Que espaço é que há em Portugal para as mulheres
poderem transformar este país?
Nós cabemos em Portugal?”
Com estas indagações de Raquel Freire inicio este texto e convido-vos a pensar sobre isto e a respeito da desigualdade de género, questão que nos aflige, e se forço um pouco o meu pensamento a pensar, é possível lembrar que remonta os tempos de Adão e Eva.
No livro Génesis, na visão de Adão, Deus teria dito: “tu tirarás da terra o sustento com muitas fadigas todos os dias da tua vida“; e à mulher: “em dor parirás os teus filhos, e estarás sob o poder do teu marido, e ele te dominará”. O mito de Adão e Eva é o mito da separação dos géneros, estrutura e pressuposição da nossa cultura, colocada em questão cada vez mais na atualidade e nas discussões feministas, dentro e fora do cinema. A desigualdade de género e o machismo de cada dia, a relação hierárquica entre os sexos existem, portanto, desde este mito fundador descrito no Génesis, a sociedade nasce com a divisão sexual e define o poder de um ser sobre o outro.
O filme “Mulheres do meu país” (2019) de Raquel Freire discorre sobre esta temática e traz um olhar feminista primoroso, e é inspirado na obra “As mulheres do meu país” (1948), da também portuguesa e feminista Maria Lamas (1893-1983), que defendia a luta pela igualdade e liberdade da mulher. Esta obra literária foi publicada em fascículos mensais entre maio de 1948 e maio de 1950, e traça o retrato minucioso da condição da mulher em Portugal nos anos 1940, como viviam e quais eram as situações enfrentadas. Não custa lembrar, ainda que de passagem, que neste período histórico o país vivia sob o regime autoritário do Estado Novo.
De acordo Lamas, as mulheres desta época não trabalhavam apenas em casa como domésticas, tinham jornadas duplas e extensas também como operárias, trabalhadoras rurais, bordadeiras, vendedeiras, etc. A escritora atuou ativamente em defesa das causas femininas; era também jornalista e percorreu o país de norte a sul, do litoral ao interior e ilhas, para ver como vivia a mulher portuguesa do seu tempo.
No documentário de Raquel Freire, ela também percorre Portugal para conversar com mulheres de múltiplas identidades e atualizar as questões colocadas por Lamas, pondo em destaque a desigualdade de género que as portuguesas do século XXI devem lidar. São 14 histórias de vida, sendo a maioria destas mulheres desconhecidas do público. Mulheres de diferentes profissões, classes sociais, etnias e género. Mulheres que nos contam como resistem e tentam ultrapassar no dia a dia as dificuldades discriminatórias, racistas, sexistas, homofóbicas, transfóbicas e outras, e como reivindicam a sua autonomia e liberdade.
O filme mostra quem são e como vivem estas mulheres do nosso tempo, dá voz a elas, visibiliza os papéis que conquistam na sociedade em ambientes dominados por homens, traz os testemunhos singulares e ao mesmo tempo diversos de mulheres solteiras, separadas, casadas, trans, brancas, negras e ciganas, com idade entre 22 e 84 anos, põe em evidência as desigualdades sociais e de género, os discursos sobre sexualidade.
Poucas delas ocupam importantes postos de trabalho em profissões supostamente destinadas aos homens, e muitas reclamam serem discriminadas pela idade, mesmo sendo qualificadas. Como se percebe, uma mulher envelhecer, ainda que qualificada, se torna um problema no mundo laboral.
São mulheres impulsionadoras, que persistem em seus direitos sem se intimidarem com o patriarcado, não que seja fácil o processo para atingir a emancipação feminina.
Estas são as mulheres cujas experiências de vidas foram retratadas no filme: Adelaide Costa (engenheira do ambiente e bombeira); Alice Cunha (mulher transgénero e ativista); Ângela Pica (sobrevivente de violência doméstica e cuidadora informal); Clara Queiroz (feminista, professora reformada da ULisboa e escritora condecorada pelo Estado Português com a Ordem da Liberdade); Leonor de Freitas (empresária feminista de uma grande empresa produtora de vinho); Lúcia Vaz (empregada de limpeza, mulher negra de Cabo Verde); Márcia Sousa (operária e ativista lésbica); Maria Inácia e Perpétua Flores (artesãs do Alentejo); Maria do Mar Pereira (socióloga e professora); Maria José Neto – Zeza (pescadora de alto mar e líder comunitária sindical na aldeia de Castelo do Neiva); Maria João Pereira (bailarina cadeirante com carreira internacional, vive numa região montanhosa da Ilha da Madeira); Mynda Guevara (jovem rapper negra da Cova da Moura) e Toya Prudêncio (ativista feminista cigana).
“É um retrato plural e multiforme das mulheres que habitam o nosso país. Em cada uma, uma história onde se cruzam múltiplas opressões, em cada sujeito uma singularidade. No seu conjunto, um retrato do país, das estruturas, das desigualdades”, como bem afirma Raquel Freire.
