Susana de Sousa Dias é a realizadora portuguesa cujos filmes espero ansiosamente para ver; sabe bem como orquestrar, de forma equilibrada, as imagens em movimento e o som.
Fordlândia Panacea (2025) é o seu mais recente filme, um impactante documentário ensaístico que desconstrói a ideia desta localidade da Amazónia brasileira, conhecida como “cidade-fantasma”. Segundo Susana de Sousa Dias, Fordlândia não é uma cidade fantasma, mas uma cidade cheia de fantasmas — fantasmas de espaços e de memórias, que a realizadora vem explorando desde o seu primeiro filme, Fordlândia Malaise (2019).
Dividido em capítulos, incluindo um prólogo, o filme liga os vestígios do passado colonialista ao quotidiano dos atuais habitantes desta pacata localidade, com cerca de dois mil residentes, às margens do rio Tapajós, no Pará, norte do Brasil — Amazónia. A realizadora dá a ver as máculas deixadas pelo projeto do industrial norte-americano Henry Ford, que fundou Fordlândia em 1928 como uma cidade-empresa. Um projeto que fracassou em 1945 e cujas ruínas foram sendo transformadas, ao longo do tempo, pelo imaginário coletivo, pela presença e pelas vozes de idosos, adultos e crianças que hoje habitam e ressignificam esse espaço geográfico, físico e simbólico. Em Fordlândia Panacea, Susana “aborda os pontos cegos dessa história, revelando o entrelaçamento entre passado e presente e a tensão entre espectralidade e vida”.
Panaceia significa cura para todos os males. Para os habitantes desta aldeia, aceder ao passado para melhor compreender e viver o presente pode ser uma forma de cura — ou, pelo menos, de transformação da sua realidade.
Nos edifícios abandonados do passado de Fordlândia permanecem memórias cristalizadas. No tempo presente, somos convidados a entrar nas múltiplas camadas da realidade que Susana de Sousa Dias vai desvelando, através de áudios e imagens de arquivo (nomeadamente reportagens sobre a Fordlândia de outrora), bem como de imagens filmadas — incluindo planos aéreos, alguns captados com recurso a drone (aparentemente a primeira vez que a realizadora utiliza esse dispositivo). A câmara percorre lentamente o espaço, enquanto ouvimos a história oral de quem ali resiste. Essa história é contada através de relatos em off de seis pessoas, escolhidas entre vários testemunhos recolhidos previamente. A realizadora refere que esteve em Fordlândia mais do que uma vez, falou com diversos habitantes e só depois decidiu filmar.
Este é um filme de escuta: depoimentos que revelam um espectro de memórias e forças históricas, algumas apagadas ou silenciadas desde 1945. Como é referido num dos testemunhos, existiriam em Fordlândia túneis construídos pelo industrial norte-americano Henry Ford para escoar a produção de ouro retirada do território brasileiro entre 1928 e 1945, enviada para os Estados Unidos no interior de madeiras ocas, tal como o látex extraído das seringueiras — Hevea brasiliensis, matéria-prima para a produção de borracha. Esse látex era recolhido por trabalhadores locais explorados, sujeitos a longas jornadas, baixos salários e ausência de direitos. Estima-se que cerca de 10 mil seringueiras tenham sido destruídas neste projeto.
Quando o empresário chegou a esta região, ali viviam povos indígenas da etnia Tupi, território hoje chamado Cauassu-ê-Pá, pertencente ao município de Aveiro, no estado do Pará. Como ouvimos num dos depoimentos do filme, os indígenas foram expulsos das suas terras para dar lugar à empresa do norte-americano. Além de retirar os povos originários do seu próprio lugar, poluiu o rio Tapajós, desmatou a floresta, destruiu a fauna e a flora e afetou negativamente o ecossistema amazónico. Aliás, o filme põe também em evidência estas questões ambientais, sobretudo através das falas das pessoas, de imagens e de reflexões sobre o estado da floresta amazónica no passado e no presente.
Desde os anos de 1500, época da colonização portuguesa no Brasil, assistimos ao viés explorador, violento e devastador de projetos coloniais. Nos tempos atuais, em menor grau, isto continua a acontecer na Amazónia e, especialmente, em regiões mineiras. O Brasil, infelizmente, é um país estruturado na e pela violência dos que vieram de fora — europeus e norte-americanos —, e isto contaminou o Congresso Nacional (deputados e senadores) e aqueles que detêm o poder financeiro do país, refletindo na vida do povo brasileiro, que resiste e luta para viver em paz.
Voltando a Fordlândia Panacea, um filme afinado e revelador que vale muito a pena ver. Desta vez, vemos no cinema de Susana de Sousa Dias mais imagens filmadas do que imagens de arquivo. O ritmo do movimento das imagens continua suave, coreográfico, cadenciado, reflexivo, sem pressa. O som, desta vez captado por Ansgar Schaefer e com desenho sonoro de António de Sousa Dias (antigo colaborador criativo e irmão da cineasta), continua a ser um recurso importante para a estética cinematográfica da realizadora, seja o som das vozes das pessoas que escuta com atenção, seja o som dos espaços que abrigam memórias e histórias. Uma sonoridade que também cria atmosfera, dá pistas subtis e está carregada de significados. Susana continua a fazer filmes com uma equipa reduzida; neste, fez a pesquisa e o argumento, filmou, realizou e ainda partilhou a montagem com Mário Espada.
Os dois filmes, Fordlândia Malaise e Fordlândia Panacea, possibilitaram a Susana de Sousa Dias aceder ao seu próprio passado — ela, que tem ascendência indígena e desconhecia esse facto. Talvez seja essa a razão que a levou ao Brasil, à Fordlândia, à Amazónia. Quem sabe, um dia, faça um filme sobre isso, para além do próximo, que será sobre a história dos seringueiros amazónicos.Fordlândia Panacea tem 66 minutos e foi realizado com apoio financeiro do DAAD, da Fundação Calouste Gulbenkian e do Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA). Rodado em uma semana, conta com produção e distribuição da Kintop Filmes. Estreou mundialmente no IDFA, em novembro de 2025; no Brasil, no festival É Tudo Verdade, em abril de 2025, na cidade de São Paulo; e, em Portugal, no IndieLisboa 2026, com a presença da realizadora.














