Terrence Malick celebra os 10 anos da sua “Árvore da Vida”

(Fotos: Divulgação)

Esperava-se que “The Way of the Wind”, filme de Terrence Malick sobre a vida de Jesus Cristo, com Mark Rylance, Ben Kingsley e Matthias Schoenaerts no elenco, fosse estrear no 78º Festival de Veneza, mas a longa-metragem não integrou os anúncios, despertando a aposta de que possa fazer de San Sebastián, no norte da Espanha, o seu primeiro pouso.

Cogita-se que o Prémio Donostia, dado anualmente pelo evento espanhol, possa ir para o recluso cineasta de  77 anos, que parece ainda ter frutos para colher de “A Árvore da Vida”. A produção deu-lhe a Palma de Ouro, há uma década, e está prestes a retornar ao circuito, na Europa e nas Américas, numa tentativa de reviver a trajectória comercial dessa longa-metragem tão cheia de signos.

Um dos trabalhos mais controversos do cineasta americano, produzido e estrelado por Brad Pitt, esse drama metafísico, centrado na essência ora violenta, ora conciliadora dos seres humanos, estruturado a partir de um diálogo com o Altíssimo, vai voltar aos cinemas do Velho Mundo nas próximas semanas, a começar por França. Vai ser apresentada a versão original, que conduziu o realizador (um ermita avesso a fotos e aparições públicas) ao Oscar de melhor realização de 2012.

Existe uma segunda versão, director’s cut, ainda maior do que a metragem vista em solo cannoise, em 2011, com 2h20, exibida no Festival de Veneza, em 2018, com 188 minutos. Mas a revisão que os exibidores europeus propõem é a partir do que se viu e do que se aplaudiu em Cannes, quando Robert De Niro foi o presidente do júri do evento. Há quem diga que, naquele ano, o vencedor seria “Melancolia”, de Lars von Trier. Só que uma infeliz declaração do dinamarquês acerca de Hitler cancelou a consagração do seu filme sobre um meteoro a cair na Terra. Só Kirsten Dunst teve reconhecimento em solo gaulês, conquistando um (merecido) prémio de melhor atriz.  

Foi com “A Árvore da Vida” que Jessica Chastain, hoje envolvida na série da HBO baseada em “Cenas de um Casamento” de Bergman, despontou para os holofotes de Hollywood, no papel de uma mãe protetora que tenta resguardar um de seus filhos, Jack (Hunter McCracken, quando jovem; Sean Penn, quando adulto) da ferocidade silenciosa do seu pai exigente, O’Brien, vivido por Pitt.

Amparado no arrojo da fotografia do mexicano Emmanuel Lubezki, Malick professa na tela uma homilia espiritualista: a tese de que a Natureza está acima da vontade dos homens. Em Malick, a Natureza é a omnipotência em estado puro, só que esta é tratada a partir de contornos messiânicos, num reflexo de sua formação pelo transcendentalismo, expresso em ensaístas como Ralph Waldo Emerson e Henry David Thoreau. O ideal transcendental desses autores escorre por Malick, lido à luz e ao ethos do Romantismo, seja pela evasão (no tempo, no espaço) seja pelo tratamento quase divino dado ao Amor.

Analista da dicotomia entre inocência e hipocrisia, Malick sempre arquiteta tomadas belíssimas da natureza – como os campos de trigo de “Cinzas no Paraíso”, de 1978 -, reflexões existenciais – abundantes na Segunda Guerra de “A Barreira Invisível”, pelo qual ganhou o Urso de Ouro em 1999 – e licenças poéticas atípicas em Hollywood – como as da América dos anos 1600 de “O Novo Mundo”, de 2005.

Outra marca do cineasta: a cada filme que roda, uma multidão de astros do mais alto quilate oferece-se para trabalhar para ele a cachés módicos. Na estreia de “A Árvore da Vida”, Sean Penn chegou a dizer que não havia entendido bem o roteiro, mas que valia encará-lo para estar como um mestre daquele porte ao seu lado.

Mesmo nos trabalhos em que foi recebido com frieza ou desdém, vide “A Essência do Amor” (2012) e “Cavaleiro de Copas” (2015), Malick continuou atraindo estrelas e a ser respeitado como um artesão da imagem. Recebeu o prémio do júri ecuménico de Cannes, em 2019, pelo seu “Uma Vida Escondida”, também ele controverso.

Até o mais ácido cronista do cinema americano, o jornalista Peter Biskind, autor de “Easy Riders, Raging Bulls – Como a Geração Sexo-Drogas-Rock’n’Roll Salvou Hollywood”, foi capaz de render elogios ao cineasta numa entrevista de 2011. “Depois de ter desafiado as convenções de roteiro dos EUA, Malick desapareceu, para se dedicar a dar aulas de Filosofia, o que muitos interpretaram como uma recusa em se submeter aos vícios de Hollywood. Certo ou errado, Malick virou um marco de integridade artística”.

Durante anos a fio, o cineasta filmou com hiatos enormes, mas a descoberta das câmaras digitais alimentou seu gosto por voltar aos sets ou de remexer em imagens de arquivo. Agora, ele faz uma longa-metragem atrás de outra. E ainda retoma a colheita da sua “Árvore” sempre que pode.

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