São mulheres corajosas e resistentes, que enfrentaram (ou ainda enfrentam) discriminação étnica, racial e de género, no trabalho e até na família, mas que conseguem, a duras penas, atuar de modo micro político transformando a realidade a sua volta. “É uma longa luta, que nos cabe a todas”, destaca a realizadora.
A ativista cigana comenta que a sociedade ainda alimenta a ideia de que ser cigano é ser ladrão, trapaceiro e outras más qualificações; além disso, afirma que eles não conseguem trabalho formal por serem discriminados. Ela atua na luta contra preconceitos buscando alterar esta visão nefasta sobre seu povo.
No filme, há outro depoimento comovente, aquele da senhora cabo-verdiana que faz limpezas em casas de famílias. Ela relata ser constantemente indagada na rua e no metro, a razão pela qual vive em Portugal e por que não volta para a sua terra. Como se vê, o racismo neste país não é velado. São muitas as mulheres negras das ex-colónias portuguesas que aqui vivem (de Cabo Verde, do Brasil, de Angola, etc.) e seguem limpando as casas de portugueses abastados, e sequer, são valorizadas. São mulheres que para sustentar seus filhos, têm uma carga horária excessiva, são mal remuneradas e assumem sozinhas a jornada de trabalho em casa, a responsabilidade e o peso de ser mãe de filhos com pais ausentes.
Outra questão importante também em discussão no documental é a maternidade e a violência doméstica. Uma das mulheres declara que foi vítima do companheiro por não querer ter outro filho, a sua liberdade estava ameaçada. A maternidade é um campo discursivo. Além do mais, o corpo da mulher é constrangido numa armadura do papel de género prescrito pela estrutura biológica por ser a única capaz de procriar diante desta incapacidade do homem. Quando ela se negou a ter filhos, o seu companheiro de vida a perseguiu e ameaçou. Como no mito de Adão, há homens que se vêm no direito de controlar e penalizar as mulheres que não aceitam as regras deles. Ademais, às mulheres cabe a culpa por desviar as regras sociais impostas pelo mundo patriarcal e por fazerem as escolhas sobre os seus próprios corpos.
Apesar de todas as violências que afrontam as mulheres do filme, a realizadora enfatiza que “Cada mulher tem força e a capacidade de olhar o mundo à volta, de o compreender e de o transformar. Só não faz mais, porque está absolutamente assoberbada de trabalho”. E eu acrescentaria: cada mulher não faz mais, por estar rodeada de barreiras sociais a ultrapassar enquanto mulher. O caminho é mesmo longo e sinuoso, precisamos de muita persistência e potência de agir.

Ao longo da história sempre houveram tentativas de apagamento das mulheres e isto se naturalizou na sociedade. É preciso haver mais igualdade de oportunidades. A história das mulheres é diferente daquela dos homens, mas uma não deve excluir ou reduzir a importância da outra. E não esqueçamos que gerações de mulheres se anularam ou tiveram que lutar arduamente, para que outras possam se libertar das imposições e restrições sociais. Não podemos cruzar as mãos, a autonomia e a liberdade feminina não podem ser ditadas por outrem.
Vou findar com algumas falas do filme, elas podem nos estimular a refletir sobre a condição da mulher nos tempos atuais.
“Há dias que nem sequer tenho vontade de acordar”.
“É preciso que a sociedade aceite os diferentes”.
“Há empresas que discriminam e penalizam mulheres por terem filhos; enquanto os homens estão muito libertos para exercerem as suas profissões”.
“Levamos o mundo às costas”.
“A desigualmente é tão quotidiana que se tornou banal”.
“As mulheres são rasuradas da história”.
“Houve uma altura da minha vida que desejei ser homem, porque eles tinham uma liberdade que eu não tinha”.
“A minha filha conseguiu o que eu queria, como ela pode estudar, realizou o meu sonho”.
“Há discriminação por estar fora do peso depois de ter sido mãe, por não se encaixar nos padrões de beleza atuais”.
“Há muitas maneiras de ser mulher”.
“É preciso haver igualdade da diferença”.
“Nós mulheres podemos criar caminhos que sejam nossos”.
“O feminismo é uma forma de estar no mundo, de transformar e ver o mundo”.
Além da realizadora, destaco que o filme tem outra mulher em função de visibilidade no cinema, a montadora Rita Pestana; montagem aliás, muito bem cuidada e costurada. Trailer do filme.
Devido as dificuldades da distribuição cinematográfica em Portugal, “Mulheres do meu país“, infelizmente, ainda não foi lançado em salas de cinema, espero que isto aconteça logo. É um documental instigante e alentador que empodera as mulheres, merece ser visto e debatido. A partir do filme a realizadora criou a série Histórias das mulheres do meu país, focada em cada mulher em separado, com três episódios de 55 min cada, mostrada em março de 2021 e com previsão de ser novamente exibida na RTP em 3 de junho 2022. Fiquem atentos!




















