o discurso de Zelensky e terminadas as intervenções em palco, a sala Lumière recebeu com risos “Coupez!“, uma comédia de horror baseada no filme japonês “One Cut of the Dead” que, ainda antes de chegar a Cannes, teve de mudar o seu título francês [“Z (Comme Z)”] pelo facto de a letra “Z” ser utilizada como um símbolo pró-guerra da invasão russa da Ucrânia.
Nome alterado, embora a letra ainda apareça no grande ecrã de forma garrafal logo nos momentos iniciais, “Coupez!“ não se afasta muito do material que o inspira, acabando por conquistar o espectador nos detalhes – particularmente o francês, que é o público mais familiarizado com o elenco e que não estava de todo à espera de encontrar Romain Duris e Bérenice Bejo, sob a liderança de Michel Hazanavicius, neste género de filmes.
Homenagem clara ao cinema amador que entra pelo género adentro, em particular os filmes de baixíssimo orçamento, “Coupez!“ segue as peripécias de uma equipa de filmagens que tem que lidar com zombies durante a sua produção. Engenhoso como o original, mas com particularidades que lhe dão uma razão para existir como remake de um filme recente [o original, de 2017, teve uma distribuição limitadíssima fora do seu país], “Coupez!“ é o retrato de um realizador que não se cansa de experimentar e atravessar géneros. Atualmente a trabalhar num filme de animação ambientado na época do Holocausto, Michel Hazanavicius tem ao longo da sua carreira presenteado o público com dramas (“O Artista”; “Godard, O Temível”; “The Search“), filmes infantis (“Um Príncipe em Apuros”), paródias de espionagem (“Agente 117″) e agora uma assumidamente disparatada comédia de horror.
O regresso de um clássico
Durante a tarde, Cannes recebeu de braços abertos – 50 anos depois da sua produção – o vencedor do Grande Prémio Especial do Júri em 1973: “A Mãe e a Puta“, de Jean Eustache. Apresentado em 4K, o filme é em iguais partes um retrato marcante da sociedade francesa pós-maio de 68, e uma vincada e corajosa observação sobre o amor numa época de liberação sexual. Como os tempos mudam: “A Mãe e a Puta“, que provocou motins na sua estreia no evento cannoise, desta vez só conquistou aplausos na Sala Debussy. E há boas notícias para os fãs de Eustache: a exibição deste novo restauro em Portugal está programada ainda para este ano.

