Karlovy Vary 60/80: “Children of Hiroshima” e a dor que atravessa gerações

(Fotos: Divulgação)

Antes de ser um livro (Children of the Atomic Bomb) de Arata Osada em 1951 e antes de ser um filme de Kaneto Shindō em 1952, Children of Hiroshima nascia do testemunho de rapazes e raparigas de Hiroshima que tinham sobrevivido à bomba atómica. 

Aproveitando o fim da ocupação americana no Japão, selado no Tratado de Paz de São Francisco em setembro de 1951, e da sua entrada em vigor em abril de 1952, Shindō, também ele natural da cidade, pegou nessa matéria em bruto para enfrentar diretamente as consequências do bombardeamento, não se guiando apenas pelas marcas no território, mas principalmente nas corporais e mentais de uma identidade japonesa pulverizada numa questão de segundos a 6 de agosto de 1948.

Sem nunca transformar a dor em espetáculo ou manipulação, quem nos guia nesta viagem sempre dolorosa é uma professora que regressa à cidade anos depois da explosão, observando e interagindo com órfãos, adultos e famílias desfeitas. Os corpos, os rostos, e aquilo que eles têm para nos dizer e mostrar, importam mais do que a destruição e reconstrução no terreno, havendo desde o início um sentido de continuidade — na referência ao mesmo rio que permanece imóvel —, mas da presença de uma ferida aberta difícil de ultrapassar.

Exibido no Festival de Cannes em 1953, Children of Hiroshima arrecadou o Prémio da Paz em Karlovy Vary em 1954, inscrevendo-se naturalmente na história de um festival atravessado pela Guerra Fria, pela diplomacia cultural e pela disputa simbólica das imagens. O seu percurso posterior confirma a dimensão incómoda da obra, pois apesar do reconhecimento internacional, só teve estreia oficial nos Estados Unidos em 2011.

Regressou agora à República Checa, inserido na retrospetiva Out of the Past – KVIFF 60/80, que repesca alguns dos filmes da história do festival para lhes dar uma nova vida.

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