“Um Filme de Cinema”… e de aprendizagens

(Fotos: Divulgação)

Antes de tudo, um curso de cinema em forma de longa-metragem. É isso que a TV Brasil propõe este sábado, às 21h00 no Brasil (00h00 de domingo em Lisboa), ao exibir Um Filme de Cinema (2015). Transformada, há cerca de um ano, numa verdadeira cinemateca viva, com sessões diárias dedicadas a obras marcantes do cinema brasileiro de diferentes épocas, a estação pública inclui agora na sua programação uma das mais estimulantes reflexões sobre a linguagem cinematográfica produzidas no país. O filme parte das vivências do diretor de fotografia, artista visual e realizador Walter Carvalho para investigar a essência do plano, a unidade fundamental da narrativa audiovisual.

Responsável pela fotografia de clássicos como Central do Brasil (1998), vencedor do Urso de Ouro em Berlim, em 1998, Lavoura Arcaica (2001) e Amarelo Manga (2002), que conquistou reconhecimento em festivais internacionais, entre eles a Berlinale, Walter Carvalho já era um dos mais respeitados diretores de fotografia da América Latina quando decidiu investir com maior regularidade na realização. Depois de experiências na ficção com Budapeste (2009) e no documentário com Moacir Arte Bruta, alcançou um novo patamar autoral com Um Filme de Cinema (2015), apresentado na Première Brasil do Festival do Rio de 2015 e hoje considerado uma das mais originais reflexões cinematográficas produzidas no Brasil sobre o próprio ato de filmar.

“Na distância entre aquilo que se vê e aquilo que se deduz reside uma certa poesia a que chamamos cinema”, explicou Walter Carvalho ao Correio da Manhã, resumindo a filosofia que orienta o documentário.

Para desenvolver essa investigação, o cineasta reúne alguns dos nomes mais influentes do cinema contemporâneo, todos conhecidos por desafiarem as convenções narrativas da indústria audiovisual. Entre eles estão Lucrecia Martel, Béla Tarr, Gus Van Sant, Ruy Guerra, Júlio Bressane, Cláudio Assis e Karim Aïnouz. A partir das suas conversas, o filme constrói uma reflexão sobre o plano cinematográfico e procura compreender de que forma esse elemento essencial da linguagem foi sendo progressivamente banalizado pela lógica industrial, preservando, ao mesmo tempo, a visão daqueles que continuam a tratá-lo como matéria-prima da criação artística.

A realização de Um Filme de Cinema (2015) coincidiu com um período particularmente intenso da carreira de Walter Carvalho. Enquanto assinava a fotografia de filmes como O Filme da Minha Vida (2017), de Selton Mello, Redemoinho (2016), de José Luiz Villamarim, e O Beijo no Asfalto (2018), realizado por Murilo Benício, encontrava igualmente espaço para desenvolver projetos pessoais, entre eles Manter a Linha da Cordilheira Sem o Desmaio da Planície, dedicado ao universo criativo do poeta Armando Freitas Filho.

O documentário adota uma estrutura assente na escuta, permitindo que cada realizador revele a sua própria relação com a imagem, o espaço e o tempo cinematográfico. Destas conversas surgem reflexões sobre ótica, física e composição visual, mas também episódios curiosos, como uma divertida história contada por Lucrecia Martel sobre Jennifer Aniston. Mais do que um conjunto de entrevistas, porém, Um Filme de Cinema (2015) transforma-se numa investigação sensorial sobre o próprio ato de olhar, revelando a dimensão experimental da obra de Walter Carvalho. É uma linha de pesquisa estética que o realizador aprofundaria posteriormente em Iran, um dos títulos mais ousados da sua filmografia e que continua à espera de uma redescoberta por um público mais vasto.

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