Não há longas-metragens nem curtas inéditas do Brasil na programação do 75º Festival de Cannes, que abre os seus trabalhos nesta terça-feira, 17 de maio, mas haverá na Croisette, nesta quarta, uma exibição, na seção Classics, daquela que talvez seja a mais simbólica carta de amor à brasilidade nas telas: “Deus e o Diabo na Terra do Sol”.
Em 1964, Glauber Rocha (1939-1981) levou uma saga sobre o Cangaço e sobre um suposto messias populista à competição pela Palma de Ouro, o que lhe rendeu a consagração internacional. Agora, 58 anos depois, o filme regressa a Cannes numa cópia restaurada em 4K. A sua projeção, agora, na Era Bolsonaro, afamada pelo desmontar dos aparelhos culturais, evoca o golpe militar que agrilhoou o povo brasileiro numa ditadura de 21 anos. Na década de 1960, a estética glauberiana ia na contramão do que o cabresto militar impunha, clamando pela liberdade da América Latina.
Filha primogénita de Glauber, a realizadora e produtora Paloma Rocha, que cuida da obra do cineasta, cuidou desse restauro em parceria com o produtor Lino Meireles, realizador do aclamado documentário “Candango: Memórias do Festival”. Em 2019, Lino uniu-se a ela para restaurar a segunda longa-metragem de égide de Glauber, realizado após “Barravento”, de 1961. “Num país com a cultura tão depreciada, com a produção artística sofrendo ataques, fizemos um esforço de ir contracorrente. Isso só é possível porque o filme tem a força própria dele”, explicou Paloma em recente entrevista. E Lino atesta a sua fala, no comunicado de divulgação do restauro: “É um ciclo completo para a nossa restauração, onde o filme será reexibido pela primeira vez no mesmo local em que estreou. Que seja um novo chamado de resistência cultural”, afirma o realizador.
Ocupada neste momento com o documentário “Fome – A Dramaturgia do Sensível”, que assina em parceria com Luis Abramo, Paloma comenta com o C7nema os riscos que a obra de Glauber correu com o incêndio na Cinemateca Brasileira, em julho de 2021.
“A obra do Glauber não se perdeu e ela não há de ser perder nunca. Os originais que estão na Cinemateca Brasileira não foram acometidos pelo incêndio do galpão. Fora isso está tudo digitalizado”, diz. “A obra dele se estende para além dos filmes. São 22 mil páginas, mais de 4 mil fotografias, 400 desenhos, que estão no Instituto Moreira Salles, o IMS, porque é uma preservação muito cara, não tinha como fazer isso. Quando houve o incêndio na Cinemateca, eu fui lá e pedi ao Secretário de Cultura Mário Frias que eu tinha o direito de ver (o material) e ele cedeu. Acho que fui a única pessoa que entrou na Cinemateca nesse período em que ela fechada. E aí eu fui lá, vi tudo. Estava tudo lá do jeito que foi entregue pelo Templo Glauber (a instituição que zelava pelos acervos do pai de Paloma) em 2011. Quando eu entreguei o material, ele estava absolutamente restaurado e digitalizado, em caixas próprias. E assim está lá até hoje o material. O que se perdeu na Cinemateca foi o material que minha avó organizou: teses, prêmios, dezenas de cópia de cartazes, toda a documentação do restauro”.
Paloma explica que, no incêndio, foram destruídos todos os catálogos de todos os festivais que o Coleção Glauber Rocha passou, perdeu dezenas ou centenas de cartazes. “O meu trabalho é constante em duplicar a obra. Quando puder, vou restaurar em 4K o “Terra em Transe”, o “Barravento”, “Idade da Terra” e os filmes europeus do papai. Este mês, a Ava Rocha, minha irmã, começou a trabalhar comigo, para assumir a administração da obra com a minha supervisão. É um trabalho muito grande e eu já estou precisando começar a me aposentar disso, pela segurança da obra mesmo. Preciso que outras pessoas saibam como que estão as coisas, como é que funciona a administração”.

