Celebrazione: No centenário de Pasolini, filme relembra a visita do cineasta ao Rio de Janeiro

(Fotos: Divulgação)

Sinónimo de transgressão, numa luta ferrenha contra o moralismo, Pier Paolo Pasolini (1922–1975) vai ter um trecho da sua história pessoal – uma visita ao Rio de Janeiro, nos anos 1970, e um romance com um jovem carioca – pelo cinema brasileiro, em meio à celebração dos cem anos do seu nascimento. Foi através de crowdfunding que o poeta e realizador Luiz Carlos Lacerda, mais conhecido como Bigode, prepara a longa-metragem “Celebrazione – O Filme”, relembrando a visita do cineasta bolonhês à América do Sul, na da cantora lírica Maria Callas (1923-1977).

Zulma Mercadante vai viver Callas e Erom Cordeiro será Pasolini, numa produção de Cavi Borges, feita em esquema de guerrilha, sem o apoio de editais públicos. As colaborações em dinheiro para a longa-metragens estão sendo feitas via PIX para a produtora Cavideo (a conta é o número de telefone: 21-980130885) ou por depósito bancário (Bradesco – Agência: 1745-0 – Conta corrente: 0021495-7 – CAVIDEO PRODUÇÕES – CNPJ: 016663260001-15). Assistente de direção de nomes como Nelson Pereira dos Santos (1928-2018), e realizador de documentários (“A Mulher de Longe”) e ficções (“O Princípio do Prazer”), Bigode esboça uma narrativa que procura uma movimentação da câmara operística, delirante e vertiginosa como “Os Contos de Canterbury” (Urso de Ouro de 1972). O seu projeto coincide com uma retrospectiva online do artesão autoral italiano no Brasil, via MUBI, que começa com “Accattone” (sua longa de estreia, de 1961), agendada para o dia 5 de março, e termina com a exibição de “Édipo Rei” (1967), agendada para o dia 29 de março.

Qual será o Rio de Janeiro retratado no seu filme de Pasolini?

Um Rio de Janeiro de um país que mata homossexuais e, assim, constrói uma poética de sangue e preconceito contra os quais Pasolini se insurgiu – e foi sacrificado por isso. Mas também uma cidade afrodisíaca, libertária, onde um importante intelectual como ele encontra o amor, mesmo que fortuito e tabelado. Mas que se permite absorver por uma empatia entre duas pessoas culturalmente distintas e, numa espécie de safari social, abre portas do Conhecimento do seu mundo tão distante. A favela é o Coliseu onde vivem os cristãos perseguidos pelo poderosos. A Av. Atlântica é a Via Apia tropical (referência a uma sauna gay famosa no Rio).

De que maneira a tradição do cinema italiano, em especial o neorrealismo, pode servir de inspiração para essa nova narrativa?

O neorrealismo sempre esteve presente no cinema moderno brasileiro. É a sua matriz, compreendida por Nelson Pereira dos Santos, que foi meu mestre e o pilar de nosso cinema moderno, como a nossa fonte de libertação do modelo hegemónico dos estúdios – que fracassaram ao tentar reproduzir as fórmulas do cinema industrial americano, dono do mercado mundial. Essa forma de fazer cinema (equipas reduzidas; atores misturados com não-atores; filmagens em locações fora dos estúdios; orçamentos de baixo custo) influenciou o conteúdo dos filmes, refletindo a realidade económica do cinema brasileiro. Todos os nossos filmes têm essa marca. Os que se pretendem “indústria” esbarram na realidade do mercado onde as distribuidoras americanas é que mandam, inclusive utilizando nossas leis de incentivo e tendo acento no comité que decide a política cinematográfica.

Os seus trabalhos mais recentes passam por poetas e músicos (Dona Ivone Lara, Lúcio Cardoso, Murilo Mendes). Todas de cunho biográfico. O que elas apontam acerca do seu olhar sobre a arte, sobre o fazer artístico, sobre a vivência poética?

Como poeta, e com uma filmografia marcada pelas homenagens a personagens da cultura brasileira, faço “Celebrazione” como um ato de reverência a um dos maiores e mais guerreiros artistas do Século XX.

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