O Cavaleiro Verde: Uma fábula druídica

(Fotos: Divulgação)

Na sua fenomenologia do audiovisual, o semiólogo Christian Metz (1931-1993) identifica como ponto nevrálgico de tensão entre a imagem estática e a imagem em fricção o facto de a última usar o movimento para presentificar o que já foi. A fotografia é o templo do “já foi”. O cinema é a catedral do “já é”. O que foi estruturado na semiologia de Metz como teoria vira fenómeno estético em ação na metafísica do realizador norte-americano David Lowery, sobretudo em “O Cavaleiro Verde” (“The Green Knight”), fábula de cavalaria que desafia todas as convenções comerciais que o filão alcançou depois de “Game of Thrones”.

É por meio de uma dilatação letárgica do tempo fílmico que Lowery decanta as projeções, ilações e suposições que fazemos de um tempo histórico. A aposta em signos gráficos (cartelas de texto em letras serifadas, com evocações à fontes medievais) dá um dinamismo gráfico a uma narrativa de contemplação que se debruça sobre uma alma fraturada pelo sentido da honra: a alma de sir Gawain, papel que Dev Patel recheia de vida, em sua mais viçosa atuação. Ainda que estejamos numa cena da era arturiana, relativa à Távola Redonda e à Excalibur, não se fala em Rei Artur, não se aposta em reconstituições pop dos guerreiros da Inglaterra, que os transforme em ninjas ou Power Rangers. Trata-se de um estudo existencial sobre os valores que ordenam um cavaleiro e os dilemas morais que circundam essa ordenança. Mas é um estudo mediado por princípios que evocam Metz a todo tempo… princípios fenomenológicos… onde a aparição de uma entidade da floresta, um monstro de aspecto vegetal (com a voz de Ralph Ineson), deflagra inquietações no jovem Gaiwan.

Inquietações essas que nos ligam ao projeto cinematográfico que Lowery vem perseguindo (com sucesso, vide o culto a se formar em torno de si) a partir de “A Ghost Story”. Desde aquele drama sobrenatural que resvala em códigos do terror, ele vem tangenciando formatos de género, devassando sempre a estruturação mais comercial de cada um, em prol de uma mirada mais reflexiva, menos causal, tridimensionalizando protagonistas e coadjuvantes. Foi o que fez com Robert Redford em “O Cavalheiro com Arma” (“The Old Man and The Gun”, 2018), quebrando expetativas inerentes ao thriller para pensar, na calmaria, sobre fraturas físicas e espirituais da passagem dos anos, sobre a finitude. Este é sempre seu assunto. Um assunto que volta em “The Green Knight” de mãos dadas a uma discussão ética sobre caminhos que se corrompem, sobre desrespeitos a bushidos que traem a retidão. São questões que ele já trazia noutras longas-metragens, seja falando do que um poltergeist pode fazer em prol de sua melancolia perene, seja falando dos limites possíveis para um ladrão.

Sem qualquer conexão com as aventuras feitas pelo cinema comercial (por Stephen Weeks e John Michael Phillips) sobre a lenda sobre a qual se debruça, antes encarnada em atores como Sean Connery, “The Green Knight” parece um capa & espada no modo Terrence Malick, pensando sobre o lugar da fé, do Altíssimo, caracterizado como um lugar de mistério e magia entre nós. Há algo também do “Stalker” de Andrei Tarkovsky, ao flanar por uma zona onde desejos mais parecem uma realidade palpável.

Sem qualquer preocupação com adrenalina, o filme de Lowery se concentra no calvário de Gawain (Patel) iniciado após um embate com o tal ente do Verde, quando este desafia a Távola: quem me ferir num duelo, ficará com meu machado, mas terá, no Natal que vem, que ser submetido a uma ferida parecida por mim. Gawain, para honrar o nome de seu monarca (ou seria para honrar sua vaidade?), atraca-se com o gigante de feições amadeiradas (criadas num requintado trabalho de direção de arte) e vende.

A luta decorre no 25 de dezembro. Nos 12 meses seguintes, Gawain vai entorpecer a sua insegurança em vinho até se ver forçado a cumprir a sua sina. Sina essa que a sua mãe, uma bruxa gourmet vivida com esplendor por Sarita Choudhury, há muito previu. No caminho, ele encara distrações, seja na sensualidade de sua amada (Alicia Vikander) seja no encontro com um nobre cheio de truques (Joel Edgerton). Mas o seu maior desafio é combater as trevas que estão em si mesmo, diferenciando o que é o tempo da natureza e o que o tempo de sua percepção embriagada pelo medo e por uma vaidosa hesitação, numa caminhada que a fotografia de Andrew Droz Palermo traduz, no ecrã, valorizando toda a paleta de cores da terra molhada, das árvores vergadas pela garoa, da espessura do nevoeiro. É um filme druídico, ou seja, com a aparência do mundo que os druidas das fábulas arturianas descreviam. Mas um filme com a assinatura de um autor que se arrisca.         

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