Se em 2009 o realizador João Rosas assinava “Birth of a City” onde, com uma forte dimensão de diário, refletia sobre a sua relação com Londres e o processo de gentrificação, em 2023 ele estreia no Doclisboa o seu “A Morte de uma Cidade” onde também explora a sua relação com uma urbe, desta vez Lisboa, e o seu processo de transformação em marcha, particularmente depois da crise de 2008. Jogando entre os dois filmes, não apenas no título e na forma diarista na abordagem, mas principalmente na sua relação (no seu olhar) perante elas, Rosas começa este projeto com a desculpa da compra de uma câmara para filmar o seu filho. De várias obras em curso, numa cidade-estaleiro, o cineasta parece descobrir o seu filme quando um francês, que anda a investir em Lisboa, lhe aluga a casa na zona da Graça e lhe fala de uma uma obra específica em pleno Bairro Alto.
Aquilo que parece começar como um diário do boom imobiliário da cidade de Lisboa, de câmara à mão, no rescaldo da crise financeira, com investidores a virarem a atenção para o centro das cidades como investimento seguro, rapidamente começa a deslocar-se para os trabalhadores migrantes implicados nessa transformação de Lisboa, uma cidade “que precisa sempre de mais um Hotel”, e onde o comércio já não vende meias de leite, mas Latte e bowls, que se tornam uma nova religião. E é com esses migrantes, não os franceses com bons rendimentos, mas os africanos de escassos recursos, que João vai permanecer, observado e falando dos seus dilemas, víveres, angústias e ambições, acompanhando assim uma Lisboa que nasce na estação do Rossio, onde muitos desembarcam após viagens da Amadora e Cacém.
Não é uma tarefa fácil, já que os modelos de trabalho, tal como as cidades e tudo na nossa vida híper apressada e assente no crescimento económico a qualquer custo, mudaram radicalmente as sociedades entregues ao liberalismo. Os tempos do pedreiro e servente que estavam sempre na mesma obra mudaram, e as empresas de trabalho temporário vão fazendo estes homens saltar de construção em construção, quais nómadas de trabalho braçal em tempos que os “digitais” (o Homo Digitus), de economias mais fortes, vão progressivamente ocupando a cidade e os espaços reservados à habitação. Talvez alguns deles até dão as informações à distância para essa força braçal andar de obra em obra, de terra em terra.
E quando não o faz por meias palavras dos seus objetos entrevistados, ou através das imagens das transformações urbanas em curso, que alteram o espírito da própria cidade, pontualmente João Rosas faz pequenas passagens explicativas das leis económicas e sociais do período pós-crise até ao início da década de 2020, tudo num ping-pong narrativo que cativa o espectador e lhe dá ferramentas para a reflexão e debate. Reflexões e debate onde não se isentam as contradições de todo um processo complexo, onde se lamenta a falta de habitação, mas a chegada de novas pessoas e ideias que nos ajudaram a sair da jaula do recanto racista e homofóbico. Contradições que não soam a hipocrisias, mas sim à natureza complexa da nossa relação com a cidade, entre o amor e o ódio, mas nunca a indiferença.




















